“Até o seu pé é inteligente”. A frase é de Michel Hidalgo, poeta e antigo futebolista francês do fabuloso Reims dos 50′, equipa gaulesa que ousou olhar nos olhos o Real Madrid de Di Stéfano na final da Taça dos Campeões Europeus de 1956. Referia-se a Michel Platini, um dos últimos percursores do belo futebol galo. Platini criou uma relação a dois com a bola mas, acima dessa intimidade, saltava à vista o ar frio e calculista com que abordava cada lance, como se não obtivesse qualquer prazer de estar ali, num campo, com os demais. O francês industrializou-se, colocou as emoções de lado, tornando o seu jogo, mais frio…mais inteligente! Frieza essa que era recebida calorosamente pelos seus companheiros. Não deixa de ser um antagonismo: a frieza humana, correlacionada com a emotividade no relvado. A resenha estava criada, e é de uma nova base de confiança num jogador que hoje vos falo.
Obviamente que a comparação não terá o peso e a medida mais exacta mas é notório que a equipa do Porto cada vez mais confia neste jogador, havendo até quem fale de uma Hulk-dependência.O impacto do crescimento de Hulk no campeonato, terá muito a ver com o seu impacto na equipa do Porto. No entanto, apesar de a importância de Hulk ter aumentado no seio da turma portista, o seu crescimento individual continua como que preso por arames. É notório que se o brasileiro possui características físicas fora do comum, elas até aqui ainda não foram aproveitadas na sua totalidade pelo próprio em prol da equipa. O contrário não se verifica: a equipa aproveita, e de que maneira, as qualidade de Hulk. Ainda assim, e após uma rápida consulta às estatísticas da Liga Zon Sagres, comprova-se o que toda a gente já sabe: Hulk é o melhor marcador do campeonato, é o 5º com maior número de assistências efectuadas e, um dos jogadores com mais recuperações de bola feitas. Mas porquê, e como acontece este aumento do impacto do jogador no rendimento e resultados da equipa? Apesar de ser facto já observável na era Jesualdo Ferreira, a verdade é que, mais que nunca, as alas são aproveitadas por AVB, que mantém o 4-3-3 do passado, mas que dinamiza o meio-campo de forma totalmente diferente, permitindo que, tanto Varela como Hulk, tenham uma maior chegada ao golo. Contrariamente ao aumento da performance nas alas, Falcão, esta época, tarda em aparecer. O posicionamento, o trabalho de equipa continua lá, mas a nova forma de jogar do Porto não estará dissociada do baixo rendimento do colombiano.
Após a saída de Dí Maria para o Real Madrid tornou-se, inquestionavelmente, o jogador mais desiquilibrador e, acima disso, desiquilibrante para qualquer equipa. O futebol do brasileiro esta temporada funciona como um rastilho que, quando aceso, sabe-se que poderá explodir a qualquer instante. É precisamente isso que têm sucedido, números e estatísticas individuais à parte. Os números não mentem: apesar de continuar por limar algumas lacunas no seu jogo (recorde-se os enúmeros exageros quando com bola), o “Incrível”,como é apelidado pelos adeptos do Porto, tornou-se no jogador de campo que mais bolas recupera por jogo. Isto é sintomático da razão que nos leva a afirmar o seguinte: Hulk tornou-se um jogador um bocado mais solidário com o jogo da equipa (não descurando a sua preciosa singularidade, como visto em Guimarães), e a equipa finalmente se entregou ao futebol revoltado de Hulk.
Apesar de todo o protagonismo alcançado nos primeiros sete jogos já decorridos, o brasileiro continua com muitas pontas soltas (exageros, inúmeras más decisões no jogo que prejudicam a equipa) por limar mas, os números podem ditar considerações importantes. Talvez por isso, recebeu o prémio de melhor jogador do mês de Setembro.
A manter-se esta performance de Hulk, haverá propostas a chegarem à SAD do Porto em Janeiro? Algum clube poderá bater a cláusula de 100 milhões do brasileiro? Qual será o seu valor de mercado neste momento? Que outros jogadores se destacaram na Liga Zon-Sagres nas primeiras 7 jornadas?
A. Borges


