Na história do futebol turco, não houve um momento em que este não estivesse directamente ligado à política. Sem necessidade de qualquer tipo de disfarce, é recorrente ver ministros e presidentes à frente dos maiores clubes do país e há mais de 20 anos que as 4 maiores equipas (Galatasaray, Besiktas, Fenerbahçe e Trabzonspor) beneficiam de vantagens fiscais, perdões de dívida e investimento público frequentemente.
Todas estas relações e influências são consideradas normais pelo povo, mas nos últimos anos tomaram um rumo diferente. A crescente contestação ao Primeiro Ministro Recep Tayyip Erdoğan levou a revolta para os estádios e não se trataram apenas de pequenos manifestos. As massas juntaram-se em protesto e os adeptos de futebol emprestaram a sua voz e libertaram expressões políticas que vinham sido mantidas em silêncio por causa do estigma social contra ser politicamente aberto na Turquia. Num cenário onde manifestar-se publicamente era desaprovado, fazer política como adepto de futebol era aceitável.
Todos os cânticos e tarjas prenunciavam uma derrota cultural de Erdoğan, à qual o Primeiro-Ministro tentou responder com medidas de segurança que visavam impedir o “típico” adepto, de classe média, brejeiro e consumidor de álcool, de entrar nos estádios – o famoso Passolig e-ticket, que passou a ser obrigatório para assistir a qualquer jogo e é basicamente uma forma de ter acesso à informação de cada um e promover as elites. Nos primeiros anos, os adeptos boicotaram em massa o Passolig e as bancadas esvaziaram. As audiências médias batiam os 8000 espectadores, quase metade da dos anos anteriores. No entanto, os turcos são dos adeptos mais fervorosos, e com a constante chegada de craques mundiais (aliciados pela reduzida carga fiscal) esse boicote foi-se desvanecendo, apesar de uma coisa se manter constante até aos dias de hoje: nas bancadas, a constestação não para.
Em 2014, Erdoğan concorreu às eleições presidenciais e tirou o trunfo da sua manga durante a campanha. O clube municipal de Istambul, o Istanbul Büyükşehir Belediyesi, fora renomeado Istanbul Başakşehir (em referência a um bairro conservador de Istambul, construído por Erdoğan enquanto este era o equivalente ao Presidente da Câmara da cidade) e iria ter um estádio completamente novo, com planos para ser construído em apenas 18 meses e capacidade para 17000 espetadores – o Başakşehir Fatih Terim Stadium. Erdoğan venceu as eleições e a inauguração do estádio foi um circo autêntico, envolvendo personalidades políticas, antigos e actuais jogadores de futebol, cantores e actores e o jogo decorreu de tal forma que uma equipa estava a vencer por 3-0 até o próprio Erdoğan fazer um hat-trick e operar a reviravolta pra 3-4. A camisola que utilizou nesse jogo, o nº12, foi retirada a partir daí.
Desde então, o agora Başakşehir, criado em 1990 e com a maior parte da sua história passada na segunda divisão (a primeira época na divisão principal foi em 2007/08 e desceram novamente em 2012/13) tornou-se numa potência da Süper Lig turca. Voltou à primeira divisão em 2014/15, mesmo a tempo da mudança para o novo estádio, e conseguiu logo um sólido 4.º lugar. A gestão do plantel tem sido um misto entre scouting e desenvolvimento de jovens talentos (por exemplo, Ünder chegou por 5M e foi vendido no ano seguinte à Roma por 14 e está a ser construída uma academia estratosférica, com 11 campos de treino) e craques mundiais em fim de carreira (Adebayor, Clichy, Robinho ou Demba Ba) e ainda duas das mais maiores e mais controversas figuras do futebol turco: Emre Belözoğlu, ex-Inter, Newcastle ou Atlético de Madrid, assumidamente racista e com histórico de ameaças a jornalistas, e Arda Turan, ex-ídolo do Galatasaray e agora um confesso admirador de Erdoğan, também marcado por inúmeras situações de violência (renunciou à selecção depois de agredir violentamente um jornalista durante um voo). A transferência de Arda desde o Barcelona ficou também marcada por ter sido financiada por várias personalidades.
A situação tomou ainda outras proporções quando Erdoğan assumiu publicamente querer fazer do Başakşehir o clube do regime. Com o estádio frequentemente vazio, acusou as pessoas de ao não irem aos jogos estarem a tornar a nação turca fraca, delegando de seguida essa responsabilidade para os jovens, alegando que estes devem encher o estádio, pois a força que estes demonstrarem iria reflectir-se também em força política. Actualmente, um grupo de fãs, o 1453 Basaksehirliler, tem levado a cabo a missão de angariar fãs, dando conferências em escolas, onde falam sobre patriotismo, respeito à bandeira e à nação – a assistência do Başakşehir Fatih Terim Stadium, ainda assim, tem registado números entre os 3000 e os 5000 espectadores.
Hoje, o Başakşehir tem-se consolidado no top 4 e está cada vez mais próximo do primeiro título da sua história. Com um grupo com muita qualidade, mas bastante envelhecido, nas mãos da maior figura da história do clube, o treinador Abdullah Avcı (conseguiu a melhor classificação de sempre antes da mudança de nome, um 6º lugar em 2009/10, e ainda uma final da taça em 2011, sendo que saíria na altura para orientar a seleção), no ano passado perderam a liderança e o título para o Galatasaray apenas a 6 jornadas do fim e ainda a final da taça e este ano o descalabro ainda foi maior: a 10 jornadas do fim levavam 8 pontos de vantagem, mas um final de época desastroso que culminou com a derrota frente aos rivais no passado domingo voltaram a dar o troféu ao Gala.
Sabendo de antemão que este projeto começou com este regime e terminará com este regime e qualquer título é praticamente irrelevante futebolisticamente falando, qualquer derrota do Istambul Başakşehir pode ser vista como uma vitória para a Turquia e também para o Mundo, e Erdoğan terá agora de esperar pelo menos mais um ano para garantir hipoteticamente a força interna que pretende.
Visão do leitor: Afonso Ascensão


14 Comentários
Shell
Artigo espetacular!
Desconhecia está ligação do clube ao ditador Erdogan!
Muito bem escrito, obrigado!
Elvaspatrimoniomundial
Parabéns Afonso, grande texto!
Ainda dizemos nós que cá no nosso cantinho há promiscuidade entre a politica e o futebol …
O Futebol deve ser aglutinador e promover a PAZ, na Turquia passa-se exactamente o oposto!
Bio
Belo texto, parabéns!
Eu acho que os clubes com financiamento externo repentino (tipo PSG, Man City, etc.) irritam sempre os adeptos, mas este consegue levar isso a outro nível, sendo financiado por um regime totalitário.
Basicamente, este clube é um estandarte anti-liberdade, pelo que deve ser odiado por todos os verdadeiros adeptos de futebol e amantes da liberdade.
Joga_Bonito
Óptimo artigo!
É disto que precisamos que se fale no futebol, não de pseudo-notícias da silly season, como as supostas transferências que a imprensa inventa, dia sim, dia não.
Erdogan é das personagens mais aberrantes actuais. Custa-me ver jogadores como Mesut Ozil apoiarem esta personagem. Alguém que celebra o genocídio arménio, a conquista de Constantinopla, os massacres contra os curdos só pode ser um tipo asqueroso. Este Emre Belozoglu ser apoiante de Erdogan diz e muito desta personagem. A quantidade de jogadores negros que já insultou devia dar irradiação.
Em Portugal também temos o fenómeno do caciquismo, mas felizmente não chegou a este nível. O futebol deveria servir para uma festa, ao invés ao criar este tipo de clubes, só gerará ódio.
Que haja clubes que se identificam com um grupo étnico sempre aconteceu. Não é um drama se houver respeito pelo próximo.
Agora um travesti de clube criado para manter um ditador em colapso no seu país, é outra coisa.
100Clubismo
Relativamente ao Emre, os muçulmanos, árabes em particular sempre desprezaram os subsarianos. Não é novidade pra ninguém.
Ainda antes dos europeus chegarem a África, já os maometanos traficavam negros da África Subsariana. Eles não se consideram negros, pardos, mestiços ou o que quer que seja.
Até me surpreende como há negros que vêm um sujeito como o Kadhafi como estandarte do africanismo e da cooperação africana. Antigo tirano de um país que pratica escravatura moderna com subsarianos. Até a ONU chamou à atenção para isso.
Joga_Bonito
Acho incrível como alguém que insultou n de vezes vários jogadores negros não foi ainda irradiado. É que se à 1ª acusação ainda se pode dizer que quiçá possa ter sido um mal entendido, ele teve já vários casos destes.
Quanto ao racismo em si, ele existe em todas as raças, apenas se nega isto pelo actual politicamente correcto.
No caso otomano, traficaram além de negros, muitos eslavos e ocidentais, nomeadamente obtidos em razias na Europa Central. Apenas se fala menos disto agora, mas sem dúvida explica estes comportamentos como os do Emre. Ao passo que o Ocidente ao menos admitiu o que fez no passado, persiste a negação no Médio Oriente desta realidade.
100Clubismo
Texto muito bom.
Até me assusto quando leio/ouço por vezes adeptos brasileiros na net dizer perentoriamente que futebol e política se misturam sim. Está bem que eles há umas décadas um contexto sociopolítico há decadas em que clubes como o Corinthians e jogadores como Dr. Sócrates foram importantes para combater, mas estamos em 2019 e basta olhar alguns países do Leste europeu e alguns países asiáticos e árabes (Rússia, Turquia, Arábia Saudita, Cazaquistão, etc.) para perceber que isto é um perigo óbvio e gigante.
Resumindo, futebol e política, dois “anestesiadores” de massas, não se misturam “jamé”.
E outra coisa, eu sempre tive plena convicção de que se eu fosse jogador de futebol profissional, jamais aceitaria jogar em países como Turquia, China, Arábia Saudita, Russia ou Irão, nem que me metessem à frente um cheque de 30M limpos por ano. Tenho princípios e esses não estão à venda.
Para além disso sempre achei que se fosse eu, se já ganhasse 4 milhões, não precisava de ganhar 15.
Flavio Trindade
Excelente texto Afonso que retrata perfeitamente o que se vive na Turquia.
Contudo o teu primeiro parágrafo poderia retratar igualmente na perfeição a promiscuidade entre política e futebol que se vive noutros países (não só os periféricos onde isso é uma normalidade como na Hungria, Bulgária ou Roménia) mas mesmo em Itália ou mesmo em Portugal.
Ainda assim há uma coisa que Erdogan não consegue comprar que é o estatuto conquistado à luz dos vários títulos e a paixão dos adeptos.
E nisso Galatasaray (principalmente estes devido a terem uma base de adeptos das classes sociais mais baixas), Besiktas ou Fenerbache levarão sempre vantagem.
Desportivamente a época do Basaksehir esteve quase a ser um sucesso mas o Gala esteve irresistível no fim.
Ainda assim será uma questão de tempo até ao Basaksehir ser campeão porque o big 3 turco está afundado em dívidas e sem a pujança económica de outros anos e o Basaksehir não sofre (pelos motivos que citaste) desse mesmo mal.
Só não aconteceu este ano por pura incompetência.
FutebolPuro
Bom dia antes demais.
Deixem me ver se percebi, este clube financiado, gerido e manipulado pelo Presidente turco deu o nome do estádio em homenagem a Fatih Terim…. Fatih Terim não e o atual Treinador do Galatasaray? EPICO!!!
JoaoMiguel96
Obrigado, Afonso.
Já conhecia um bocadinho da “história” do clube, mas não em total pormenor.
Espero que o clube perca todos os jogos, que levem coças e que nunca ganhem um título. Nojento este apoio e financiamento por parte de um ditador.
T. Pinto13
Simplesmente fantástico este texto.
Já tinha uma pequena ideia disto mas agora fiquei totalmente esclarecido.
Muito obrigado.
ohomemdabeirabaixa
Excelente. Desde a pesquisa, passando pela análise cuidada e pelas conclusões necessárias…
Salah
Pode-se trocar “turco” por “português” que o primeiro parágrafo continua a fazer sentido.
Muska
a influência não é de todo semelhante.