O Brasil é um dos pais do desporto rei. A sua importância para o desenvolvimento do futebol é bastante relevante. Desde os seus primórdios, o desfile de craques brasileiros é gigante, brilhando numa fase inicial no seu país, como os exemplos de Pelé ou Garrincha, e mais tarde na Europa, como Romário, Ronaldo entre muitos outros. Em termos de treinadores, alguns conseguiram uma importância notável fora das suas fronteiras, até mesmo em Portugal. Otto Glória é possivelmente o maior exemplo, vencendo seis campeonatos e seis taças em Portugal. No entanto, com o desenvolvimento tático ocorrido dentro das quatro linhas, os técnicos brasileiros colocaram-se num segundo plano. A probabilidade de um técnico oriundo da terra do Guaraná ser recrutado no “velho continente” é praticamente nula, ainda que eles estejam presentes (Argel é o timoneiro do Alverca, por exemplo), embora em escalões inferiores ou ligas de menor expressão.
É inevitável não associar o Brasil ao futebol português, mesmo na era moderna. É a principal fonte estrangeira de jogadores que temos. Os clubes optam e gostam muito desse mercado. Foi de lá que chegaram nomes que marcaram o nosso campeonato como Liedson, Ramires, Deco, Alex Sandro entre muitos outros. Mesmo em equipas que não lutam por títulos registam-se belas surpresas e descobertas como Vítor Carvalho, Samuel Lino, Geromel, Fransérgio, Matheus Reis, Dalbert, entre muitos outros. Claro que a percentagem de ‘flops’ é elevada, mas com uma quantidade elevada de jogadores a chegar anualmente, é um fenómeno natural.
O propósito deste texto é fazermos o pensamento ao contrário. Qual a importância dos portugueses no desenvolvimento do futebol dos nossos irmãos da América do Sul?
A nível de jogadores, o nosso país é totalmente irrelevante. Durante este século foram três nomes que não conseguiram o sucesso desejado. Paulo Madeira chegou em 2003 ao Fluminense, mas nem sequer se estreou. Dois anos depois foi a vez de José Dominguez aterrar no Rio de Janeiro, mas para o Vasco da Gama. A sua passagem foi fustigada por lesões, levando o jogador inclusive a encerrar a sua carreira. Bruno Pereirinha passou 2015 e 2016 no Atlhletico Paranaense (numa fase onde ainda não tinha o H no nome) e era somente um reserva. A ex-promessa do Sporting passou mais tempo em solo brasileiro que os outros dois referidos, mas o seu sucesso foi nulo.
Já se abordarmos a presença de treinadores a situação é muito distinta. Alguns nomes passaram recentemente pelo Brasileirão e deixaram a sua marca. Jorge Jesus e Abel Ferreira são os principais representantes desse grupo. É totalmente seguro afirmar que o sucesso de Jorge Jesus levou a que o mercado de técnicos portugueses se tornasse um grande fornecedor dos clubes brasileiros. Há notoriamente uma fase pré-Jesus (com Paulo Bento a ser o máximo representante do nosso país) e o pós-Jesus. O treinador ganhou cinco títulos na sua passagem no Flamengo, que arrancou em Junho de 2019 e chegou ao seu término em Julho de 2020. Para o seu palmarés entraram: Libertadores da América de 2019, Série A de 2019, Campeonato Carioca de 2020, Recopa Sul Americana de 2020 e Supercopa Brasileira de 2020. Com tanto sucesso é normal ser considerado um histórico dos “rubro negros” e que o seu nome seja sempre um fantasma para quem ocupa o cargo de treinador no clube. A quantidade de vitórias do Flamengo levou a que outros clubes começassem a analisar opções lusas. A escolha do Palmeiras por Abel Ferreira foi bem ponderada, sendo uma opção com critério. O sucesso do ex-lateral é a prova disso. Abel Ferreira é o treinador mais reputado na América do Sul (a par com Gallardo). Conquistar duas Libertadores seguidas não está ao alcance de todos. Jorge Jesus, na época do seu triunfo, referiu que nem 100 anos depois um português ia conseguir o mesmo feito. Abel nas duas tentativas que teve, ganhou as duas, provando ser um dos melhores treinadores portugueses da atualidade. Aparenta ser mais simples a conquista da Libertadores, ao compará-la com a Champions League, mas a qualidade de certas equipas é elevada, além de que o plantel do Palmeiras não está ao nível dos colossos europeus, como o Manchester City ou o Bayern, nem os prémios da competição são semelhantes.
Outros técnicos lusos chegaram ao Brasil nas ultimas temporadas, mas longe do sucesso dos dois referidos anteriormente. Jesualdo Ferreira conseguiu alguns bons jogos com o Santos, uma equipa que não é fácil de gerir, além de ter sofrido o peso de suceder a Sampaoli, nunca caindo no goto do adeptos. António Oliveira, que acompanhara Jesualdo na sua aventura pelo estado de São Paulo arrancou a temporada passada com o Athlético Paranaense. O início parecia promissor, com vitórias e bom futebol, mas em Agosto tudo descambou e acabou por sair. Os restantes fracassaram autenticamente. Augusto Inácio venceu dois jogos em sete ao serviço do Avaí. Ricardo Sá Pinto em quinze partidas ganhou três, sofrendo com a miserável condição financeira que estava a ser vivida pelo clube do São Januário. Bruno Lopes orientou um jogo no Bahia e empatou-o (faz parte da equipa técnica de Guto Ferreira). Infelizmente chegou a sofrer de xenofobia durante a sua presença à beira das quatro linhas, segundo o guarda redes Danilo Fernandes.
Nenhum dos treinadores referidos no parágrafo anterior está no top de treinadores portugueses na atualidade, estando em equipas de pouca expressão na atualidade, no caso de estarem empregados. É naturalmente mais difícil para equipas com objetivos menores e com menos capital conseguirem nomes fortes como Jesus ou Abel, mas contratar Augusto Inácio ou Ricardo Sá Pinto é dar um tiro nos pés, analisando o historial dos dois nas últimas temporadas. A probabilidade de ser uma aposta correta é muito pequena, devendo haver mais ponderação, rigor e critério na hora de explorar o nosso mercado. Nas divisões inferiores existem muitos técnicos de qualidade, seguramente superiores a Inácio (que tem o seu lugar na História). António Oliveira soube dar um passo atrás e se conseguir sucesso na equipa B do Benfica, passará a ser um nome cogitado para voos maiores.
Mesmo com alguns maus resultados obtidos pelos outros técnicos, ficou na retina os sucessos de Palmeiras e Flamengo, quando orientados por portugueses. Tornaram-se nas equipas mais fortes da América do Sul, obrigando aos seus pares a um investimento elevado (tem cada vez mais força a aceitação das SAD por parte dos clubes). Corinthians e Atl. Mineiro são equipas muito mais fortes neste momento, do que aquilo que eram antes da chegada de Jesus, por exemplo. O desenvolvimento de uma ou duas equipas levou a que todas as outras começassem a querer fortalecer-se para não ficarem tão para trás, contratando com qualidade e ponderação, evitando-se um grande número de contratações e gastos desnecessários. A participação de empresas no auxilio a certos clubes, apoiando nos encargos financeiros, permite uma facilidade em certas contratações de gabarito. Por isso, o Brasileirão é o melhor campeonato da América do Sul, a larga distância, conseguindo ter os melhores atletas. Os portugueses contribuíram bastante para este sucesso, trazendo uma visão de mercado distinta e novas metodologias, que não eram exploradas pelos treinadores brasileiros, que para alguns, se podem considerar como parados no tempo. Os nomes clássicos de técnicos como Abel Braga, Vagner Mancini, Cuca (belíssimo trabalho na época anterior), Zé Ricardo, Fábio Carille, já não são apontados a todos os clubes de uma maneira recorrente, sendo o leque de opções bem maior, já que as direções alargaram os horizontes.
Neste momento, cada vez que existe um técnico despedido de algum clube da Série A, de imediato surgem rumores a abordar interesses por treinadores portugueses. Jorge Jesus, Rui Vitória, André Villas Boas, Ivo Vieira, Ricardo Soares entre outros já foram apontados a um campeonato cada vez mais aberto aos nomes portugueses, havendo por vezes a exigência da direção de ter um treinador luso. Não será surpresa se Renato Paiva faça a viagem Equador-Brasil nos próximos meses, por exemplo.
Um quinto dos treinadores do Brasileirão são portugueses: Paulo Sousa no Flamengo, Vítor Pereira no Corinthians, Abel Ferreira no Palmeiras e Luís Castro no Botafogo. A possibilidade de conseguirem ter êxito é elevada, já que parecem todos encaixar perfeitamente no projeto que integram, havendo fortes aspirações à conquista de troféus. Em caso de sucesso, a marca portuguesa no futebol brasileiro será cada vez maior e as oportunidades cada vez em maior número. Mesmo se o destino levar ao fracasso de algum, será difícil fechar a porta que Jesus abriu.
Visão do Leitor: Ricardo Lopes


3 Comentários
HeberPrincipe
Nunca percebi a quase nula aposta dos clubes brasileiros em futebolistas portugueses..
thiago97
Eu acho que são várias as razões….
1- Acho que os melhores jogadores portugueses ou a grande maioria não deve querer ir para lá.
2- Há limite de estrangeiros no Brasil , logo não vale a pena estares a gastar dinheiro e uma vaga de um estrangeiro médio , sendo que desse nivel existem aos montes brasileiros…
Acredito que estas 2 razões contribuam bastante para isso
Natan Fox
Sim, não é fácil trazer um europeu, então trazer um europeu de nível duvidoso e pagando em Euro, acaba não fazendo sentido, ainda mais quando temos o mercado SulAméricano “na mão” por conta do maior poderio financeiro.