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Lasso Way

Recentemente terminei de ver o show americano Ted Lasso, o que surpreendentemente foi a faísca para colocar por escrito algumas reflexões futebolísticas de fim de época que tinha guardadas na minha cabeça. Pessoalmente, os últimos dois anos foram os que marcaram o meu maior afastamento ao desporto rei. Pelas mais variadas razões e com uma pandemia pelo meio, houve menos tempo e paciência para o futebol. Ainda assim é inegável que mantenho uma forte paixão dentro de mim e que, de tempos a tempos, esta desperta e me preenche como poucas outras coisas na vida.

Porquê esta série? O género é comédia e nem sequer é uma comédia inteligente. O elenco não se destaca, o guião é típico, superficial e por vezes agarra-se de forma arcaica a estereótipos. A personagem principal é uma caricatura e os secundários gravitam à sua volta com arcos de história simples (pelo menos na primeira temporada). Sim, as expectativas devem estar baixas…

Parece a receita perfeita para mais uma série juvenil de insucesso, que mais cedo ou mais tarde será apenas uma nublada memória no nosso zapping semanal… no entanto, por mais cliché que pareça, não é isso que acontece, pelo menos não foi comigo. Como é natural, qualquer obra de arte está sujeita aos olhos do observador e não digo que todos os que viram esta aventura futebolística sintam o mesmo que eu e tenham reflexões semelhantes. O que posso dizer, é que pelo que vou lendo em críticos formais e informais, Jason Sudeikis, de forma divertida e até infantil, surpreendeu muita gente e levantou várias questões pertinentes.

A premissa é simples – Ted Lasso (interpretado pelo americano Jason Sudeikis) é um treinador de futebol americano de divisões secundárias que recentemente ganhou notoriedade por ganhar um título local com métodos pouco ortodoxos. Num movimento que tem tanto de loucura como de surpresa, muda de desporto ao ser contratado para ser treinador principal de uma das piores equipas da Premier League. O clube (fictício) é o AFC Richmond, liderado pela carismática Rebecca Welton. Ted atravessa, então, o Atlântico, acompanhado apenas pelo seu fiel adjunto e revela-se tanto profissional como pessoalmente como um tipo, no mínimo, peculiar!

A ideia é essa, os dados estão lançados. Rapidamente percebemos que este americano é diferente. Ele não percebe nada de futebol (soccer), tem uma mentalidade antagónica com os restantes treinadores de elite e enfrenta um verdadeiro choque cultural ao chegar a Inglaterra. Então o que é ele tem de bom? Porque ele?

Lasso personifica a liderança positiva, o otimismo desmedido, a pura mentalidade desportiva e a emoção face à razão. A série, ainda que no seu tom jovial, acaba por tocar em vários pontos importantes da nossa sociedade e do desporto atual:

  • A importância do trabalho em equipa – desde delegar tarefas à atenção aos pequenos pormenores/detalhes
  • O reforço positivo como arma – num mundo cada vez mais tóxico com negatividade e tough love
  • A adaptação cultural
  • As características de um líder – num mundo tecnológico e hiper-especializado não será um líder mais um gestor de homens do que uma enciclopédia de conhecimento?
  • O papel das mulheres em posições de poder
  • O verdadeiro valor do sucesso do depende de como o medimos – nem sempre quem vence ganha e nem sempre quem perde é derrotado
  • Como lidar com obstáculos e com o conflito – não há receitas perfeitas mas há lições a tirar na Lasso Way

Ted Lasso lembra-nos ao longo da sua própria caminhada que, no fim de contas, nós somos todos humanos. Por mais complexo que muitas vezes queiramos tornar o futebol, com táticas, estatísticas e dissertações, ele não deixa de ser um jogo jogado e treinado por seres humanos.

Pessoas de carne e osso, como eu que estou a escrever e tu que estás a ler. Pessoas com amigos e família como tu, com dias bons, dias maus, dúvidas, incertezas e todas as complexidades inerentes ao nosso ser. Ted faz tudo isto e fá-lo de forma acessível, descontraída e descomplexada, o que se calhar é mesmo o que precisamos num mundo assolado por uma pandemia e agora por uma guerra europeia.

Alguém que nos lembre que isto é só um jogo e que no fim de contas, o que levamos daqui são mesmo as relações e as memórias que criamos. Precisamos mais de Ted Lasso’s no nosso futebol e, mais do esperar por um messias, devemos todos tentar ser um pouco mais Ted Lasso’s – a começar pela forma como discutimos e analisamos futebol. Há muitas lições a tirar mas a escolhermos só uma, que seja esta, adaptada da citação de Walt Whitman e personificada no positivismo radical de Ted: “Be curious not judgmental”.

Pedro, o Polvo

VM
Author: VM

8 Comentários

  • ricardojrdg
    Posted Maio 21, 2022 at 11:27 am

    Excelente texto Pedro.
    Pos-me a pensar no afastamento que tenho tido do futebol profissional, por várias razões e muitas delas extra campo.
    Começo a sentir-me mais atraído pelos campeonatos inferiores.
    Ver os rapazes a jogar e saber que o estão a fazer pela paixão ao jogo e não aos milhões.
    O ambiente normalmente é descontraído, dá para passar um bom bocado e por a conversa em dia e acho que é disso que o futebol de primeira liga me faz sentir. A necessidade do regresso às origens, mais positividade, mais paixão pelo jogo e menos conversa sobre o que não importa.

    • Tiago Silva
      Posted Maio 21, 2022 at 12:14 pm

      Estou um pouco como tu, cada vez tenho perdido mais interesse pelos grandes campeonatos, por exemplo o campeonato português. Esta época acompanhei bem de perto a Segunda Liga e fiquei encantado com alguns jogos, e mesmo ali há mais jogo sujo do que em divisões inferiores. É nestes campeonatos onde ainda podemos ver algumas das origens do futebol, a paixão pelo jogo, o adepto a apoiar a equipa com tudo o que tem e haver essa tal comunhão. E nesta série do Ted Lasso vemos isso dentro de um clube da Premier League, o que é incrível!

      • Pedro o Polvo
        Posted Maio 22, 2022 at 10:46 am

        O que se perde em qualidade técnica e táctica nos jogos de campeonatos inferiores, ganha-se noutras vertentes!

        Abraço

    • Pedro o Polvo
      Posted Maio 22, 2022 at 10:44 am

      Obrigado, Ricardo!

      Sem dúvida. Uma das belezas deste desporto é que há muitas “camadas” que podemos apreciar.

      Um abraço!

  • JR41
    Posted Maio 22, 2022 at 3:06 am

    Não devo ter visto a mesma série que o autor deste texto… comédia pouco inteligente? elenco não se destaca? guião típico? estou como o outro, vontade de rir a bom rir

    vale o que vale mas já agora:

    Awards & Nominations
    20 Nominations | 7 Emmys

    Em 2 temporadas, 22 episódios total…

    Mas que série é que viu?

    • JR41
      Posted Maio 22, 2022 at 3:11 am

      Já agora, se não achar os emmys credíveis, pois isso são só nomeações de emmys, pode ser que ache alguma destas entidades:

      Screen Actors Guild Awards 2022
      Winner
      Outstanding Performance by a Male Actor in a Comedy Series
      Jason Sudeikis

      Outstanding Performance by an Ensemble in a Comedy Series

      Nominee
      Outstanding Performance by a Male Actor in a Comedy Series Brett Goldstein
      Outstanding Performance by a Female Actor in a Comedy Series
      Hannah Waddingham
      Outstanding Performance by a Female Actor in a Comedy Series
      Juno Temple

      Screen Actors Guild Awards 2021
      Winner
      Outstanding Performance by a Male Actor in a Comedy Series
      Jason Sudeikis

      Nominee
      Outstanding Performance by an Ensemble in a Comedy Series

      Golden Globes, USA 2022
      Winner
      Best Performance by an Actor in a Television Series – Musical or Comedy
      Jason Sudeikis

      Nominee
      Best Television Series – Musical or Comedy
      Best Performance by an Actress in a Supporting Role on Television
      Hannah Waddingham
      Best Performance by an Actor in a Supporting Role on Television
      Brett Goldstein

      Golden Globes, USA 2021
      Winner
      Best Performance by an Actor in a Television Series – Musical or Comedy
      Jason Sudeikis
      Nominee
      Best Television Series – Musical or Comedy

      Writers Guild of America, USA 2021
      Winner
      WGA Award (TV) Comedy Series
      WGA Award (TV) New Series

      Nominee
      WGA Award (TV) Episodic Comedy
      Jason Sudeikis (teleplay by, story by)
      Bill Lawrence (teleplay by, story by)
      Brendan Hunt (story by)
      Joe Kelly (story by)
      For episode “Ted Lasso: Pilot (2020)”.

      Writers Guild of America, USA 2022
      Nominee
      WGA Award (TV) Comedy Series

      Fora mais um monte de outras nomeações e prémios….

    • Pedro o Polvo
      Posted Maio 22, 2022 at 10:42 am

      Olá JR41,

      O que queria abordar era o facto de que quem vê a série pela primeira vez ou apanha um episódio solto, pode facilmente ficar com a ideia errada. Repara que depois escrevo: “O que posso dizer, é que pelo que vou lendo em críticos formais e informais, Jason Sudeikis, de forma divertida e até infantil, surpreendeu muita gente e levantou várias questões pertinentes.”.

      É daquelas séries que vês 5 minutos e percebes quem são os “bons” ou os “maus”. É simples, mas nem sempre isso é mau. É pela simplicidade e positivismo, que a meu ver, a série tem o sucesso que tem. Eu próprio escrevi isto inspirado pela série, portanto o objetivo não era claramente criticar.

      “My Neighbor Totoro” ou mesmo o “Cinema Paraíso” são filmes incríveis que são bastantes simples na sua essência. A complexidade não é sinónimo de qualidade – até era um dos sub-pontos do texto.

      De qualquer forma, obrigado pelo comentário, ainda bem que também gostas da série e espero que continue a levantar questões a todos os seus espectadores.

      Um abraço!

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