O épico confronto que opôs o Tottenham ao Inter faz parte daquele grupo de jogos mais excitantes que já passaram em qualquer televisor e, o brilho dado por Bale, é um daqueles extras que qualquer tele-espectador pagaria para poder ver. Cintilante mesmo foi o seu hat-trick em Milão no primeiro duelo esta época entre as duas equipas, num jogo que ficou marcado pela derrota dos Spurs, embora isso se deva muito ao facto de se terem visto reduzido a 10 unidades desde bem cedo. Mas o jovem galês revelou-se decisivo no jogo de volta em White Hart Lane, entregando de bandeja dois golos fáceis a Peter Crouch e Pavlyuchenko, ouvindo-se desde as bancadas do mítico estádio um estrondoso aplauso que tinha como destino, acima de todos, o génio de Gareth Bale. O futebol deste estonteante ala esquerdo fez então nesse dia com que qualquer analista, cronista, ficasse sem palavras ao ver aquelas cavalgadas de cortar a respiração, inspiradas por um ambiente único, apenas proporcionado pelos históricos estádios ingleses. Refrescantemente, Bale parece continuar relativamente perto da órbita da Terra, mesmo após esta astronómica subida até ao altar da fama. Para isso muito contribuirá um treinador que, fazendo aqui a excepção a Fergunson e Wenger e às suas habilidades pedagógicas junto dos jovens, o faz crescer enquanto pessoa: “Passa demasiado tempo em frente ao espelho a arranjar o cabelo!”, disse uma vez Redknapp sobre Bale.
“Todos estão tão espantados pelo Bale. Maicon é o melhor defesa-direito do mundo. Mas esta noite, o Gareth matou-o”. A frase é de Van der Vaart, colega de equipa de Bale, e é por demais exemplificativa do inferno que o brasileiro suportou o jogo inteiro.
O espanhol El Mundo fez-lhe também o melhor dos elogios: “Bale combina a altura e a compleição fisica de um corredor de 800m como o Steve Ovett, com a acelaração e o sentido prático de um ala do rugby como o Bryan Habana. E, quando ele chega à linhade fundo, cruza como um extremo brasileiro. Palavras enormes? Sim, mas é isso que Bale é – a maior sensação do primeiro mês e meio de Liga dos Campeões. Perguntem a Maicon o que ele pensa depois destes dois jogos. Ontem ele deixou Maicon morto e ainda teve tempo de contornar uma velha raposa como Lúcio, ficando este como que a tentar apanhar com as mãos o vapor de um avião. Três golos e duas assistências – contra o campeão da Europa. A suas suas actuações foram estonteantes”.
Após assistir a estas tremendas demonstrações de talento, pondero se algum dia Bale alcançará o nível do melhor futebolista da pobre história do País de Gales neste desporto, o extremo do Man. United, Ryan Giggs. Será de fácil conclusão dizer que terá de demonstrar consistência por um período muito maior que apenas dois jogos para atingir esse particular feito. Parte do meu entusiasmo ao ver a forma como o Tottenham ressequiu o vencedor da última edição da Liga dos Campeões, reside muito no meu particular apreço por esta equipa londrina, mas também no facto de ser entusiasmante ver uma equipa inglesa diferente das habituais fazer esta figura na competição. Sem desrespeito para com Chelsea, Arsenal ou Man. United, torna-se aborrecido ver sempre as mesmas equipas a dar um ar da sua graça e então, ver a erupção do White Hart Lane provocar tal cacofonia de barulho contra o Inter é uma alegria de ser vista. A razão para estar a ser levado tanto tempo para que um gigante europeu contrate um jogador como Luka Modric escapa-me, mas o dínamo croata esteve no seu melhor na noite de terça-feira, contorcendo os rins dos defesas interistas, jogando entre-linhas e criando constantemente espaço para ele e para quem o rodeava. O seu virtuosismo foi complementado pelas corridas imparáveis de Bale e a visão de Van der Vaart, fazendo do jogo fluído do Tottenham, bem como do seu contra-ataque venenoso, uma das maiores atracções deste início de época.
Um galês a humilhar um brasileiro – quem pensaria sequer neste cenário? – e se os fãs do Tottenham neste momento se encontram a sonhar com o que ainda virá daqui para a frente depois das performances de Gareth Bale, imaginem apenas o tipo de pesadelos que estará a ter a esta hora Maicon.
Valerá o galês os 55 milhões que o Tottenham pede pela sua venda? No top dos melhores jogadores da actualidade em que lugar colocariam o esquerdino? É Gareth Bale neste momento o melhor lateral esquerdo do Mundo ou o melhor ala esquerdo do futebol Mundial?
A.Borges

