É tradição, nesta fase da Liga dos Campeões que agora finda, termos sempre uma sensação de déja-vú: são sempre os mesmos clubes a passar, e soltamos um bocejar aborrecido. Esta época, por diferentes razões, foi diferente das anteriores. Primeiro, e obviamente, por o figurino ser diferente. Vencedores recentes como o F.C. Porto e o Manchester United estão fora. O campeão alemão está fora. O vencedor da liga francesa idem aspas. Os líderes da liga inglesa a mesma coisa. Representantes da liga espanhola, sobram dois. Os lugares outrora ocupados por F.C. Porto, United, City, Borussia Dortmund, Lille, Villarreal e Valência são agora de APOEL, Zenit, Basileia, Napóles e CSKA Moscovo. Em frente também seguiu uma força dos anos 90, o Marselha, e os frios alemães de Leverkusen. Apesar do Lyon ser presença habitual em fases mais adiantadas, nunca haviam estado na problemática situação de ter que marcar 5 golos na segunda parte diante do Dínamo Zagreb. Feito obtido e suspeito, mas divertido de assistir.
Em parte, estes podem ser indicadores das mudanças na Europa do futebol. Os organizadores do Mundial de 2018 (Rússia) tem tido uma trajectória ascendente nos últimos anos, tendo Zenit e CSKA vencido a Taça UEFA na última década. Isto é em parte também explicado pela crescente eficácia da regra implementada por Michel Platini, que torna mais fácil para nações menos competitivas nadar junto dos tubarões. Como resultado dessa regra, o Basileia – e a título de exemplo – não teve que sair vitorioso de um playoff de acesso, ao contrário de Arsenal e Bayern Munique. Esta regra garante ainda a presença de conjuntos medíocres para esta competição como o Otelul Galati, o BATE (que foi goleado por miúdos do Barcelona) ou o Plzeň da Rep. Checa. À parte da óbvia congruência entre a elevada concentração destas equipas na fase de grupos e na surpreendente qualificação das mesmas, a regra de Platini não explica directamente o incrível progresso do APOEL, que terminou em primeiro num grupo com Shakhtar, Zenit e F.C. Porto. Quando visto de um contexto mais alargado que o mostrado esta época, esta regra parece ter sucesso. Poderão assistir-se a desaires rotundantes como os do Plzeň ou BATE, mas a experiência nesta prova tem que ser ganha aos poucos. 2011-2012 evidenciou, por exemplo, o crescimento do Basileia, clube habituado a ser um autêntico bombo da festa em edições anteriores.
Como alerta, o facto de conjuntos como o Basileia e APOEL estarem a tornar-se ossos duros de roer internacionalmente, isso poderá afectar a competitividade das provas domésticas nos seus países. Acoplada à legislação financeira de Fair Play da UEFA, a qualificação europeia (o exemplo em Inglaterra sugere isso mesmo), poderá assegurar, infelizmente, que as provas internas sejam, paulatinamente, monopolizadas pelos clubes que usufruem dos benefícios que uma exposição contínua à Liga dos Campeões – e os ganhos financeiros que daí advém – significam. Efectivamente, o falhanço dos clubes da cidade de Manchester, fica ligado aos confrontos directos com estes clubes. O United deveria não ter perdido em Basileia, mas também não deveria ter empatado com os mesmos em Old Trafford. Tivessem ganho esses dois jogos e em Fevereiro estariam de volta. O mesmo se passou com o City. Pese todo o brilhantismo dos italianos do Nápoles, se os citizens tivessem levado de vencida a equipa de Walter Mazzari uma única vez, também estariam a celebrar. Em contraste com este cenário dantesco para os de Manchester esteve o ressurgir de cara lavada do Arsenal, que estava num grupo bem mais complicado e que incluía Dortmund e Marselha. Aliás, foi contra as equipas mais fortes do seu grupo que o Arsenal mais pontos amealhou. Esta fase de grupos, bem espremida, deu-nos ainda sumarentos e deliciosos encontros de se seguir. Os Milão-Barcelona corresponderam, tal como as batalhas do Arsenal diante de Dortmund. Manchester City e Napóles, o segundo jogo entre Manchester United e Benfica e, não podendo faltar nesta lista, o regressar dos mortos protagonizado pelo Marselha em Dortmund. Que balanço faz desta fase de grupos? Quais as principais surpresas e desilusões? Como se explica que o campeão alemão e francês fiquem desde já afastados das competições europeias? E que equipas como o Man. Utd e Porto, que eram primeiros cabeça de série, tenham sido relegados para a Liga Europa?
A.Borges


