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Heróis do Mar: Do anonimato à elite

Guimarães, 11 de abril de 2019 – neste dia, num Multiusos de Guimarães a abarrotar, a Seleção Nacional de Andebol derrotava de forma surpreendente a poderosa França, o conjunto mais titulado da modalidade (à data, 2x campeã olímpica, 6x campeã mundial e 3x campeã da Europa), por 33-27 e apurava-se virtualmente para o EHF Euro 2020, terminando a seca de 14 anos de presenças de fases finais desde o Euro 2006. Seria o início de uma página cada vez mais dourada da história do Andebol nacional, que durante largos anos não tinha tido qualquer expressão relevante no panorama internacional de seleções.

Com o FC Porto a ter prestações bastante competentes na EHF Champions League, desde que começara a ser orientado por Magnus Andersson, em 2018, uma boa parte da espinha dorsal da seleção nacional começava a habituar-se aos grandes palcos ao nível de clubes, defrontando adversários de maior calibre. Jogadores esses que incluíam alguns cubanos naturalizados portugueses, que ajudavam a preencher setores com características que não se compadecem com a genética natural portuguesa – pivô (Alexis Borges, Daymaro Salina e mais tarde Victor Iturriza) e guarda-redes (o malogrado Quintana), aos quais se juntavam um boa parte dos companheiros de clube (Rui Silva, Areia, Branquinho, Miguel Martins, Fábio Magalhães e André Gomes), alguns veteranos e consagrados de outras paragens (os guarda redes Humberto Gomes e Hugo Figueira, João Ferraz, Bélone Moreira, Pedro Portela, Gilberto Duarte e o capitão Tiago Rocha) e um muito jovem promissor pivô do Sporting Luís Frade.

Uma frota de bravos Heróis do Mar comandados por Paulo Jorge Pereira, que agarrou a oportunidade com unhas e dentes e entregou ao desporto nacional um fantástico 6.º lugar nesse Euro 2020, repetindo a façanha de vencer a França, eliminando-a da Main Round, goleando a Suécia em solo local por 10 golos de diferença, tendo ganho a oportunidade de discutir o jogo de 5.º e 6.º lugar com Alemanha, sucumbindo aos germânicos nesse encontro. Ficava a dúvida, era uma one competition wonder, ou estava-se a desenhar uma nova seleção habitué em grandes competições? Desde logo, era necessário ter calma, começando a conseguir apuramentos com frequência e depois, sustentadamente, atacar desempenhos regulares e em crescendo.

No ano seguinte, presença no Mundial, garantida automaticamente devido à pandemia, usando o desempenho no Europeu como apuramento. Nova prestação positiva, derrotando uma forte Islândia e jogando taco a taco com a potência Noruega, esbarrando num remate à trave no último segundo, que daria o empate.

Em março desse ano, após o choque do falecimento de Alfredo Quintana, a equipa uniu-se e conseguiu o feito épico do apuramento para uns inéditos Jogos Olímpicos (onde só se qualificam 12 seleções, com apuramentos tremendamente difíceis), novamente vencendo a França, com um golo de Rui Silva no último segundo.

Em Tóquio, a formação portuguesa acusou a responsabilidade, tento feito um torneio aquém das recentes criadas expectativas, tendo apenas vencido o Barém, não conseguindo avançar para os quartos de final.

Em 2022, ano seguinte, nova presença no Europeu, e parecia que o primeiro passo deste processo estava concluído – os apuramentos para as fases finais tornavam-se quase um pró-forma. No entanto, essa prova foi extremamente atribulada ao nível de lesões, tendo Portugal ficado privado de André Gomes, Portela, Alexis, Frade e Bélone todos em simultâneo, tendo a prestação redundado em 3 jogos e 3 derrotas, a prestação mais fraca desta sequência.

Paralelamente, era necessário este sucesso sénior ser acompanhado pelos escalões de formação e muito apoio aos clubes formadores (AA Águas Santas, ABC, entre outros), para que uma nova geração fosse gradualmente substituindo os mais veteranos, e quem sabe, até suplantar e melhorar o desempenho dos mesmos. Pois bem, esse Verão viu o “nascimento” de uma muito provável geração de ouro, com os sub-20 a ficarem muito perto de um título Europeu, em casa, caindo nos instantes finais contra a Espanha. Nessa equipa uns jovens irmãos Martim (20 anos) e Francisco Costa (17), Diogo Rêma (18), para além de André Sousa, João Gomes, entre outros, prometiam rapidamente alimentar a seleção A, faltando perceber o que poderiam oferecer num contexto sénior.

Em 2023 e 2024, os desempenhos no Mundial e Europeu respetivos voltaram a ser bastante positivos, tendo falhado classificações melhores por detalhes  – em 2023 um lance polémico no jogo frente ao Brasil no final do tempo de jogo impediu um apuramento inédito para os quartos de final, e em 2024, uma bola no poste no último ataque português no encontro frente aos Países baixos invalidou novo acesso ao jogo de 5.º e 6.º lugar, como em 2020, apesar de pelo meio ter havido uma espetacular vitória frente à Noruega, por 37-32.

O domínio interno em termos de clubes tinha passado do FC Porto para o Sporting CP, tendo os leões conseguido a contratação dos irmãos Costa, orientados pelo seu pai, Ricardo Costa, juntando-se a outro jovem promissor e já capitão leonino Salvador Salvador.

A brilhar a alta roda na EHF Champions League os prodígios leoninos foram ganhando muita estaleca enfrentando semanalmente colossos europeus da modalidade, cheios de internacionais pelas principais seleções. Em 2024, nova prata no Euro Sub-20, novamente caindo frente a nuestros hermanos na final, com novos valores como Miguel Oliveira ou Gonçalo Brandão.

Cinco anos volvidos da primeira grande prova desta sequência, chegava novo Mundial, com expectativas moderadas, tendo esta geração mais nova a chegar ao ponto de rebuçado, mas ligeiramente ensombrada pelo falhanço no apuramento olímpico em 2024 e pelo impedimento de utilizar Miguel Martins, a 2 dias do torneio para além das ausências de Alexis, André Gomes e mais tarde Alexandre Cavalcanti.

Pois bem, o resultado foi este que os portugueses fãs da modalidade, e o resto do país em geral (era necessária talvez maior cultura desportiva, mas isso daria pano para mangas para outro texto ainda mais longo) viram nestas 3 últimas semanas – 4.º lugar, primeiro apuramento de sempre primeiro para os quartos de final, depois para as meias finais, com um desempenho brutal, enfrentando colosso após colosso – Portugal defrontou o big 6 da Europa de forma quase consecutiva (intercalada apenas com o jogo frente ao Chile, apenas para stat padding), tendo demonstrado uma resiliência e uma mentalidade vencedora que, infelizmente, não é normal na maioria das seleções portuguesas, que não raras vezes claudicam nas decisões (fenómeno que apesar de tudo está, aos poucos, a melhorar um pouco, como temos visto por exemplo no Futsal e alguns tenistas portugueses, mas mais uma vez, seria pano para mangas para outro texto, neste caso positivo), e fundamentalmente demonstrando um Andebol de primeira linha, diria mesmo de elite, apenas sucumbindo no autêntico Ferrari da modalidade que é a Dinamarca, que não parece ter rival à altura atualmente, e no jogo da medalha de bronze, que seria mais do que merecida, por pequenos detalhes frente à outrora maior dominadora da modalidade França, por estes dias segunda na hierarquia.

Esta geração deixa água na boca, considerando que o Andebol tem competições anualmente, permite que o espectro de anos que uma geração pode apanhar inclua inúmeros torneios – Mundiais, Europeus e Jogos Olímpicos. Martim Costa repetiu a presença no 7 ideal da competição, tal como no Euro 2024, Iturriza foi considerado o melhor pivô e Francisco Costa foi naturalmente o melhor jovem, sendo que nesta fase já não é uma promessa, mas uma certeza, aos 19 anos.

O futuro é, portanto, risonho, e mais ainda será se se mantiver o investimento nas camadas jovens, o apoio a clubes formadores, e, o que eu pessoalmente gostaria muito que se mantivesse, senão mesmo aumentasse, o interesse do público em geral na modalidade, que entregou excelentes audiências à RTP durante este Mundial, sendo certo que obviamente que quando se ganha, é mais fácil conquistar os portugueses (sempre assim foi), eventualmente até levando a mais praticantes da modalidade, a maior prática da mesma no desporto escolar, para que não sejamos vistos apenas como um país de “futeboleiros”, ganhando aqui relevância numa modalidade que, ao contrário das outras 3 para além do Futebol em que atingimos no mínimo umas meias-finais de Campeonatos do Mundo – Futsal, Futebol de Praia e Hóquei em Patins –, é olímpica.

Um percurso fantástico com quase 6 anos naquilo que é visível, mais alguns contando com o trabalho na sombra, de muita competência, qualidade e entrega, havendo ainda margem de progressão, que levou a Seleção Nacional de Andebol – os Heróis do Mar – no que respeita aos grandes palcos internacionais, do anonimato à elite, onde se pretende manter.”

Rúben Meireles

6 Comentários

  • Antonio Clismo II
    Posted Fevereiro 4, 2025 at 9:58 am

    Excelente texto

  • margmout
    Posted Fevereiro 4, 2025 at 4:52 pm

    Artigo impecavel, quase tao bom como a prestaçao no mundial !

    • RubenMeireles14
      Posted Fevereiro 5, 2025 at 12:41 pm

      Obrigado! Que os meus textos sejam sempre um pouco menos bons que as prestações deles nas próximas provas!

  • Shurza
    Posted Fevereiro 5, 2025 at 2:48 pm

    Muito obrigado Rúben pelo artigo. Vibrei muito com este Mundial, mas não tinha noção desta evolução dos portugueses na modalidade, até porque sou um bocado inculto no que toca ao andebol.

  • filipe19
    Posted Fevereiro 5, 2025 at 7:24 pm

    Excelente texto. Eu sou um daqueles que foi conquistado pela nossa seleção. Eu nasci na Alemanha e desde cedo conheci esta modalidade, não como adepto ferrenho mas de vez em quando acompanhava os grandes torneios. Como entusiasta do desporto em geral na Alemanha, isto é inevitável. Agora com Portugal a este patamar é diferente. É lindo ter alguém com quem podemos vibrar, pode suar estranho mas a modalidade ganha outro entusiasmo. O mesmo com a MotoGP e o Miguel Oliveira. Quantos anos não torcia pelo Rossi ou simplesmente por uma grande corrida e agora é muito mais entusiasmante poder vibrar com alguém.
    Só uma nota que podia ter sido mencionado na perspeção do futuro: em 2028 Portugal co-organiza o Campeonato Europeu de Andebol o que pode também ser interessante em termos de potenciar ainda mais a modalidade

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