Há quem ande pelo relvado como se estivesse num desfile de moda na Avenida da Liberdade, preocupado apenas em não despentear a técnica e em garantir que o espelho lhes devolve uma imagem de craque. O Lukebakio, por exemplo, é um portento técnico, disso ninguém duvida, mas padece de uma cegueira coletiva crónica e tem a mania de querer ser o protagonista da novela, o realizador e o gajo que vende as pipocas à entrada. Ignora as movimentações dos colegas, desdenha do momento de pressão e trata as transições defensivas como se fossem um aborrecimento exclusivo do seu lateral-direito, como se defender fosse uma tarefa para a plebe ou um castigo das Finanças. Quer sempre terminar as jogadas, focado no brilho individual, enquanto o coletivo que se amanhe.
E depois temos o Gianluca Prestianni. Meus senhores, abram os olhos, porque a maior parte da malta ainda não percebeu a pérola que ali brilha, e de quem quase ninguém fala. Talvez não venha a dar um Di María, um Gaitán ou um Salvio – que a história não se escreve por encomenda e ninguém está aqui a vender ilusões -, mas a verdade é que o rapaz está cada vez melhor, até em termos defensivos. Este miúdo de vinte anos tem muito mais impacto técnico no jogo do que o Lukebakio ou o Rafa numa tarde de inspiração. É uma peça de joalharia funcional. Contra o Moreirense mal saltou do banco aos 58 minutos, a equipa transfigurou-se. No lance do 4-1, foi ele quem descobriu o caminho, servindo o Dedić com a precisão geométrica de um arquiteto, para que este cruzasse para a finalização do Ivanović. É o futebol pensado três segundos antes dos restantes.
As características deste argentino são um hino ao compromisso que o José Mourinho tanto venera. Prestianni possui uma condução de bola curta que deixa as defesas com um nó no sistema nervoso, mas, ao contrário das vedetas que se perdem em floreados estéreis, ele sabe usar essa técnica para ferir o adversário. Tem uma aceleração explosiva no primeiro passo, visão para queimar linhas com um passe vertical e, acima de tudo, uma inteligência tática invulgar. Ele não corre de forma atabalhoada; ele corre para fechar o espaço, morde os calcanhares na recuperação de bola e desce vezes sem conta para dar cobertura constante à sua defesa. É o rigor defensivo de um veterano com o pulmão de um jovem recruta.
A este talento junta-se uma fibra mental que já não vem nos manuais modernos. Depois da triste novela em torno do caso de racismo com o Vinícius, onde tribunais de bancada tentaram atirar o seu nome para a fogueira, seria mais do que compreensível que um miúdo de vinte anos fosse abaixo. Qualquer outro teria procurado refúgio no departamento médico ou ombro amigo numa agência de comunicação. Ele não. Negou as acusações, manteve o porte senhorial de quem tem a consciência limpa e respondeu no único tribunal onde os jogadores a sério discursam: nas quatro linhas do relvado.
E, coroando tudo isto, o rapaz parece sentir o Benfica como se tivesse nascido a comer papas de Nestum nas Portas de Benfica. Quando o treinador o deixa no banco, não fica a olhar para as unhas com ar de menino amuado. É o primeiro a levantar-se, a aplaudir, a motivar a equipa e a puxar pelos colegas como um autêntico capitão sem braçadeira. Enquanto uns procuram a glória solitária da fotografia no jornal do dia seguinte, o Prestianni procura a vitória de todos. A malta pode continuar distraída a olhar para os holofotes do costume, mas a verdade é cristalina: temos ali um grande projeto de jogador. Uma pérola rara que, em silêncio, vai construindo o seu império.
Valter Batista

