Dragões, unicórnios, centauros… Jaromir Jagr. Todas elas, figuras míticas. Figuras mágicas. Jagr, deus do Gelo. Esta é, como muitas outras, uma religião politeísta. E, se Gretzky é uma espécie de Zeus, o Deus dos Deuses há, pelo menos, Messier Deus da Terra, Gordie Howe Deus do Ar, Yzerman Deus do Fogo, Lemieux Deus da Água e, Jagr, Deus do Gelo.
Assim foi em Iceburgh, perdão, Pittsburgh. Assim é em Boston. Assim foi por Boston em Pittsburgh, assim foi por Boston no TD Garden. Deus do gelo. Uma magia no controlo do disco, no passe do mesmo, que só parece ao alcance de um mago. De uma figura mítica. Ele, que ao contrário de Iginla, Jokinen, Morrow ou Murray, não rumou aos galácticos Penguins. Mas este é um desporto de equipa e isto foi algo que faltou aos Penguins na final da conferência Este. Equipa. Algo que os Bruins, agora de Jagr, souberam ser. Iceburgh gelou. Dois jogos em casa e duas derrotas colocavam desde logo os Bruins em vantagem clara na eliminatória. Mais que isso: os Bruins venciam, em Pittsburgh, por 3-0 e… 6-1. Isto não eram só vitórias. Eram mensagens. E em Boston nada mudou, apenas foi mais equilibrado. Mais duas vitórias para os ursos. Uma varridela pouco esperada mas, seguramente, extremamente apreciada pelos adeptos dos Bruins. E, o truque, não esteve só na magia de Jagr. Foi Tuukka time. Com uma incrível percentagem de 98,5% de defesas e uma quantidade incontável de bolas nos ferros, Rask acabou a série com apenas 2 golos sofridos. Thomas Time já era, há um novo Rei a defender as redes de Boston. E, defesa, foi a chave do jogo. Com o penalty kill de Boston a resumir os Penguins a 0 em 15, no power play, dificilmente se perderia uma série assim. Chara e Seidenberg (e Ference) intratáveis, muito da chave da vitória esteve na forma em que Chara encarou a série, muito diferente daquilo que havia feito contra Toronto. Foi outro. Foi… Chara. Já os Penguins, congelaram. E todos ao mesmo tempo. Crosby, Iginla, Malkin, Neal, Dupuis. Um congelamento sem precedentes, a que nem uma equipa com um talento quase inesgotável escapa. A pressão não quebrou o gelo e, este, congelou a pressão. Com este roster, as trocas feitas, era a Stanley Cup ou nada. Menos que isso seria desilusão e é assim que acaba a época para os Penguins.
Dos Blackhawks já restam poucas palavras para descrever a sua época. Melhor, só tendo limpado os Kings. Mas não ficou longe. Os Kings até conseguiram fazer de LA a sua fortaleza, como o vinham sempre fazendo, mas nem a fortaleza mais forte aguenta ofensivas como a dos Blackhawks e, ao quinto jogo, os de Chicago venceram os actuais campeões e seguem para uma “original six” Stanley Cup. E, a verdade, é que os Blackhawks são a melhor equipa da liga. Não importam as individualidades. O facto, que conta, são as vitórias. E os de Chicago ganham mais que qualquer outra equipa. Aqui, ninguém congelou. Nem Toews, nem Kane, nem Bickell, nem Crawford, nem Hossa, nem Sharp. Nem Quick que, apesar de tudo, é humano. Mas a estrada “matou” os Kings. Convenhamos, não faz sentido Chicago (ou Detroit) jogar no Oeste. Isto obriga, quando chegamos a este ponto, a grandes e cansativas viagens. Claro que funciona para ambos os lados, mas esta foi uma das chaves da derrota dos Kings. Os Kings, nos playoffs, ganharam apenas 1 jogo longe do Staples Center e, assim, não se chega à Stanley Cup. Outra chave, foi o (não) ataque dos Kings. É que nem rematar à baliza, quanto mais conseguir marcar golos. Os Kings nunca conseguiram equilibrar o seu jogo físico com a velocidade dos Blackhawks que, pareceu, ser sempre demais para os californianos que têm um estilo de jogo mais pausado e mais físico. Não conseguir equilibrar os matchups e não marcar golos, foi o resultado de um check-mate que, convenhamos, era previsível.
E tudo se resume a estes 4, 5, 6 e, quem sabe, 7 jogos finais. É uma Stanley Cup com duas, das 6 equipas que formaram a NHL. Irá o Deus do Gelo Jagr manter a sua incrível forma, um Deus de 41 anos, nos jogos mais importantes da época? Conseguirão os Bruins aguentar aquela que foi a melhor equipa da liga ao longo de toda a época? Já os Blackhawks conseguirão culminar uma época praticamente perfeita, numa época perfeita? Conseguirão igualar o poder físico de uns super motivados Bruins? Rask irá manter a sua baliza praticamente inviolada ele que lidera a percentagem de defesas nos playoff? E Toews, irá querer retirar para si o protagonismo que muitos vaticinam, o protagonismo de, para alguns, o melhor jogador da liga? Começa hoje, dia 12, a série decisiva.
Visão do Leitor (perceba melhor como pode colaborar no VM aqui!): João Pedro Cordeiro



5 Comentários
João Freitas
Ainda me lembro de jogar NHL na antiga PS1. Não sei bem qual dos NHL's era, mas era do inicio deste século. E ainda me lembro deste jogador, apesar de eu não acompanhar a NHL, o nome deste jogador não ficou esquecido xD
JLLS
Jagr, é uma lenda viva, e a NHL dá nos a possibilidade de os poder ver vezes e vezes sem conta por época !
Ainda no ano passado perdemos Lidstrom, que constanta seguramente no top5 de melhores defesas da história do jogo.
No mesmo ambito de lendas, ainda temos o Brodeur, que seguramente dá para mais um tópico de grande qualidade como este que aqui foi feito.
Parabéns ao Autor !!!
Zink
Grande artigo novamente da NHL. Penso que os Blackhawks são ligeiramente favoritos, têm sido mais constantes ao longo da temporada, no entanto, agora nos playoffs os Bruis "mudaram o chip" e estão com uma postura e garra de campeões. Tenho alguma simpatia pelos Penguins precisamente do tempo em que o Jagr jogava lá, mas perderam bem com os Bruins e não mereciam estar na final da Stanley Cup. Aguarda-se uma grande final! Parabéns pelo artigo JPC!
Redceltic
Jagr é um dos grandes nomes, assim como os outros referidos no início do artigo, mas faltou joe sakic…
Schmeichel
Como sou casado com uma checa e visito muitas vezes o país, sei o que ele representa para os checos. Ele e o já retirado guarda-redes Dominik Hasek os maiores ídolosno que diz respeito a este desporto que para os checos é rei (o futebol está aproximado, mas vem atrás). São efectivamente como dois deuses para eles.
Curiosamente começou a época, durante o lockout da NHL, a jogar na Extraliga checa pela sua equipa (sim, ele é o dono): Kladno. Apesar de apenas ter efetuado 32 dos 52 jogos da fase regular, foi o 3º jogador mais produtivo, com 24 golos e 33 assistências.