Comecemos pelo que é verdade, para ninguém se ofender logo à primeira: com Ronaldo, Portugal ganhou um Euro e duas Ligas das Nações. Antes, não tinha ganho nada. Mas são 23 anos de seleção, e a Liga das Nações só existe desde 2018. Dê-se a qualquer seleção mais tempo e mais troféus para disputar, e a probabilidade de ganhar alguma coisa sobe. Não é milagre, é aritmética.
A pré-história, essa época obscura
Em 1989 e 1991, Portugal foi campeão do mundo de sub-20. Duas vezes. Dessa “seleção sem rumo” saíram Figo, Rui Costa, Fernando Couto, Paulo Sousa, João Pinto. Gente que, imagine-se, também sabia jogar à bola.
No Euro 96, essa geração ganhou o grupo sem perder, com a Dinamarca campeã europeia lá dentro. Caiu nos quartos com um chapéu de génio de Poborsýk, de uma Chéquia que iria à final. Fraca, portanto.
Em 1998 não fomos ao Mundial. Estávamos a ganhar à Alemanha em Berlim, com o primeiro lugar à vista, quando um árbitro francês decidiu expulsar Rui Costa enquanto este saía substituído. Empatámos e ficámos de fora por um ponto. Falta de identidade, dirão.
Depois veio o Euro 2000, provavelmente a fase final mais bonita que esta seleção já jogou. Virar um 0-2 com a Inglaterra. Ganhar à Roménia no último suspiro. Golear a Alemanha com a equipa B. Só a França, campeã do mundo(!!), nos travou nas meias-finais, e precisou de um penálti no prolongamento para o fazer.
Para sermos justos, coisa que os fiéis raramente são: em 2002 houve um desastre na Coreia. Foi o último torneio sem Ronaldo. Guardem este dado, que vai fazer falta mais à frente.
Scolari: quando havia equipa
Os melhores anos foram com Scolari, um verdadeiro “Sargento”, liderança ímpar, a lembrar JJ agora. Fomos final do Euro 2004, meias-finais do Mundial 2006. Ronaldo estava lá, com 19 e 21 anos, e foi peça relevante, mas não o foco. A equipa era de Figo, Rui Costa, Deco, Couto, Carvalho, Pauleta, Simão, Maniche, Nuno Gomes…. Uma equipa a sério, cheia de campeões europeus, onde ninguém abafava ninguém.
Ronaldo ao leme: o milagre que não veio
A Geração de Ouro e outros senadores saíram, Ronaldo ficou com a braçadeira e com a equipa às costas. E o que aconteceu? Exatamente o mesmo de antes. Às vezes pior.
Euro 2008 ainda com Scolari, quartos de final, como em 1996. Mundial 2010: oitavos, sem marcar um único golo fora o jogo com a Coreia do Norte (Costa Marfim, Brasil, Espanha não marcamos). Euro 2012: meias-finais, como em 2000. Mundial 2014: fora na fase de grupos, depois de levar quatro da Alemanha.
Lembram-se do desastre de 2002, o tal sem Ronaldo? Em 2014 houve um igualzinho, com Ronaldo. Curiosamente, deste fala-se muito menos.
2016: o título que se conta pela metade
Chegamos ao grande trunfo dos crentes: o Euro 2016. Ganhámos, e foi uma alegria imensa. Mas a história completa é menos épica do que a versão oficial.
Portugal passou a fase de grupos com três empates, em terceiro lugar, graças a uma regra estreada nesse ano que deixava passar os melhores terceiros. Em sete jogos, ganhou um nos 90 minutos. E na final, Ronaldo saiu lesionado aos 25 minutos. O título mais importante da nossa história foi decidido com ele fora de campo, por um golo de Éder.
Seja-se justo, outra vez: sem os dois golos dele à Hungria, nem teríamos passado o grupo. Mas uma coisa é ser decisivo, outra é ser a seleção inteira.
Mundial 2018: hat-trick memorável à Espanha, eliminados nos oitavos. Euro 2020: eliminados nos oitavos. Mundial 2026: eliminados nos oitavos.
E o melhor resultado destes anos? Quartos de final no Mundial 2022, o torneio em que Ronaldo menos marcou. O melhor jogo? Portugal 6-1 Suíça. Ronaldo começou no banco. Adivinhem lá.
Pode ser coincidência. Mas é uma coincidência teimosa.
E agora, sem ele
Jorge Jesus estreia-se na Liga das Nações, vai à Noruega e ganha. Vai à Dinamarca e ganha por 4-2. Exibições sólidas, consistentes, de uma equipa que joga de olhos levantados. E, adivinhe-se, Ronaldo estava fora. E são seleções fortes, na casa deles!
Dois jogos não fazem uma era. Mas chegam para enterrar a ideia de que, sem ele, a seleção não sabe jogar à bola nem vai ganhar nada. Gonçalo Ramos, Vitinha, João Neves, Nuno Mendes, João Félix já cá estão. E jogam.
Chega do mito
Ronaldo é um dos grandes jogadores da história, e ninguém lhe tira os golos nem os troféus. O que se lhe devia tirar é o papel de Messias. Portugal não nasceu em 2003.
Se não fosse aquela noite em Berlim, teríamos ido a todas as fases finais de 1996 a 2002 sem ele. O Euro 2000, a fase final mais espetacular a que assisti, não o tínhamos lá. O melhor jogo da última década, os quartos contra a Suíça em 2022, também não. O melhor jogo da década 2010, vitória à França na final de 2016, também saiu cedo do jogo.
Já havia seleção sem Ronaldo. E vai haver seleção sem Ronaldo. Por muito que isso custe às Ronaldetes.
Visão do Leitor: José Sacadura


5 Comentários
Um Jasomp
Isto. Chegou-se ao ponto de parecer que éramos a Andorra antes dele aparecer.
O Rio Ferdinand perguntou onde estava Portugal antes de Ronaldo aparecer. Eu respondo. Eu digo, a ganhar a Inglaterra no Euro 2000.
ACT
Uma coisa que ficou por dizer. As exigências para as qualificações nos mundiais, hoje em dia até Cabo Verde, Coração, Cazaquistão e etc vão ao mundial, há fases de grupos nas fases finais que passam os melhores terceiros em quatro equipas, o que aumenta exponencialmente a probabilidade de presença nas grandes competições e nas fases adiantadas de seleções como a nossa.
Isto é válido com e sem Ronaldo, a tendência é esta devido ao alargamento das vagas.
Coloquei aqui a uns tempos os golos do Ronaldo na seleção e a quantidade Indústrial de golos a seleções quase amadoras é absurda.
Mas somos obrigados agradecer senão corremos o risco de ser insultados.
Paulo Roberto Falcao
Tudo certo, mas podias ter falado em 1966, nas cinco finais da Taça dos Campeões Europeus do Benfica do Eusébio, do nosso brilhante Euro 84 e do titulo europeu do Futebol Clube do Porto contra o Bayern em Viena. Ah e já agora do titulo Mundial de sub 17 no ano passado
Só assim como marcos maiores, claro que havia futebol português antes deste sujeito, e claro que vai continuar a haver. A horda dos tontinhos vai continuar por aí, mas agora são isso mesmo, uma cambada de tontinhos. Irreal foi que esta gente condicionou tudo durante anos.
SilvadasAguas
É pena que este texto não chegue a saloiada da seita
painatal
E relembrar que na primeira liga das nações, fazemos uma fase de grupos incrível sem ele. Que depois veio colher os frutos na fase final.