Bom prenúncio para o Giro? Roglic e Evenepoel estão num nível à parte, mas o português parece estar pelo menos em 3.º na hierarquia de candidatos e a Volta a Itália por norma é traiçoeira para os favoritos.
João Almeida terminou a Volta a Catalunha na 3.ª posição. O ciclista português, que esta época já tinha conseguido um excelente 2.º lugar no Tirreno-Adriático, só foi superado por Remco Evenepoel e Primož Roglič, que arrebatou a 2.ª prova de uma semana da época, depois de ter conquistado o Tirreno-Adriático.


8 Comentários
Cambiasso
Saio com mixed feelings com a prestação do João. Esteve em bom nível na montanha, impressionou na segunda etapa pela recuperação que fez depois do furo, na terceira etapa passou mal mas não perdeu demasiado tempo, parece-me que deu uma sapatada no final dessa etapa ao admitir na entrevista que passou pior devido ao cansaço da recuperação que teve de fazer na etapa anterior, grande parte dela a solo. Na quinta etapa fez uma Almeidada e mostrou que conseguia estar com os melhores.
Posto isto, a colocação do nas descidas e subidas continua péssima, a incapacidade para responder aos rivais tanto na alta montanha como no terreno acidentado pode levar a perdas importantes de tempo. No Giro há algumas etapas que podem perfeitamente ser armadilhadas e um mau posicionamento pode valer bastante perda de tempo. A equipa e o João não preparam isto ou decidiram correr cautelosos e não mostrar as cartas todas antes do Giro ao contrário do que mostraram Roglic e Evenepoel? Por último o comportamento errático da UAE durante algumas etapas, continuo sem perceber a organização dentro da equipa nem muita da sua estratégia. Por exemplo o Yates, numa altura em que o João estava quase a chegar ao grupo dos favoritos olha para trás várias vezes mas não foi capaz de descer 6m para ajudar o líder a recolar, um ciclista que já estava a mais de 10 minutos…
João Ribeiro
Bom comentário.
Porém, eu por acaso fiquei com bons feelings em relação ao João. Não acho que se deva olhar para esta prova sozinha e fazer uma análise para o Giro, acho que para tal devemos pegar na época toda do Almeida, e esta na Catalunha só veio a confirmar que é um ciclista muito melhor atualmente do que o era quando saiu da Quick Step e que segue para o Giro com a confiança de que terá tudo para fazer o seu melhor Giro de sempre. Por exemplo, no Tirreno Adriático, numa etapa daquelas que normalmente pecava por falta de posicionamento e numa etapa rompe-pernas, ele manteve-se sempre bem posicionado e foi ele a dinamitar a corrida, tal como na Fóia conseguiu estar bem posicionado e entre os melhores. Mesmo nessas falhas, que ainda tem, nota-se melhorias.
Pelo que se viu na Catalunha, dá a sensação que hoje o português está muito forte na alta montanha, diria que quase ao nível dos melhores. Na montanha Vallter 2000 foi o mais rápido de toda a subida, e da forma como recupera depois da falha mecânica deu a sensação que tinha tudo para discutir a etapa com o Roglic e Evenepoel, tal como o fez na passada 6ª feira. Nesta última etapa viu-o bem posicionado no ataque do Remco mas a boa resposta do Soler a esse ataque, aliada à sua falta de explosividade para responder logo, deixaram-no num dilema difícil de gerir, porque uma vez que não apanhou a roda dos atacantes e um dos seus companheiros conseguiu-o, não poderia puxar para se juntar aos melhores. Se o fizesse, acredito que chegaria à frente da corrida, mas nesta fase é mais importante conquistar companheiros e não comprar guerras internas.
Em relação à UAE, é um pau de dois bicos. Se é verdade que com mais apoio o João poderia estar mais assumidamente na luta por estas provas de uma semana, também não deixa de ser verdade que há imenso talento que tem de ser “alimentado” e com toda a legitimidade. Ao passo que a Quick Step e a Jumbo já entram nestas provas com a equipa que está montada para acompanhar os líderes nas grandes voltas de forma a prepará-las e a lutar pela vitória em todas as gerais, a UAE opta pela estratégia de colocar o maior número de ciclistas bem posicionados na geral com um ou outro a tentar etapas. São duas formas de correr e de ir buscar os ambicionados pontos UCI, e tendo a UAE tantos talentos e uma oposição tão forte para a geral, é normal, e do meu ponto de vista bem, que optem por esta estratégia, para infelicidade (ou felicidade) do nosso português.
Cambiasso
Certo, mas eu apenas falava da Catalunha, mas concordo contigo na imagem global que ficou depois do Tirreno e Catalunha, bastante positiva. Ainda assim há sinais não tão optimistas como já falei. Alguns exemplos, quando o Roglic e o Remco atacaram na sexta etapa depois do sprint intermédio, é verdade que o soler já estava na frente mas o que se sucedeu depois, caso o Roglic tivesse alinhado com a iniciativa do Remco seria uma perda de tempo de uns 30+ segundos para o restante top10… Isso numa grande volta pode fazer toda a diferença. Depois novamente a equipa, esse estilo de corrida fazia sentido para uma equipa com menos garantias que a UAE, que é das que mais vence e que mais pontos amealha ao longo da temporada… Mas talvez aquilo que mais seja estranho é o João ir ao Giro com uma equipa muito diferente desta que teve consigo na Catalunha, outra vez. Vão, para já, Ulissi, Formolo, Covi, Ackermann e Jay Vine.
João Ribeiro
A UAE é das que mais vence mas nem isso tem sido suficiente. Passa bastante ao lado do comum espetador de ciclismo, mas há uma luta brutal pela vitória final no ranking UCI, e aí a UAE tem enorme concorrência da INEOS (menos forte este ano), Jumbo-Visma e Quick Step. Daí vermos Pogacar a ir a tudo e mais alguma coisa e vermos esta gestão da UAE nestas mini-grande Voltas. Eles levam os ciclistas que lhes dão mais garantias de amealhar o máximo possível de pontos nas provas em que não levam homens que sejam claros favoritos, que normalmente é qualquer uma onde esteja inscrito o esloveno.
Esta luta pelo ranking é cada vez mais feroz, veja-se a temporada passada em que andava tudo maluco no final da temporada, uns para manter o seu lugar no World Tour e outros para vencerem-no. E as planificações das equipas cada vez mais são feitas a olhar para isso. Longe vão os tempos em que havia uma US Postal que basicamente lutava só pelo Tour e o resto do calendário era pré-época.
Cambiasso
Não concordo bem com isso. O Pogacar vai a muitas provas e às clássicas de um dia porque é onde se diverte mais, ele próprio admitiu que a corrida que mais gostou de fazer foi o Tour de Flandres. Depois como ele é um ciclista extraordinário sabe que pode ser lutar pela vitória. Outro ponto foram as contratações passadas e que estão a ser autênticas desilusões, por exemplo Ackermann, Hirschi e Gaviria (que já saiu) não fazem ou fizeram ainda aquilo para o qual foram contratados… Depois havia a questão de elementos como o Rui Costa que acabou mais num papel de gregário e como se viu neste excelente início de época poderia ter dado mais vitórias à equipa. Neste aspecto de gestão a UAE até parece a menos “profissional” ou menos inteligente dessas equipas que enumeraste.
Este ano as contratações até parecem acertas, Jay Vine, Yates e o Tim Wellens já picaram o ponto e acrescentam profundidade ao plantel. O ano passado tinham 3 sprinters… Depois para lutar pelas clássicas do norte poderiam bem investir na contratação de um elemento como o Dylan van Baarle (WVA e MVDP são intocáveis), mas como o Pogacar insiste em fazer as clássicas com paralelos também fica difícil trazer um elemento que à partida partisse como favorito. Eu até acho que dentro do plantel da UAE até há um nome para clássicas como a Paris-Roubaix e outras clássicas com paralelos mas sem as subidas tão explosivas como no Tour de Flandres, o Mikel Bjerg. É um excelente contrarrelogista e certamente se adaptaria bem nesse tipo de provas.
Filipe__Santos
No panorama geral, esta preparação do João Almeida também me deixou boas indicações. Sobretudo, as performances recentes parecem criar base para que já se possa dizer sem medo que o português só perde competições de regularidade “de caras” para o top 4 da atualidade: Pogacar, Vingegaard, Roglic, Remco. Penso que pode discutir de igual para igual com todos os outros, partindo talvez um pouco atrás de Enric Mas.
Quanto ao Giro, o 3º lugar será o objetivo realista, sendo que uma surpresa acima disto (excluindo desistências dos favoritos, que são bem comuns no Giro), ficará logo muito dependente dos primeiros dias de corrida: a 1ª etapa são 18 kms de ITT e na 4ª etapa há logo uma chegada bem ao jeito de Remco e Roglic, com cerca de 5 kms a pendentes médias de +8%, até aos 1.000 metros de altitude.
Em condições “normais” o João Almeida pode perder logo aqui 50-60 segundos na estrada + eventuais bonificações para os dois, e depois cai naquela zona em que por um lado já será extremamente difícil recuperar esse tempo no “mano a mano”, e por outro estará demasiado marcado para lhe serem permitidas grandes manobras táticas…
Mais do que lutar contra Roglic e Remco, que são talentos geracionais, são etapas como as das 3 sextas-feiras de corrida que vão permitir avaliar se realmente o processo de gestão de carreira e de desenvolvimento de perfil do João Almeida foram acertadas ou não. Aí vamos ver se há melhoria significativa de performance em alta montanha, e perceber se há realmente teto para ganhar GVs
Joaopcalves
Parece me melhor a descer e a posicionar-se, e isso são coisas que se trabalham “facilmente”.
O maior problema do João será sempre a explosividade, e neste momento o que o afasta ainda dos grandes favoritos a grandes voltas.
Afasta no sentido de vencer, mas quanto a estar no pódio, penso que esteja num grupo restrito de 5/6 favoritos a pódio, sendo que neste grupo estão remco e roglic, os maiores favoritos.
Sporting1906
Diria que sim, que é um bom prenúncio para o Giro. O Remco e o Roglic estão num patamar em condições normais inatingível para todos os outros que vão ao Giro mas o João foi o melhor dos humanos e pode voltar a sê-lo no Giro.