Há um ano atrás, a 4 de fevereiro de 2018, festejava-se em Philadelphia o 1.º título da franchise. Depois de uma run histórica nos playoffs, esperava-se a confirmação de que os Eagles estivessem um passo à frente das restantes franchises e se afirmassem como a melhor equipa, liderada por um Carson Wentz saudável. Volvidos 12 meses, tal não se desenrolou. Os Eagles caíram nos playoffs perante uns Saints liderados pelo fantástico Drew Brees, os Rams potencializaram a nova dupla treinador-quarterback McVay-Goff, que promete suceder a Belichick-Brady (que fantástica storyline seria se este último par se retirasse este ano e, no próximo, a nova dupla conquistasse o seu 1.º Superbowl), e o MVP mais novo de sempre, Patrick Mahomes, que juntamente com Andy Reid tornou os Chiefs na melhor offense da regular season, com uma fantástica média de 35.3 pts/game, a melhor desde 2007, quando os Patriots registaram 36.8 pts/game (quem mais), caiu perante o jogador com mais títulos de Superbowl e que marcou a maneira como se joga o jogo, Tom Brady. No meio de acontecimentos e recordes, há um jogador que merece o devido destaque e prémio, e cuja biografia justifica divulgação, Shaquem Griffin, vencedor do NFL Game Changer Award (2018).
O linebacker foi escolhido numa 5th round, na posição 141 overall, pelos “meus” Seahawks e reconciliou-se com o irmão Shaquill Griffin (drafted em 2017) que, honestamente, já impressionava Seattle pela adaptação à posição de cornerback e pela fantástica prestação ao longo destas duas temporadas, fazendo esquecer o carismático Richard Sherman. Os gémeos têm uma vitalidade magnífica, que, aliada à fantástica narrativa, energiza os outros jogadores e técnicos e traz uma mentalidade vencedora e de perseverança aos Hawks.
Como se pode ver na foto de Shaquem a segurar o merecido troféu, o jogador não possui mão esquerda, pois nasceu com síndrome de banda amniótica nesse membro (a mão não se desenvolveu como as restantes partes do corpo) e, aos quatro anos, foi submetido a uma operação para a amputar, devido à dor constante. Para muitos, isto seria o fim de vida no mundo desportivo, especialmente em modalidades praticadas com as mãos, mas apoiado pelo irmão e pela família, Shaquem persistiu e não desistiu de lutar pelo seu sonho de jogar futebol americano ao mais alto nível com o irmão. Numa das várias entrevistas, constata que o início foi a parte mais tumultuosa e difícil de ultrapassar, visto que ninguém queria acreditar que ele pudesse praticar o desporto com a sua deficiência. No entanto, sempre motivado pelo irmão, nunca parou de treinar, até que, em Outubro de 2013, os gémeos receberam bolsas para representar a universidade de Central Florida o que, por si só, já era um feito sem precedentes. De repente, parecia que a sua ambição era alcançável e que tinha talento suficiente para fazer o impensável. Nos anos seguintes, os gémeos tiveram um início árduo, particularmente Shaquem, que precisava constantemente de superar as expetativas dos treinadores e dos seus colegas de equipa. Assim, durante os dois primeiros anos deste novo desafio, a dupla viria a amadurecer e desenvolver o seu jogo físico e tático para cumprir a tão desejada ambição de se estrear na NFL. Em 2015 e 2016, o trabalho custoso de Shaquill começou a render, ao ponto de se vir a destacar na defesa dos Knights de Central Florida e, consequentemente, ser drafted pelos Seahawks em 2017, como uma third round pick para cumprir o seu próprio sonho de jogar na NFL, esperando que o irmão mais novo rapidamente o alcançasse. Além deste duro golpe (os irmãos partilharam sempre o balneário, algo que necessariamente mudou), Shaquem tinha de se debater contra as dúvidas que pairavam sobre a sua capacidade, enquanto deficiente, de conseguir jogar na NFL. Em 2016 e 2017, este último ano sem o irmão, aproveitou as oportunidades que lhe foram dadas pelo treinador da equipa universitária de Orlando e realizou épocas notáveis, ajudando os Knights a sagrarem-se campeões nacionais invictos, culminado o seu percurso universitário de cinco anos com prémios individuais como Defensive Player of the Year (2016), Defensive MVP da Peach Bowl (2018), presenças na 1.ª equipa de AAC, entre outros.
Naturalmente, em março de 2018 participou no NFL Scouting Combine, onde se distinguiu por fazer vinte repetições no supino, enquanto usava uma prótese, e bateu o tempo recorde na corrida de 40 jardas para um linebacker, com uns incríveis 4.38 segundos. Este destaque, aliado às incríveis épocas individuais que realizou e ao sucesso do irmão na equipa dos Hawks não deram hipóteses ao general manager, que se viu obrigado a apostar nele. Finalmente, a 28 de abril de 2018 foi drafted pelos Seahawks, reencontrando finalmente o irmão gémeo, Shaquill, e, pela primeira vez na história do desporto, um homem sem uma mão pertencia aos quadros de uma equipa. Como resultado desta seriação, o nome Shaquem Griffin espalhou-se e, sem surpresas, inspirou todos os adeptos e, principalmente, miúdos que partilham problemas semelhantes a acreditar que é possível superar as adversidades da vida trabalhando arduamente.
A rookie season do linebacker foi de altos e baixos, e o seu impacto dentro de campo ficou aquém do esperado (fora de campo o seu efeito já tinha superado todas as expectativas), pois, embora tivesse participado em 16 jogos, passou de linebacker titular a role player nas special teams. Contudo, independentemente de jogar ou não, a sua mera presença, o seu significado, inspirava por si só adeptos (não só da sua equipa) e pessoas na mesma situação, comprovando definitivamente que trabalho árduo compensa – uma mensagem que fez questão de passar quando, no passado dia 2 de fevereiro, recebeu o prémio NFL Game Changer Award.
Griffin já afirmou que, na offseason, planeia treinar mais a leitura de jogo, enquanto mantém a condição física no nível da NFL. Sabido todo o teu percurso até este ponto, e considerando toda a tua humildade, não tenho a menor dúvida de que se vai tornar numa peça fundamental dos Seahawks, juntamente com o teu irmão, e eu estarei até ao fim a ver-te inspirar todos e a incutir o a ideia de que trabalhar compensa. Obrigado por me cativares a escrever este texto.
Visão do leitor (perceba melhor como pode colaborar com o VM aqui): Tomás Costa


2 Comentários
auba14
Bom texto ?
A história dele vai dar num filme…
Apessoa
Grande história.
Parabéns pelo texto.