Numa final enfadonha onde a emoção foi toda guardada para as grandes penalidades, o futebol brindou-nos com mais um grande momento de David contra Golias. Há desportos espetaculares e discutir qual o mais emocionante ou interessante cairá sempre no campo da subjetividade. Ainda assim, o que é garantido, é que muito poucos (ou nenhum), além do futebol conseguem explicar resultados como este – uma modesta equipa de uma cidade espanhola de 50 mil habitantes derrotou o maior clube da metrópole de Manchester que, só por acaso, é uma marca global e um dos emblemas mais ricos do mundo.
É certo que este Manchester United está longe da potência que foi com Alex Ferguson mas o Villarreal também não é o mesmo clube que foi com Manuel Pellegrini. Estas versões mais recentes e humildes de ambas as equipas gladiaram-se na Polónia, num jogo intenso, mas feio, que coroou um novo e inédito campeão europeu. Apesar de não termos sido brindados com um grande espetáculo nos 120 minutos, a decisão por grandes penalidades contou uma história totalmente diferente e interessante, com 2 dezenas de penaltis bem marcados, um golpe de sorte para Luke Shaw e um momento dramático hollywoodesco para De Gea.
Em termos puramente futebolísticos, os 90 minutos confirmaram o expectável domínio inglês: contavam com um grupo de jogadores com mais qualidade individual e um coletivo que ficou em 2º lugar na atual melhor liga do mundo. Comecei o jogo a torcer pelo underdog mas admito que duvidei das minhas intenções ainda a meio da primeira parte quando percebi que Emery tinha montado mais um plano dos seus, e que só uma equipa queria atacar. Normalmente tendo para o lado do mais pequeno, mas algo que é independente do tamanho, é forma como tratamos a bola e o jogo, isso é uma escolha. Poder assistir a underdogs como o Leeds ou o Sassuolo mostram-nos que há várias formas de ser pequeno e uma delas é ser grande. Voltando à final, o golo espanhol lá surgiu contra-corrente e o intervalo chegou com um sentimento de frustração.
A armada espanhola, repleta de jogadores nacionais e canteranos, tinha-se fechado bem, não concedeu grandes oportunidades e resistiu graças à grande dupla de Albiol e Pau Torres, uma mistura de experiência e juventude. Albiol em fim de ciclo, acabaria por ganhar o 2º título europeu, tendo o primeiro sido com uma singela participação na caminhada do vizinho Valência em 2004. Torres, símbolo da cantera, ganha o primeiro, no que pode ser uma rampa de lançamento para a carreira. Do lado do submarino amarelo destaco também Yeremi Pino, não pelo grande jogo que terá feito, mas pela irreverência e pelo potencial demonstrado….num jogador nascido em 2002! Trigueiros mostrou ser um médio competente e Parejo teve o prémio carreira.
Nas fileiras dos Diabos Vermelhos, um conjunto mais globalizado que, apesar de tudo, se tem britanizado nos últimos anos, o português Bruno não liderava a equipa como era esperado, Pogba continuava a sua carreira de Benjamin Button, parecendo cada vez mais pior jogador com o passar do tempo, os laterais mostravam-se possantes e Cavani lutava incansável apesar da idade – impressionante a raça uruguaia e a qualidade futebolística de um país com menor população que a grande área urbana de Manchester. Sem brilho, à excepção de McTominay, o United estava por cima.
Na segunda parte, rapidamente foi reposta a justiça num dos momentos mais caricatos do jogo. Na sequência de um canto aos 55 minutos, Cavani marca e apesar de alguns saltos dos adeptos, Solskjaer não festeja e os restantes jogadores ficam inertes….aguarda-se o VAR. Numa final europeia, num jogo que será o maior da vida de muitos daqueles 22 jogadores, o golo que devia ser um orgasmo, sabe a bate-chapas. A tecnologia do VAR chegou para ficar e é hoje difícil imaginar o futebol sem ela, mas esta é só mais uma prova (há várias, todas as semanas), que são precisas revisões ao modus operandi da tecnologia.
Poucos minutos depois, Emery não deixa dúvidas para o que vem. Após ter sofrido o empate, retira Bacca, a referência ofensiva, para reforçar o miolo defensivo e amarrar ainda mais o jogo – que já se resumia a domínio territorial inglês, trocas de bola simples fora do bloco central, procura dos alas e despejo de centros na área. Há substituições que dizem muito sobre os seus treinadores, Emery sofre um golo numa final aos 55mins e não tem vergonha de transmitir medo à equipa. O espanhol é um treinador defensivo, pouco criativo e entusiasmante, mas a verdade é que este estilo pragmático dá frutos em competições mata-mata e o currículo de Unai é a prova disso mesmo.
Já com o prolongamento a decorrer dou por mim a voltar às origens e a torcer como um verdadeiro afficionado pelo Villarreal. Em que estava eu a pensar? Apoiar um gigante patrocinado por magnatas americanos versus um pequeno e simples clube estreante nestas andanças? Apoiar um treinador que tanto quer imitar o Ferguson que tornou o Manchester United um clube dos anos 90 em 2021? Uma equipa tipicamente britânica, bruta e valente mas inocente e desorganizada. Se o tivesse de resumir numa frase, seria algo assim: é o tipo de treinador que deixa Fred no banco para jogar com McTominay…e o escocês é um dos melhores em campo, com tudo de bom e mau que isso traz consigo.
Emery jogou o futebol feio, juntou os blocos, raramente ameaçou a baliza adversária, mas se pensarmos bem, não o podemos criticar (muito). A sua equipa era claramente mais fraca, mais inexperiente e enfrentava um adversário que se destacava pela sua capacidade de aproveitar a profundidade e os espaços nas costas dos defesas. Foi mais astuto na abordagem e foi mais estratega nas substituições. Sendo este último ponto fulcral, do outro lado, Ole Solskjaer consegue inacreditavelmente chegar ao minuto 100 sem fazer qualquer substituição. Numa final europeia, no culminar de uma época com dezenas de jogos e no pináculo da pressão para os futebolistas, decide esgotar fisicamente a sua própria equipa. O domínio dos 90mins desapareceu no prolongamento, não que os espanhóis tenham aproveitado para castigar os ingleses, mas conseguiram respirar, trocar a bola e aguentar tal como lhes foi pedido pelo treinador.
Finalmente sobre a decisão por grandes penalidades, é inevitável uma sensação de desilusão por mais um grande troféu resolvido com uma forma de lotaria e espero sinceramente que em breve se alterem as regras do jogo para uma melhor e mais justa alternativa.
Por falar em justiça, contava a lenda que o penálti mais importante da história do Villarreal seria marcado por um argentino cujo nome começava pela letra R e quando todos pensavam que seria Riquelme em 2005, foi Rulli, um guarda redes, em 2021. A dívida argentina está paga e o icónico número 10 do Boca Juniors pode, por fim, descansar em paz.
Espremido todo o sumo desta fraca final, podemos tirar algumas conclusões:
1 – O campeonato inglês é o melhor da atualidade, lança 3/4 equipas nas 2 maiores finais. Tem muito dinheiro, atrai os melhores treinadores e jogadores e no futuro próximo só tenderá a crescer.
2 – Apesar do primeiro ponto, duvido muito que este Manchester conseguisse o top 4 no campeonato espanhol. Sim, é possível o vice-campeão inglês não conseguir repetir a façanha num campeonato mais fraco. Neste exercício utópico, duvido que sem espaço (como existe na Premier League) esta equipa conseguisse criar tantos estragos nos adversários. O campeonato inglês continua a ser muito particular por razões culturais e nem o fator Guardiola alterou totalmente o paradigma, sendo este United o protótipo atual ideal desse fenómeno.
3 – A pandemia criou um ano atípico, com vencedores incomuns em competições histórias. Acho que a grande maioria dos adeptos vibrou com estas vitórias mas não se enganem que isto não passou de um percalço no caminho que está a ser percorrido há vários anos – os ricos estão a ficar mais ricos e os pobres mais pobres, os semi finalistas das grandes competições são quase sempre os mesmos e os empresários têm cada vez mais poder.
4 – A Liga Europa é a competição europeia “secundária” mas tem sido a que traz mais variedade e diversidade de clubes e jogadores nas últimas duas décadas aos grandes ecrãs. Por isso devemos celebrá-la, escrever sobre ela, pesquisar sobre os seus clubes e histórias, no fundo, divulgá-la.
5 – Dos perdedores também reza a história. Depois do apito final é fácil criar argumentos para justificar os fins, mas, tal como tentei passar neste desabafo, foi simplesmente um azar o United não ter ganho nos 90mins. Se este impulso pelo resultadismo e simplismo é desculpável no adepto, será menos no dirigente do clube.
6 – Ole Solskjaer não se tornou mau por De Gea ter falhado o 22º penálti da noite, ele já era mau antes e já não era o homem certo para o projeto. Quando digo mau, não quero dizer que ele não tenha qualidades. Parece ter criado uma boa harmonia no grupo, na base do estilo para-militar, na mensagem simples e na confiança. Mas de novo, estamos em 2021, é mesmo assim que vão fazer frente a equipas como o Liverpool ou o City? Isso só não basta.
7 – Emery é um caso mais complicado, é naturalmente difícil quebrar um ciclo quando se ganha o título mais importante da história do clube, mas é precisamente nestas alturas que é preciso coragem para liderar e honestidade com o que se pretende (há treinadores para cada contexto). Unai é um bom treinador, com bons trabalhos em vários clubes espanhóis (Almeria, Valencia e Sevilla) e é um especialista das competições a eliminar…mas não é, hoje em dia, um treinador “de projeto”. Não é pelo Rulli ter marcado o 21º penálti e defendido o 22º, que passou a ser. Este plantel ou é muito reforçado ou muito dificilmente conseguirá replicar este feito, não confundam com a qualidade do Sevilla da década passada. Portanto, o mais provável é que o máximo de sucesso com este treinador, já tenha sido atingido e isso não tem nada de errado. Muito dificilmente outro treinador ganharia este troféu, mas agora que já o conseguiram, era preferível ter os pés assentes na terra e aproveitar este grande momento de sucesso, em parte, esporádico e fortuito, para iniciar um novo ciclo a pensar no futuro a médio-longo prazo.
8 – O tempo passa mas continua a ser triste não ver os estádios cheios e os adeptos em festa, sem restrições. Que esteja para breve o regresso à normalidade e os abraços às pessoas que não conhecemos apenas e só porque alguém meteu uma bola dentro de uma baliza. Saudades da irracionalidade saudável do futebol, infelizmente a menos saudável, essa, resistiu bem ao COVID.
Visão do Leitor: Pedro, o Polvo


19 Comentários
cards
Excelente texto os meus parabéns
Pedro o Polvo
Obrigado! Cumprimentos
Pao com Presunto
Grande texto, mas discordo da parte de Fred (ou então, não entendi). É que o Fred entrou e teve impacto 0. Apesar de num contexto desfavorável, presumo que devia destacar-se e ser mais relevante…
Pedro o Polvo
Não era no contexto desde hoje em específico. O Fred é um jogador com características interessantes mas o Ole prefere os “McTominay’s”. É o mesmo que o Marega no Porto do Conceição, por exemplo. Teve jogos onde rendeu? Sim. Chegou a ser preponderante em fases? Também.
Tanto o Marega como o McTominay renderam naquele contexto com aquele tipo de treinadores. Resta-nos imaginar qual o potencial das suas equipas com jogadores de outras características nesses lugares.
BOTA LUME
Top!
Concordei com tudo, especialmente com o facto do Emery é treinador pragmático, perfeito para as competições mata mata.
Gostaria de o ver numa seleção a jogar um euro ou mundial
Pedro o Polvo
Obrigado. Neste momento ainda o vejo no radar de muitos clubes. Concordo mas com a nuances que ser seleccionador é bem diferente de ser treinador. Há várias outras variáveis em jogo, do capítulo de gestão, parte emocional etc. Não é só ser bom em jogos a eliminar! Cumprimentos
Claudio V.
Mercadona ganhou ao HRG Group.
Pedro o Polvo
Verdade, o Fernando Roig também é um “peso pesado”. Ainda assim, realidades bem diferentes, é presidente há 24 anos e sem nunca entrar em loucuras, paulatinamente tem guiado o clube nas últimas duas décadas. Encontro mais paralelismo com os antigos mecenas do futebol italiano (famílias que detinham os clubes) do que os atuais investimentos estrangeiros que chegam, compram N craques mundiais e desvirtuam o clube, para o bem e para o mal – veja-se o Málaga há uns anos.
O United além da família Glazer já é uma máquina de fazer dinheiro, é uma marca global. Muito difícil competir com eles no capítulo monetário e era esse o objetivo da referência.
Cumprimentos
Claudio V.
Claro, só queria dizer que não é um clube de cidade pequena que sobrevive apenas pelos adeptos… O Mercadona não esbanja dinheiro por lá, mas é a garantia de que, não se metendo em loucuras de tentar ser um colosso, terão sempre saúde financeira
Kafka
Grande post, parabéns e bem vindo pelo regresso que já não andavas aqui faz tempo
Pedro o Polvo
Verdade. A vida avança e o tempo escasseia para estas brincadeiras, mas vai-se acompanhado à distância. Um abraço!
Estigarribia
Antes de mais, excelente texto, Pedro. Gostei bastante.
Quanto ao texto em si, eu gosto de ver underdogs a ganharem jogos ou competições frente a tubarões europeus. E isso não há dinheiro nenhum, de qualquer charlatão das Arábias, Rússia ou Ásia, que pague. A vitória do Villarreal na Liga Europa foi a vitória do meu futebol. Do futebol do povo. Não das elites. Que haja mais Villarreais no futuro.
Saudações Leoninas
Pedro o Polvo
Obrigado!
Acho que todos gostamos. É a meritocracia do desporto que tão mal é compreendida em outros parâmetros da sociedade. Quando o árbitro apita para começar o jogo, não importam os milhões, são 11 contra 11 e a baliza tem o mesmo tamanho para ambos os lados. Já que o ambiente que envolve o futebol é um jogo de influências e poder, ao menos que o campo se mantenha o mais “puro” possível.
Abraço
Estigarribia
Pedro,
E em relação aos desempates por penaltis, eu gosto de ver esse tipo de desempate nos jogos. Sempre gostei de ver.
Saudações Leoninas
Tiago Silva
Concordo com quase tudo, mas quero destacar o teu ponto 4. A Liga Europa traz imensa variedade, dá para vermos futebol que vemos poucas vezes de equipas de outros campeonatos, ou outras equipas mais modestas dos melhores campeonatos e acaba por ser uma luvada de ar fresco. Apesar de não termos visto o melhor futebol na final, houve grandes jogos na Liga Europa deste ano e muitas vezes até gosto mais de ver a Liga Europa do que a Champions, porque esta última acaba por ser uma competição monótona e sempre com os mesmos protagonistas. Eu gosto de ver variabilidade e conhecer várias equipas, as suas histórias e as suas formas de jogar e nisso a Liga Europa é muito rica, e a Conference League também irá ser com certeza.
Pedro o Polvo
Sem dúvida Tiago. Nos últimos anos o futebol avança a duas velocidades – o mainstream torna os grandes ainda maiores, as jovens promessas sem jogos nas equipas principais são comprados por milhões por grandes equipas, as competições ficam mais previsíveis. Por outro lado, alguns mercados começam a abrir-se, campeonatos muito periféricos formam bem e quem quer estar na vanguarda tem de estar atento – veja-se o scouting do Brentford que subiu ontem; veja-se o novo provável treinador do Celtic oriundo de um clube japonês; veja-se a nova geração MLS etc etc
Tiago Silva
Subscrevo. Não sabia do novo treinador do Celtic, não vi esse rumor em lado nenhum, quem é? O que pode trazer ele ao Celtic? Se conheceres ou alguém conhecer, poder-me-ia falar um pouco sobre ele? Não acompanho a liga japonesa, mas sei que está em claro crescimento, seria bom ter uma referência nipónica que costuma dar muito valor ao aspeto técnico num campeonato mais rígido como o escocês.
Pedro o Polvo
https://www.scotsman.com/sport/football/celtic/celtic-confirm-eddie-howe-deal-collapse-and-double-down-on-naming-new-coach-shortly-australian-coach-favourite-for-post-3254794
Podes ler aí. O treinador não é de lá, é australiano, mas treinava um clube local. É uma persona muito interessante, por acaso. Faz bem aos clubes explorar mercados menos conhecidos, há muitas rotas “congestionadas” e onde se aposta sempre nos mesmos nomes – por exemplo, certos treinadores da liga portuguesa que vão saltando de posto em posto.
Tiago Silva
Verdade, sendo até o treinador australiano não teria dificuldades com a lingua e poderia adaptar-se bem.
E estou completamente de acordo, há que se ter sempre atenção a alternativas que poderão ser interessantes, há tanta gente com muita qualidade, que trabalha no duro, que só necessita de uma oportunidade.