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Já havia seleção antes de Ronaldo, e vai haver depois

Há uma seita em Portugal que acredita que o futebol português nasceu a 20 de agosto de 2003. Antes disso, segundo os seus fiéis, havia trevas: uma seleção sem rumo, sem identidade, que andava pelos relvados da Europa a pedir licença. Depois, fez-se luz. Chamemos-lhe Génesis segundo as Ronaldetes.

Comecemos pelo que é verdade, para ninguém se ofender logo à primeira: com Ronaldo, Portugal ganhou um Euro e duas Ligas das Nações. Antes, não tinha ganho nada. Mas são 23 anos de seleção, e a Liga das Nações só existe desde 2018. Dê-se a qualquer seleção mais tempo e mais troféus para disputar, e a probabilidade de ganhar alguma coisa sobe. Não é milagre, é aritmética.

A pré-história, essa época obscura

Em 1989 e 1991, Portugal foi campeão do mundo de sub-20. Duas vezes. Dessa “seleção sem rumo” saíram Figo, Rui Costa, Fernando Couto, Paulo Sousa, João Pinto. Gente que, imagine-se, também sabia jogar à bola.

No Euro 96, essa geração ganhou o grupo sem perder, com a Dinamarca campeã europeia lá dentro. Caiu nos quartos com um chapéu de génio de Poborsýk, de uma Chéquia que iria à final. Fraca, portanto.

Em 1998 não fomos ao Mundial. Estávamos a ganhar à Alemanha em Berlim, com o primeiro lugar à vista, quando um árbitro francês decidiu expulsar Rui Costa enquanto este saía substituído. Empatámos e ficámos de fora por um ponto. Falta de identidade, dirão.

Depois veio o Euro 2000, provavelmente a fase final mais bonita que esta seleção já jogou. Virar um 0-2 com a Inglaterra. Ganhar à Roménia no último suspiro. Golear a Alemanha com a equipa B. Só a França, campeã do mundo(!!), nos travou nas meias-finais, e precisou de um penálti no prolongamento para o fazer.

Para sermos justos, coisa que os fiéis raramente são: em 2002 houve um desastre na Coreia. Foi o último torneio sem Ronaldo. Guardem este dado, que vai fazer falta mais à frente.

Scolari: quando havia equipa

Os melhores anos foram com Scolari, um verdadeiro “Sargento”, liderança ímpar, a lembrar JJ agora. Fomos final do Euro 2004, meias-finais do Mundial 2006. Ronaldo estava lá, com 19 e 21 anos, e foi peça relevante, mas não o foco. A equipa era de Figo, Rui Costa, Deco, Couto, Carvalho, Pauleta, Simão,  Maniche, Nuno Gomes…. Uma equipa a sério, cheia de campeões europeus, onde ninguém abafava ninguém.

Ronaldo ao leme: o milagre que não veio

A Geração de Ouro e outros senadores saíram, Ronaldo ficou com a braçadeira e com a equipa às costas. E o que aconteceu? Exatamente o mesmo de antes. Às vezes pior.

Euro 2008 ainda com Scolari, quartos de final, como em 1996. Mundial 2010: oitavos, sem marcar um único golo fora o jogo com a Coreia do Norte (Costa Marfim, Brasil, Espanha não marcamos). Euro 2012: meias-finais, como em 2000. Mundial 2014: fora na fase de grupos, depois de levar quatro da Alemanha.

Lembram-se do desastre de 2002, o tal sem Ronaldo? Em 2014 houve um igualzinho, com Ronaldo. Curiosamente, deste fala-se muito menos.

2016: o título que se conta pela metade

Chegamos ao grande trunfo dos crentes: o Euro 2016. Ganhámos, e foi uma alegria imensa. Mas a história completa é menos épica do que a versão oficial.

Portugal passou a fase de grupos com três empates, em terceiro lugar, graças a uma regra estreada nesse ano que deixava passar os melhores terceiros. Em sete jogos, ganhou um nos 90 minutos. E na final, Ronaldo saiu lesionado aos 25 minutos. O título mais importante da nossa história foi decidido com ele fora de campo, por um golo de Éder.

Seja-se justo, outra vez: sem os dois golos dele à Hungria, nem teríamos passado o grupo. Mas uma coisa é ser decisivo, outra é ser a seleção inteira.

Mundial 2018: hat-trick memorável à Espanha, eliminados nos oitavos. Euro 2020: eliminados nos oitavos. Mundial 2026: eliminados nos oitavos.

E o melhor resultado destes anos? Quartos de final no Mundial 2022, o torneio em que Ronaldo menos marcou. O melhor jogo? Portugal 6-1 Suíça. Ronaldo começou no banco. Adivinhem lá.

Pode ser coincidência. Mas é uma coincidência teimosa.

E agora, sem ele

Jorge Jesus estreia-se na Liga das Nações, vai à Noruega e ganha. Vai à Dinamarca e ganha por 4-2. Exibições sólidas, consistentes, de uma equipa que joga de olhos levantados. E, adivinhe-se, Ronaldo estava fora. E são seleções fortes, na casa deles!

Dois jogos não fazem uma era. Mas chegam para enterrar a ideia de que, sem ele, a seleção não sabe jogar à bola nem vai ganhar nada. Gonçalo Ramos, Vitinha, João Neves, Nuno Mendes, João Félix já cá estão. E jogam.

Chega do mito

Ronaldo é um dos grandes jogadores da história, e ninguém lhe tira os golos nem os troféus. O que se lhe devia tirar é o papel de Messias. Portugal não nasceu em 2003.

Se não fosse aquela noite em Berlim, teríamos ido a todas as fases finais de 1996 a 2002 sem ele. O Euro 2000, a fase final mais espetacular a que assisti, não o tínhamos lá. O melhor jogo da última década, os quartos contra a Suíça em 2022, também não. O melhor jogo da década 2010, vitória à França na final de 2016, também saiu cedo do jogo.

Já havia seleção sem Ronaldo. E vai haver seleção sem Ronaldo. Por muito que isso custe às Ronaldetes.

Visão do Leitor: José Sacadura

5 Comentários

  • Um Jasomp
    Posted Outubro 2, 2026 at 6:44 pm

    Isto. Chegou-se ao ponto de parecer que éramos a Andorra antes dele aparecer.
    O Rio Ferdinand perguntou onde estava Portugal antes de Ronaldo aparecer. Eu respondo. Eu digo, a ganhar a Inglaterra no Euro 2000.

  • ACT
    Posted Outubro 2, 2026 at 6:30 pm

    Uma coisa que ficou por dizer. As exigências para as qualificações nos mundiais, hoje em dia até Cabo Verde, Coração, Cazaquistão e etc vão ao mundial, há fases de grupos nas fases finais que passam os melhores terceiros em quatro equipas, o que aumenta exponencialmente a probabilidade de presença nas grandes competições e nas fases adiantadas de seleções como a nossa.
    Isto é válido com e sem Ronaldo, a tendência é esta devido ao alargamento das vagas.
    Coloquei aqui a uns tempos os golos do Ronaldo na seleção e a quantidade Indústrial de golos a seleções quase amadoras é absurda.
    Mas somos obrigados agradecer senão corremos o risco de ser insultados.

  • Paulo Roberto Falcao
    Posted Outubro 2, 2026 at 6:21 pm

    Tudo certo, mas podias ter falado em 1966, nas cinco finais da Taça dos Campeões Europeus do Benfica do Eusébio, do nosso brilhante Euro 84 e do titulo europeu do Futebol Clube do Porto contra o Bayern em Viena. Ah e já agora do titulo Mundial de sub 17 no ano passado

    Só assim como marcos maiores, claro que havia futebol português antes deste sujeito, e claro que vai continuar a haver. A horda dos tontinhos vai continuar por aí, mas agora são isso mesmo, uma cambada de tontinhos. Irreal foi que esta gente condicionou tudo durante anos.

  • SilvadasAguas
    Posted Outubro 2, 2026 at 6:15 pm

    É pena que este texto não chegue a saloiada da seita

  • painatal
    Posted Outubro 2, 2026 at 6:15 pm

    E relembrar que na primeira liga das nações, fazemos uma fase de grupos incrível sem ele. Que depois veio colher os frutos na fase final.

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