Sou da opinião de que existem três meios para se ganhar no futebol: ser melhor, ser mais inteligente ou fazer batota. Obviamente fazer batota não é remédio e, apesar de ser melhor se afigurar como opção válida, ser mais inteligente é, a meu ver, a solução que garante melhores resultados, num maior número de diferentes situações e durante um período de tempo mais prolongado.
Ora, é exatamente sobre inteligência que escrevo este texto. Em todos os ramos existe um restrito grupo de profissionais com capacidades claramente superiores aos demais. No caso dos treinadores, existe um que se colocou não neste grupo restrito, mas, possivelmente, acima dele.
O leitor deve estar neste momento a compilar uma pequena lista de treinadores aos quais me posso estar a referir. Com certeza está a referir-se a um certo treinador que treina (ou treinou) uma equipa da cidade de Manchester, dizem uns. Por outro lado, outros, depois de lerem o valor que atribuo à inteligência, talvez considerem que me possa estar a referir a um certo técnico que tem um gosto especial pela utilização da cabeça (quiçá na final de um Mundial…). No entanto, posso confirmar que nenhum leitor esteve sequer perto de acertar, pois o nome a que me refiro treina futebol, mas não aquele a que estamos habituados.
Bill Belichick, técnico de futebol americano, é definitivamente o melhor treinador da história do desporto. Amado pelos adeptos da sua equipa e odiado pelos restantes, Bill Belichick é, acima de tudo, temido. Todos sabem que no confronto direto de timoneiros todas as equipas adversárias entram em campo a perder – e normalmente não por 1-0, mas por uma goleada. O que torna este treinador diferente dos restantes é uma extraordinária inteligência inata, que lhe permite o desenvolvimento de conceitos e estratégias fora do alcance do comum dos mortais. Esta mente invulgar foi, assim, capaz de criar a infame “Patriot Way”, o nome dado ao processo que tornou os New England Patriots na maior e mais bem-sucedida dinastia na história da NFL. Numa táctica que se caracteriza pela sua incrível capacidade de adaptação a qualquer circunstância, a estratégia da equipa muda de jogo para jogo, e até dentro da própria partida, não se referindo apenas a pequenos ajustes, mas sim a mudanças radicais na forma de jogar, dependendo do adversário e do momento. No centro de tudo isto mantém-se somente um fio condutor, ditando que o principal papel dos atletas é reduzir ao máximo o número de erros cometidos. Tal deve-se ao facto de Belichick acreditar na validade do seu “game plan”, ao ponto de considerar que, desde que os jogadores façam aquilo que lhes compete, o resultado final será invariavelmente a vitória.
Este facto acaba por afetar diretamente o método de seleção e recrutamento de jogadores, pois enquanto outras equipas enfatizam talento e capacidade física, os Patriots preferem inteligência, visto que só esta permite que os seus jogadores possam aprender, entender e executar as tão complexas jogadas concebidas pelo maior intelecto que o desporto alguma vez conheceu.
Chegamos então agora à parte que mais interessa, o nosso futebol. Se olharmos com atenção para qualquer conjunto por essa Europa fora, rapidamente percebemos que nenhum treinador implementa uma estratégia semelhante. As equipas têm uma determinada filosofia de jogo (pelo menos as que possuem um treinador com qualidade suficiente para tal e nem todas têm essa sorte), uma determinada táctica e uma determinada forma de jogar, sendo que estas componentes raramente mudam e, quando mudam (quase sempre por necessidade), o resultado tende a não ser o esperado. É certo que, apesar disso, um pequeno número de treinadores consegue, ainda assim, atingir bons resultados de forma reiterada, mas esses fazem-no porque são simplesmente melhores que os restantes.
Perante isto, pergunto-me porque não vemos nós uma equipa que joga em 4-4-2 num certo jogo, 3-5-2 no próximo e 4-1-4-1 no seguinte? Porque não vemos um conjunto capaz de jogar com uma linha defensiva subida e uma pressão intensa ao portador da bola, contra um adversário, e com uma linha defensiva baixa, entregando deliberadamente a iniciativa de jogo contra outro? Porque não vemos uma equipa a apostar em passes curtos sucessivos hoje e em jogo direto daqui a uma semana? Será que este nosso futebol é incompatível com este tipo de fluidez e adaptabilidade (que tão bem potenciado foi por Belichick), ou será que simplesmente ainda não assistimos ao surgimento de uma mente futebolística poderosa o suficiente para ser capaz de implementar uma estratégia a tal nível complexa?
Visão do leitor (perceba melhor como pode colaborar com o VM aqui): Henrique Mendes


14 Comentários
Diogo Filipe
Eu tenho essa estratégia de adaptabilidade….
… no FM ahah.
Agora a sério, um texto muito interessante. Não acho seja impossível mas às vezes já é difícil interiorizar uma determinada ideia de jogo numa equipa quanto mais 2 ou 3 diferentes. Existem treinadores por aí que já tentaram fazer isso mas é difícil para os jogadores numa semana jogarem de uma maneira e na semana seguinte jogarem de outra. Fica difícil se criarem rotinas de jogo e parcerias entre sectores. Mas seria o cenário ideal para por exemplo os 3 grandes portugueses, que ás vezes tem que jogar contra autocarros e 3 dias depois sofrem com pressão alta de gigantes europeus na Champions.
Guilhon
O texto é muito bem conseguido. De facto nunca tinha pensado num paralelismo entre a adaptabilidade táctica dos Patriots e o desporto rei. No entanto, depois de reflectir um pouco no assunto, creio que as respostas às perguntas que o autor deixa no ar se prendem com um aspecto muito relevante que não foi abordado: a jogada de futebol americano.
Enquanto que num jogo de futebol há 45 minutos de jogo corrido, o futebol americano é jogado lance a lance. Nesse sentido o futebol americano assemelha-se mais a uma partida de xadrez do que propriamente ao futebol onde, apesar das paragens por faltas, bolas fora e decisões do árbitro, não há tempo para reunir os jogadores e reorganizar, limar arestas ou simplesmente trocar jogadores (as substituições ilimitadas têm um peso enorme).
Por este motivo, o futebol evoluiu para um estado em que convém manter uma estratégia rotineira que permita aos jogadores não se perderem num jogo em constante movimento e sem espaço para parar e recomeçar.
Dito isto, e sem vulgarizar a excelência do treinador dos Patriots, creio que a pergunta correcta não é “Como é que ainda não surgiu um Belichick no futebol? “, mas sim “Como é que não surgiram mais Belichicks no futebol americano?”
bojo
Guilhon, totalmente de acordo. Os desportos americanos são caracterizados pelas inúmeras paragens (oportunidades para dar instruções de forma organizada) e raramente num jogo de futebol americano há 3 ataques alternados sem uma paragem.
Acrescentaria que o futebol, do ponto de vista técnico, é de longe mais exigente. Joga-se com o pé e em relvados naturais irregulares (então nas ligas periféricas nem é bom pensar).
Equipas como a Juve ou o City fazem algumas alterações de sistema entre jogos (não raras vezes a Juve jogava com 3 centrais num jogo e 4 defesas no seguinte), mas a complexidade do jogo e o seu ritmo elevado (com poucas paragens para além de faltas e foras que se podem marcar em segundos) dificultam uma “cópia” do modelo do futebol gringo explorado no texto.
Henrique Mendes
Caro Guilhon, a possibilidade de estares correcto é bastante elevada e quando escrevi este texto não foi por acaso que coloquei mais perguntas do que propriamente formulei respostas. A verdade é que é simplesmente um assunto que me intriga ao qual ainda não consegui obter uma resposta definitiva, sendo mesmo possível que isso nunca venha a acontecer.
Obviamente que esse facto das jogadas do futebol americano não me passou ao lado e, por isso, é possível que essa seja a razão ou pelo menos parte dela. No entanto, a verdade é que se essa fosse a unica razão no futebol americano todas as equipas seriam capazes de fazer o que os Patriots fazem, mas a realidade é que mais nenhuma o conseguiu.
Caso Bill Belichick não tivesse existido muitos seriam aqueles que diriam que mudança de estratégia todos os jogos mna NFL também não seria possível por uma multitude de razões. Ora, é exatamente isto que me leva à questão de será que falta um Belichick no nosso futebol para implementar aquilo que muitos julgam ser impossível?
Carlitos
Porque é muito dificil conseguir ter um plantel com 15 jogadores de futebol inteligentes. Por norma destreza no futebol, capacidade atlética e inteligência em simultaneo não é comum.
Pedro Rosa
Porque os jogadores de futebol não são normalmente pessoas com grande cultura (não conheço todos os jogadores, mas todos os que conheci padecem do mesmo mal), e quando se pede mais que utilizar o físico, não tem as ferramentas adequadas.
Não que algum seja geneticamente intelectualmente inferior aos demais, mas pelo que percebi de toda a cultura que os envolve e que menospreza a componente intelectual para se concentrar no poder e habilidades da componente física.
Também devido ao esforço físico é muito mais difícil de pensar, quando não tens as 300 pausas que existe no futebol americano (que jogo chato) em que o treinador coloca as peças e prepara o movimento dos peões.
Henrique Mendes
Já agora, há uma passagem do Livro “A arte da guerra” de Sun Tzu que também influenciou este texto, por isso, aproveito para aqui a deixar:
“Táticas militares são como água corrente; pois água no seu percurso natural foge de lugares altos e dirige-se para baixo. Assim na guerra, o caminho é evitar o que é forte e atacar o que é fraco. Água molda o seu caminho consoante a natureza do chão por onde corre; o soldado trabalha a sua vitória em relação ao inimigo que enfrenta. Portanto, tal como a água não mantém uma forma constante, também em guerra não existem cenários constantes. Aquele que conseguir modificar as suas táticas dependendo do seu oponente e assim suceder na vitória, poderá ser chamado de capitão celestial.”
David Gomes
O futebol é, de longe, o desporto que eu conheço onde mais vezes uma equipa mais fraca ganha a uma mais forte. Quanto à inteligência da adaptabilidade, é um pouco paradigmático que o melhor treinador atualmente, Pep, seja um que usa um modelo de jogo com um cunho pessoal bem vincado e que é funcional, e que se adapta o mínimo possível ao adversário, acontecendo antes o oposto, o adversário é quem adapta a sua tática para o defrontar.
KRN86
Mas por outro lado, mesmo sendo o melhor treinador, as equipas do Guardiola tendem a ter problemas quando defrontam estratégias bem pensadas para o contrariar. Falo nas fases a eliminar da Champions. Guardiola sempre teve tudo ao seu dispor para poder ganhar e impor as suas ideias. O Barcelona tinha dos melhores jogadores de sempre (Messi, Xavi, Iniesta). O Bayern é a potência que nós conhecemos. O City é um saco de dinheiro sem fundo em que só na defesa deve ter mais de 300M investidos. Tendo em conta o nível de talento que Guardiola sempre teve ao seu dispor, é perfeitamente natural que consiga implementar mais facilmente o seu cunho pessoal. Mas sofre quase sempre que uma estratégia inteligente o enfrenta.
Ainda assim, acho que a comparação do futebol americano com futebol só faz sentido se falarmos das competições a eliminar. Nessas competições ter alguma adaptabilidade pode ser benéfico pelo factor surpresa que causa no adversário e onde a margem de erro é mínima. Mas nas ligas de 38 jornadas a base é o talento e a capacidade de ser constante com um sistema. Nas ligas comparo mais o futebol à NBA (tem playoffs, mas de 7 jogos) onde, salvo raras excepções, o talento no sistema certo acaba por fazer a diferença no fim.
A menos que as ligas internas se tornem também competições com eliminatórias, parece-me impossível que surjam Belichicks no futebol, até porque não faz grande sentido preparar imensos sistemas de jogo e estratégias quando 90% dos jogos são contra equipas muito muito inferiores. E nos jogos “a sério” é possível mudar algumas coisas dentro desse sistema que se ajustem melhor ao adversário, sem ter que revolucionar tudo. E além disso, no futebol é quase impossível alterar muita coisa durante o jogo pela limitação de substituições e pela ausência de paragens. Junta-se a isso que na NFL 6 meses do ano são para preparar uma época que na melhor das hipóteses terá 20 jogos.
Mantorras
Se uma equipa muda e a outra também, ajustando uma à outra, ambas mudariam e seriam incapazes de ajustar ao ajuste do adversário… e falhado o ajuste por ajustamento duplo, como ficava? xD
No futebol, ser superior passa por impôr o seu jogo. Sempre assim foi. Quem muda para conter e surpreender o adversário, está a assumir inferioridade, mesmo que essa seja a escolha inteligente, acontece porque se foi inteligente o suficiente para reconhecer a inferioridade. No futebol, há muitas formas de ganhar, mas muitas são infâmes, não recebem qualquer reconhecimento da crítica independentemente de resultarem (ou são reconhecidas pela minoria do “interessa é ganhar”) exactamente porque são consideradas coisas de equipa subjugada. No futebol, ser inteligente não é ajustar. Ser inteligente é ser melhor, e quem é melhor, não tem de mudar, tem de encontrar, dentro do seu modelo normal uma forma de vencer o adversário, seja ele qual for. A inteligência é apenas e só um dos parâmetros de avaliação para ser melhor ou pior, e certamente o mais importante.
Francis19scp
Bem lembro-me de ver o margin call e curiosamente o Jeremy Irons (que fez uma atuação brilhante diga-se) disse: “there are three ways to make a living in this business: be first, be smarter or cheat”. Não sei se foi aí, mas a premissa inicial do texto já é uma cópia de alguma coisa. Logo, esse “ou de opinião” tem muito que se lhe diga. Aliás entre ser melhor e mais inteligente nem se sabe a real diferença diga-se. E depois no margin call a continuação é: ” well i dont cheat. And although i like to think there are pretty small people in this business, sure is a hell of a lot easier to just be first”. Mais uma vez o autor vai completamente atrás do raciocinio do que é dito do filme e usa esse raciocínio como se fosse o seu, com algumas alterações. Lamento ter de dizer isto, mas é muito feio começar um texto assim. Portanto, se não tem imaginação, pelo menos ponha referência. É que “fazer batota não é remédio”, mas parece ser o seu.
PS: Recomendo vivamente o filme “Margin Call”.
Henrique Mendes
A ideia era mesmo utilizar a ideia desse filme fazendo apenas as devidas alterações para que fizesse sentido neste contexto. Não tentei esconder nada foi mais uma “homage” ao filme do que uma real tentavi de iludir as pessoas. Não sei se reparaste mas durante todo o texto existem várias referências a vários assuntos, momentos e obras em que eu não digo exatamente a que me refiro pois espera que o leitor perceba o que estava a mencionar.
Assim sendo, eu percebo que aches que esteja a tentar “copiar” o discurso do filme e fazê-lo passar como meu mas a realidade é exatamente o oposto simplesmente estou a utilizar uma referencia e espero que o leitor que já assistiu a esse filme perceba a inside joke.
Eu quando escrevo tento fazê-lo de modo a que não seja condescendente para com o leitor e, por isso, em vez de assumir que preciso de explicar tudo ao leitor preferi que ele se divirta a descobrir todos os significados escondidos nas entre-linhas.
P.S. Caso fizesse aquilo que referiste de mencionar o filme, aquilo que estava a tentar alcançar perdia-se.
Henrique Mendes
A intenção era mesmo utilizar a ideia desse filme fazendo apenas as devidas alterações para que fizesse sentido neste contexto. Não tentei esconder nada, foi mais uma “homage” ao filme do que uma real tentativa de iludir as pessoas. Não sei se reparaste mas durante todo o texto existem várias referências a vários assuntos, momentos e obras em que eu não digo exatamente a que me refiro pois espero que o leitor perceba o que estava a mencionar.
Assim sendo, eu percebo que aches que esteja a tentar “copiar” o discurso do filme e fazê-lo passar como se do meu se tratasse, mas a realidade é exatamente o oposto, simplesmente estou a utilizar uma referência e espero que o leitor que já assistiu a esse filme perceba a inside joke.
Eu quando escrevo tento fazê-lo de modo a que não seja condescendente para com o leitor e, por isso, em vez de assumir que preciso de explicar tudo ao leitor prefiro que ele se divirta a descobrir todos os significados escondidos nas entre-linhas.
P.S. Caso seguisse a tua opinião e mencionasse o filme aquilo que estava a tentar alcançar perdiasse.
Henrique Mendes
Aliás até acho estranho que o Francis19scp não tenha percebido isso, pois tendo em conta o seu comentário parece-me ser um apreciador de filmes. Ora, qualquer apreciador de filmes deveria estar plenamente familiarizado com este conceito de homage.
Há uma quantidade enorme de belíssimos filmes onde este conceito é utilizado e assim, cenas de outros filmes são “copiadas”, tudo isto com o intuito de prestar respeito às grandes obras do passado. Um notório exemplo disto é o realizador Quentin Tarantino que “copia” cenas de outros filme em quase todos os filmes que realiza, fazendo-o até várias vezes no mesmo filme (ex. Pulp Fiction).
Obviamente, nestes filmes os realizadores não colocam uma pausa neste para explicar a quem o está a ver que aquela cena foi “copiada” do filme x, simplesmente esperam que as pessoas percebam e apreciem a referência (a isto é muitas vezes dado o nome de Easter Eggs).