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FUTEBOLÊS – F: “Filosofia” é ganhar

Se Descartes fosse treinador de futebol diria “ganho, logo, existo”, colidindo de frente com o diletante Jorge Valdano, “el Filósofo”, para quem o jogo é (apenas) uma “desculpa para sermos felizes”, explicação sumária para a sua curta carreira de técnico de alta competição.

Arte ou resultado, bola ou esforço, êxtase ou sobrevivência, genética ou treino, ADN ou “Filosofia de jogo”?

É raro o dia que não ouvimos treinadores ou analistas avançarem decididos no campo da reflexão, inspirados em mestres que assumiram construir os seus modelos de jogo, de trabalho e de liderança a partir de ideias filosóficas – ou não fosse, por exemplo, o legado de Johan Cruyff sobre o futebol belo e de ataque plasmado num livro intitulado “Futebol, a minha Filosofia”, que orienta os seus discípulos.

O herdeiro Guardiola é incensado por declarar princípios básicos a que o marketing empresta uma aura de prolóquio metafísico e inovador: “somos bons porque mantemos a bola”. Mas a verdade é que José Maria Pedroto, há 40 anos, já declarava “se eu for dono da bola, serei dono do jogo”. Tal como Otto Glória, há 60, na metáfora da posse “não há omelete sem ovos”.

Novo fraseado, nem sempre coerente, para conjugar velhas ideias. E agora juntaram-lhe o ADN, que alguém já descreveu como a “filosofia da humanidade”, por condicionar a identidade e estrutura dos indivíduos e dos povos.

“O nosso ADN é ganhar”, proclamava Fernando Santos sobre a seleção nacional.
“Não vamos abrir mão do ADN da equipe, sempre muito compacta e agressiva quando não tem a bola” – explicava Jorge Jesus sobre o seu Flamengo.
“Eu e o Corinthians temos um pouco do mesmo ADN”, dizia Vitor Pereira antes de deixar o clube de São Paulo para seguir as pisadas do “mister” no Rio de Janeiro.
“Lendo, formamos o nosso ADN, o nosso código genético de escrita, o nosso estilo, conseguimos ter as nossas influências e a nossa identidade. No futebol é a mesma coisa”, comparava Freitas Lobo, influente comentador televisivo com livros publicados a respeito.

E assim não há jogo nem joguinho que não nos venham resumir peripécias, reviravoltas, falhanços, proezas e “remontadas”, às vezes por meras repetições de exercícios colectivos treinados exaustivamente, noutras por inexplicáveis acidentes ou golpes de sorte, com a boa da “filosofia de jogo”. E o ADN, a identidade, é o “passe-vite” da eloquência desportiva:
“A nossa maior vitória é hoje sermos fiéis ao nosso ADN, nas diversas moléculas que o constituem”, declarou Frederico Varandas num discurso aos sócios do Sporting, após o ano vitorioso de 2021.

É, pois, um conflito insanável que alimenta “flash interviews” e discussões de “experts”. Se alguém obtém vitórias e títulos, mas não cativa pelos espectáculos que proporciona, colam-lhe o rótulo de “resultadista” colocando uma repugnante carga negativa em cima da filosofia de ganhar. Mas os que não os alcançam, por mais espectaculares que sejam as suas equipas, rapidamente são atropelados pela cobrança dos troféus não conquistados – porque ninguém identifica um ADN perdedor ou uma Filosofia de derrota.

«Ninguém gosta de jogar bem e perder, só os que falam de filosofia», sintetiza o pragmático José Mourinho que, no entanto, em 2012 afirmou que aspirava “a mudar a filosofia futebolística (porque) não existem treinadores com as mesmas ideias”.

A “Filosofia” no futebol moderno ocupa um lugar de honra, depois de ter sido elevada a disciplina dos cursos superiores de desporto e de se tornar público que os principais treinadores se desenvolveram em contacto profundo com a sabedoria do maior pensador português nesta área, Manuel Sérgio, a quem José Maria Pedroto designou de “profeta”, antecipando-lhe o reconhecimento mundial que chegaria décadas mais tarde.

“Dava-me livros de filosofia para ler e um dia disse-lhe que aquilo rebentava-me a cabeça”, revelou Jorge Jesus, também discípulo de Cruyff, numa homenagem ao sábio professor que influenciou o pensamento futebolístico português e brasileiro, a nível académico, com um princípio simples mas revolucionário.
“Quem sabe só de futebol, de futebol nada sabe”, escreveu Manuel Sérgio.
“O futebol é isto mesmo”, acrescentou Manuel José.

João Querido Manha

2 Comentários

  • Paulo Roberto Falcao
    Posted Janeiro 6, 2023 at 9:54 am

    Excelente artigo João. Totalmente de acordo, é um debate sem fim.

    Queria apenas acrescentar que a expressão do ADN Barça é bem polémica, e tem raízes e derivações no nacionalismo catalão, que a usou e usa frequentemente. Desde sempre.

    Esta declaração de Oriol Junqueras, o Presidente da Esquerda Republicana da Catalunha, que dizem as sondagens pode muito bem vir a ser o próximo Presidente da Generalitad, mesmo estando preso, há uns anos teve esta declaração explosiva a este propósito:

    https://www.libertaddigital.com/espana/politica/2015-07-26/oriol-junqueras-los-catalanes-tienen-mas-proximidad-genetica-con-los-franceses-que-con-los-espanoles-1276553647/

    Como se lê no artigo já desde os tempos de Jordi Pujol que os catalães eram pródigos em declarações sobre o sangue catalão, o seu suposto afrancesamento e a sua suposta falta de hispanidade. Ah e em termos bem injuriosos para nós portugueses, que somos tratados como meio andaluzes, pelo que às vezes me espanto com a simpatia com que o nacionalismo catalão é por cá tratado. Adiante, isto não é sobre política.

    A expressão ADN Barça é a continuação desportiva deste tipo de declaração política, uma vez que o Barcelona se casou com o nacionalismo catalão nos últimos quarenta anos. Há muito racismo cultural nela, porque os sapiens sapiens têm supostamente todos o mesmo ADN, assim o diz a ciência.

    Quem quer que conheça um catalão sabe que este tipo de altivez e arrogância, tipo complexo de superioridade em relação a Espanha e aos espanhóis, acompanhado sempre por um vitimismo( Espanha rouba-nos!- lá diz o slogan). é um dos motores do nacionalismo catalão.

    Junte-se a isto a escola holandesa de futebol( nota: fundada por Cruyff como futebolista, mas também por Rinus Michels, treinador cujo trabalho deixou marca em Barcelona), a chegada do filho predileto mais que perfeito do nacionalismo catalão ao Barça, Guardiola, e a melhor geração de jogadores da história do clube e de Espanha( Messi claro, mas também Xavi, Puyol, Iniesta, Busquets, etc), e estava feito o slogan: ADN Barça. Creio que foi daí que nasceu e cresceu a expressão.

  • Miguel Magalhaes
    Posted Janeiro 6, 2023 at 12:44 pm

    João, faltou só falar do grande Prof. Vitor Frade, referência da actual geração ganhadora de treinadores nacionais. Ou como lhe chamou Carlos Daniel “o maior revolucionário silencioso do futebol português.”

    Cito uma parte deliciosa de uma palestra que deu em tempos: “Uma das palavras mais criminosas que existem hoje no futebol é ‘intensidade’, relacionada com velocidade. Intensidade? Intensidade é quando estamos concentrados e atentos e as coisas saem com fluidez. Isso é que é intensidade.”

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