O contexto obrigava-o naturalmente a recorrer à formação, mas basta olhar para a distribuição dos jogadores presentes para perceber que dificilmente foi deixado ao acaso. Mais do que recuperar a condição física, estas primeiras semanas servirão para começar a implementar uma nova ideia de jogo. Nesse sentido, a composição do plantel parece revelar uma preocupação em criar condições para reproduzir, desde o primeiro dia, situações de treino muito próximas da competição.
Amorim chamou 22 jogadores de campo e quatro guarda-redes, um número que permite trabalhar praticamente com duas equipas dentro da habitual estrutura do 3-4-2-1. Não é um grupo demasiado curto, que obrigue a constantes adaptações nos exercícios, nem excessivamente numeroso, onde a participação dos jogadores nas sessões poderia ficar mais comprometida. É, por isso, um equilíbrio que permite maximizar a qualidade do treino e aproximá-lo daquilo que a equipa encontrará mais à frente em competição.
Não há nada de revolucionário nesta abordagem. Aliás, seria estranho que um treinador acabado de chegar a um novo clube não procurasse conhecer e avaliar todos os recursos que tem à sua disposição antes de começar a tomar decisões sobre o plantel. A pré-temporada serve precisamente para isso. Antes de definir titulares, pedir reforços ou decidir quem fica e quem sai, importa perceber aquilo que cada jogador pode oferecer.
É também por isso que a presença de vários jovens da formação deve ser vista com naturalidade. Na apresentação oficial, Amorim assumiu que olhar para a academia fazia parte das suas responsabilidades enquanto treinador da equipa principal, e o primeiro dia acabou por confirmar essas palavras. Numa fase de transição, Idrissi, Karaca, Ossola, Pittarella, Bouyer ou Torriani beneficiam de um contexto que dificilmente se repetirá durante a época.
Mas esta oportunidade não beneficia apenas os jovens. Também o treinador ganha tempo para conhecer melhor um plantel que encontrou pela primeira vez. Alguns destes jogadores são internacionais pelas seleções jovens dos respetivos países e representam ativos em quem o clube deposita expectativas. O caso de Mattia Liberali é o exemplo mais recente de como uma decisão precipitada se pode tornar irreversível. O jovem acabou por sair sem nunca ter tido uma oportunidade consistente e, pouco tempo depois, foi o próprio jogador a rejeitar um possível regresso para prosseguir a carreira no Como.
O calendário também joga a favor desta estratégia. O primeiro encontro de preparação só terá lugar a 25 de julho, frente ao Celtic, permitindo quase duas semanas completas de trabalho em Milanello. Depois seguir-se-á a digressão pela Austrália e Indonésia, onde o Milan defrontará Inter e Chelsea, respetivamente, antes de regressar à Europa para um último teste frente ao Manchester United. O primeiro compromisso oficial só acontece dentro de seis semanas, pelo que existe tempo suficiente para integrar gradualmente os internacionais e, eventualmente, os reforços que possam chegar.
Por outro lado, são vários os dossiers por resolver, desde jogadores que entram no último ano de contrato, como Tomori ou Loftus-Cheek, até outros cujo futuro permanece em aberto, como Rafael Leão, ou casos como os de Estupiñán e Musah, que continuam a despertar interesse de outros campeonatos, nomeadamente da Premier League. Por isso, nesta fase, mais importante do que definir um onze inicial é começar a construir uma identidade, introduzir comportamentos e criar rotinas de trabalho para que, quando o plantel estiver finalmente completo, os jogadores encontrem uma equipa já familiarizada com as ideias e os métodos do novo treinador.
Por isso, talvez a principal conclusão deste primeiro dia não esteja na lista de presentes ou ausentes. Ainda está longe de ser o Milan de Amorim, mas a forma como organizou estas primeiras semanas deixa uma ideia interessante de como pretende conduzir o processo. Sem reinventar a roda, começou por aquilo que qualquer projeto sólido exige: criar condições para trabalhar, observar todos os recursos que tem à sua disposição e construir bases antes de tomar decisões.
João Lains


4 Comentários
Baia_99
Com 12 fica mais fácil
Goncalo Silva
Para já, e só olhando para os jogadores que existem, dá já para fazer um 11 bastante interessante:
Maignan, Gila, Tomori, Pavlovic, Saelemakers, Rabiot, Modric, Estupinan, Pulisic, Leão, Ramos.
Há matéria prima para trabalhar, não podem haver desculpas e exige-se o top-4.
Knox_oTal
É preciso pelo menos mais um central que entre de caras no onze, um médio centro box-to-box para o duplo pivot e definir a situação de Leão urgentemente, em função disso seriam precisos mais um ou dois jogadores para o ataque.
Essas parecem-me as prioridades, de resto há matéria prima para trabalhar e fazer algo interessante, pelos menos assentar as fundações para uma equipa que pode ser interessante no futuro e como perspectivas de sucesso!
Gostaria de ver mais italianos nesta equipa de Amorim, até porque o futebol italiano precisa voltar à base se quer voltar a ser relevante a nível de selecções e o próprio AC Milan precisa recuperar a sua identidade. Mesmo nos tempos áureos de Sachi ou de Ancelotti, com todos os craques estrangeiros que pontificavam em San Siro, o núcleo duro que dava estabilidade e carisma à equipa era essencialmente italiano. É verdade que os tempos são outros, mas um grupo de 5/6 jogadores transalpinos importantes chegaria para formar esse núcleo, mais um ou outro jogador estrangeiro mais antigo no clube.
Por exemplo, Palestra parecia-me um alvo óbvio para os rossoneri e alguém que poderia encaixar muito bem no esquema de Amorim, e dinheiro não parece faltar, logo foi pena ter ido para a Premier. Chiesa também pode ser um jogador interessante a resgatar e relançar a carreira neste novo projecto milanista, tal como Calafiori. Vamos ver…
Quanto às saídas, há uma triagem a se fazer, eu pessoalmente acho que os ingleses Tomori e Cheek encerraram os seus ciclos no clube, Modric também deveria sair. Leão devido ao seu discurso antes do Mundial, não tem condições para ficar e deveria sair, mas Amorim é capaz de tentar ficar com ele… e é verdade que se ele ficar e focado seria sempre uma mais-valia! Não acredito muito é na parte do focado, mas tem a palavra o treinador!
Para seguir!
Saudações desportivas
Bisc8
Os ingleses ainda podem render uns 25 milhoes cada ( o mercado inglês é sempre inflacionado) e daria para reinvestir em mais alguem do meio campo. o Chiesa é bem pensado. Não sei se o novo treinador do Liverpool conta com ele mas para os minutos que teve no ano passado poderia voltar a Italia.
Juntaria o Kostic ao lote de jogadores a sair sendo que o Gimenez ou rende este ano ou é outro que pode sair para tentar ir buscar parte do investimento