Bruno Lage já tinha percebido que havia ali mais do que parecia. Não era trinco de gaiola, nem médio de vitrine: era um jogador que chegava à área com a pontualidade de quem sabe ler o relógio do jogo. Lage deu-lhe minutos e confiança, e Barreiro respondeu com aquilo que os treinadores adoram e os adeptos raramente valorizam: consistência. Não é bonito, não é viral, mas é útil. E no futebol, utilidade é moeda rara.
Agora, com Mourinho, a história ganhou selo oficial. O Special One não perde tempo com moralismos de bancada: olha para o treino, mede a entrega, e decide. Barreiro tornou-se indiscutível porque cumpre. Fecha espaços, abre linhas, aparece na área, e ainda tem pulmão para correr em duas direções sem pedir oxigénio. Mourinho chamou-lhe “soldado”, e no dicionário do treinador isso é elogio supremo. Soldado é quem não falha, quem está lá quando o jogo pede disciplina e quem não se esconde quando o adversário acelera.
Os adeptos, claro, continuam a medir talento pelo número de fintas e pelo brilho das chuteiras. Barreiro dá-lhes botas gastas e trabalho invisível. É feio para quem exige espetáculo, mas é bonito para quem conta vitórias. O público quer romance; Barreiro escreve crónica. E a crónica, por mais que não tenha fogos de artifício, é o que fica nos resultados.
O problema dos “patinhos feios” é que muitos acabam cisnes antes de a bancada perceber a diferença entre estilo e função. Barreiro não vai assinar romances com capa dura; vai continuar a colecionar capítulos escondidos que, no fim, fazem o livro. Lage já tinha lido esse manuscrito, Mourinho agora publica-o em edição de luxo. O resto virá quando os mesmos que o assobiam perceberem que o campeonato também se vence com jogadores que não aparecem nos posters, mas que estão sempre lá quando o relógio pede trabalho.
Convencer o treinador é ganhar o jogo; convencer os adeptos é só ganhar o aplauso. Barreiro já tem o primeiro, e o segundo virá quando os cânticos mudarem de letra. Até lá, continuará a ser o soldado que constrói vitórias sem pedir selfies. E isso, no futebol moderno, vale mais do que qualquer trending topic.
E se ainda houver quem torça o nariz, paciência: o futebol não é concurso de beleza, é exame prático. Barreiro não desfila na passerelle, passa no teste. E quem não percebe isto, que continue a bater palmas ao fogo-de-artifício – enquanto o “patinho feio” lhes rouba os pontos com a serenidade de quem sabe que mais vale convencer o treinador do que a claque.
Valter Batista


27 Comentários
Dedé
Grande texto!
Sei que é uma opinião controversa, mas partilho da mesma!
Os problemas do atual Benfica estão longe de começar e terminar no Barreiro.
Podemos falar da qualidade de uma equipa que está tão dependente de um Barreiro, quando já outros brilharam de forma diferente nesse papel. Mas tomara o Benfica nesta fase ter “dez Barreiros”
Fireball
Isto, muito isto. Gosto de brincar com a qualidade Barreiro como qualquer um, todos sabemos que ele não é um primor técnico nem um fora-de-série, mas qualquer plantel precisa de Leandros Barreiros. Nem que seja no banco. É um jogador útil que veio a custo zero e Mourinho faz muito bem em aproveitá-lo e ignorar o coro de críticas. Até porque no Benfica o tribunal da bancada é impossível de satisfazer quando a etiqueta está posta. Os benfiquistas gostam de ter ódios de estimação desde que me lembro. Era o Almeida, era o Pizzi, era o Vlachodimos, era o Rafa, até o Grimaldo era assobiado e acusado de “minar o balneário”. No ano anterior a sair havia malta a dizer que o Grimaldo não tinha nível para o Benfica. O Otamendi já convenceu mais, mas continua a ser olhado de lado por uma grande parte dos benfiquistas e ainda o ano passado muitos o queriam fora. Os únicos imunes a isto são os miudos da formação, que 80% das vezes têm bem menos qualidade do que os que já lá estão, mas sendo do Seixal têm imunidade e devem jogar sempre.
BP
“Os benfiquistas gostam de ter ódios de estimação desde que me conheço”. Isto. Tão isto. Como sócio com lugar anual na Luz há anos, confirmo e enfatizo isso mesmo.
pg1960
Engraçado que agora no Sporting não existe um jogador que os adeptos não gostem.
Aliás, nos últimos anos só mesmo esgaio (justificado por diversas acções que causaram várias perdas de pontos e eleminacoes na Champions).
De resto assim ódio assinalável não.
Apareceram alguns jogadores fracos mesmo da formação e foram criticados mas felizmente foram corridos rapidamente
Mantorras
Acredito. As figurinhas que conseguiram fazer a defender as atitudes do Matheus, ainda por cima sendo ele fraco que doi, imagino que gostem de todos.
Tiago Silva
Partilho da opinião. Longe de ser um jogador extraordinário, é um jogador útil. Trabalha muito com e sem bola, é forte taticamente e parece render mais em terrenos mais avançados tal como o Aursnes. Vejo muitas semelhanças entre os 2. Ainda assim apesar de ser um bom jogador é alguém com um dos salários mais altos do plantel e não acho que o Benfica possa pagar tanto a um jogador com o papel do Barreiro. Por mim um entre ele e o Aursnes seria sempre titular mas principalmente em jogos mais fechados não podem jogar ambos, é preciso alguém com qualidade para jogar em espaços curtos e com criatividade para abrir defesas fechadas. Mas em jogos como tivemos ontem serão sempre jogadores muito importantes e o Mourinho ganhou com essa estratégia.
Petrol
Se há jogador que merece esta menção pelo que tem sido injustiçado é Barreiro. Barreiro é um jogador que sente o clube e dá tudo. Luta, corre, é incansável. A isto ainda soma uma chegada a área assinalável que já lhe valeu dois golos nesta edição da Liga dos Campeões. Na minha opinião este reconhecimento tarda por dois motivos. Um deles é pelo facto de os adeptos do Benfica serem auto-destrutivos, então são constantemente procurados alvos para a ira dos adeptos: Pavlidis, Barreiro, Ríos… O outro motivo é que Barreiro é essencialmente um jogador de transição. E, tal como Ríos, não é favorecido pelo tipo de jogo que o Benfica precisa de praticar na maior parte dos seus jogos. Contra adversários fechados, Barreiro não pode recorrer às suas melhores características e acaba por ser prejudicado. Barreiro deverá ser tido em conta como um excelente jogador do plantel que será maioritariamente útil em jogos contra adversários superiores ou como opção no decorrer do jogo. Isto com as suas virtudes e defeitos atuais, no entanto, isto pode mudar e um treinador com a experiência de Mourinho poderá encontrar outra forma de potenciar o jogador.
Mantorras
Barreiro tem uma atitude inatacavel, mas é um jogador caro e curto para o Benfica.
Joga numa posicao avancada porque nao tem pes para construir e jogar mais atras, e naquela posicao o que mais oferece é disponibilidade defensiva. Joga mais para condicionar o adversario do que para oferecer qualidade ofensiva.
O ideal é mesmo ter jogadores que oferecam a qualidade ofensiva e sejam capazes de cumprir defensivamente.
O mesmo acontece com isto de ter so medios a jogar a extremos, porque os extremos que tem nao defendem suficientemente bem. Isso é o que o Benfica tem, ao dia de hoje, mas nao deixa de ser uma alternativa para esconder debilidades, como refere Mourinho.
Interessante para o Benfica seria ter extremos completos, com golo e qualidade ofensiva, capazes de decidir bem, mas cumpridores defensivamente. Ter o Sudakov no meio, ter uma alternativa como SA, mais avancado do que medio, que pode perfeitamente vir da equipa B, ha la gente com essa capacidade (eu nao compraria ninguem). Ter o Veloso como alternativa para o meio campo, em vez de gente com salarios elevados. Completar a lateral (nao sei o que vale Obrador), que deve acontecer com o Neto para ele nao ir embora, e tambem falta conseguir jogar com centrais mais capazes de cobrir a profundidade, porque se a equipa nao estiver curta, Enzo nao consegue ser eficaz defensivamente como precisamos, e as piscinas que o Rios/Fred tem que fazer sao demasiado grandes.
BP
Para memória futura e o mais que vier a ser necessário, venho por este meio declarar que só agora li o primeiro parágrafo do Mantorras, depois de escrever e publicar o meu comentário abaixo. :-)
ManuelFAlbuquerque_
Creio que o Benfica no tempo de Schmidt chegou a ter Florentino + Barreiro no meio campo, coisa que num campeonato português e num Benfica fazem pouco sentido porque esta dupla tem menos critério com bola do que Enzo + Rios.
Depois do golo oferecido ao Sporting houve a tentação de dizer que Florentino faria melhor mas acredito que foi mais por esquecimento do que por má vontade que disseram isso na medida em que o ex jogador também enterrava grandemente.
Não é coincidência ter sido preterido por Lage, Jesus, Schmidt e depois Lage outra vez. Para um Benfica que se quer dominador não tem as melhores características.
O mister deu continuidade e até mais minutos ao Barreiro neste papel mais ofensivo, claramente é um jogador com muita determinação, boa chegada à àrea adversária, muita entrega.
Num sistema em que Rios e Enzo têm sempre de jogar devido ao que custaram, o mister parece ter ido pelo caminho do mais pragmático e está a tentar trabalhar uma equipa mais de luta e pressão do que propriamente de ataque continuado.
Acho que faz sentido porque por infelicidade levou golos de Chelsea e de Sporting, jogou melhor que Leverkusen e globalmente o Benfica tem estado mais estável o que é bom para o facto de não ter escolhido um único jogador e não ter feito pré.
Claro vão dizer que um clube como o Benfica isto e aquilo, mas como eu já disse muito recentemente não me lembro de ler bem de nenhum treinador deles.
Foram todos uma treta, até o Schmidt que supostamente era um super Jorge Jesus na segunda época já o queriam no olho da rua.
Só por isto dá para perceber que fazer equipa em função dos sócios é uma bela de uma estupidez, em todos os clubes, e no Benfica essa estupidez tem um ligeiro travo a bagaço. Sim, porque eu prefiro atribuir ao álcool e não a uma deficiência mental o turbilhão de incoerências e imbecilidade que marcam as análises a todos os treinadores que vi naquele clube.
O mister é para mim um treinador de topo e até neste plano de jogo, nada fácil de montar e aperfeiçoar se vê isso.
O maravilhoso Luís Henrique fez menos que o mister numa Roma porque lá está quando não tens uma escola à Barcelona ou milhões para gastar nos melhores do momento é mais complicado.
Mas as pessoas vivem numa bolha portanto vão fazer de tudo para não dar importância a esta simples lógica.
Hey, gostam de mentir a si mesmos e de ouvir os outros alimentar essa narrativa alucinada. São vidas.
BP
O Schmidt, jogar com Florentino e Barreiro no duplo-pivot do meio-campo??? Só se foi num jogo ou outro, como excepção que confirma a regra. E a regra com o Schmidt era João Neves e Kokçu nesse duplo pivot do meio-campo…dois médios com qualidade ofensiva com bola no pé, sem trinco…
O Schmidt era o oposto do actual mister The Ultradefensive One…
Dca
O Barreiro entrou no mesmo mercado que saiu o João Neves pah. Como é que usas esse meio campo como regra?
Schmidt na época em que o Barreiro chegou até ser despedido:
Famalicão: Florentino e Barreiro titulares;
Casa Pia: Florentino e Barreiro titulares;
Estrela da Amadora: Florentino e Barreiro titulares;
Moreirense: Florentino e Barreiro titulares;
Em 4 jogos, formaram dupla nos 4. Mas “foi num jogo ou outro” e foi “a exceção que confirma a regra”.
“O oposto do atual mister”.
Não acertaste uma.
Mantorras
Nao, quando o Barreiro veio para o Benfica, foi com o Roger, e ele jogava com ele e com o Tino.
BP
Dca e Mantorras, my bad, obrigado pela correcção.
Mas isso foi no início da terceira época do Schmidt, aqueles três ou quatro jogos que ele fez antes de ser despedido – não acho que esse período tenha sido minimamente representativo do que foram as opções do Schmidt no SLB, o divórcio com o terceiro anel estava mais do que consumado e ele já estava mais fora do que dentro.
Na segunda época dele, o duplo pivot do meio-campo foi sim João Neves e Kokçu, sem trinco declarado; na primeira época, tinha sido Tino e Enzo/Chiquinho…
lengalenga
Que sentido faz fazer essa comparação com a Roma do Luis Enrique quando já foi há quase 15 anos e foi a primeira experiência do Luis Enrique a treinar uma equipa A? Tem tudo a ver, de facto, com o Mourinho a ir para lá passados mais de 20 anos como treinador principal.
Já agora, para essa do “lá está quando não tens milhões para gastar nos melhores do momento é mais complicado”, deixo-te com uma pergunta: Por que motivo é que o Mourinho nos últimos anos não tem tido oportunidades de treinar clubes que lhe podem proporcionar isso? Ó pensa lá um bocadinho, também é uma simples lógica… É por ter um mau agente queres ver?
E mais, um clube este ano gastou cerca de 500M nos “melhores do momento” e está em 10º da PL. Que simples lógica aplicar aqui?
bong0
É um jogador difícil de colocar numa caixinha, nem é carne nem é peixe e isso para o adepto comum. Não é assim tão odiado, simplesmente não é adorado também.
Acho que o que na visão dos adeptos custa a entender como é que se precisa tanto de um jogador como o Barreiros depois de tanto dinheiro gasto.
BP
“Cantas bem, mas não me alegras” :-D
O Barreiro é titular a dez/segundo avançado porque o treinador pensa sempre primeiro nos momentos defensivos do jogo. Essa é a verdade que nem a tua escrita talentosa consegue maquilhar…
Ele é titular pelo que dá à equipa em organização defensiva (pressão alta) e em transição defensiva (reacção à perda e depois eventual recuperação defensiva). Porque o treinador até nos lugares supostamente ofensivos do meio-campo – o trio que joga nas costas de Pavlidis – põe jogadores defensivos (Ausrnes e Barreiro, 2 em 3…)
Eu gosto muito do Barreiro desde o seu jogo de estreia na Luz, mas ele não é um dez/segundo avançado: ele é um médio-centro defensivo, um 6/8, de rotação e andamento, não é um médio-centro ofensivo. E não é porque não é bom a jogar em espaços curtos nem é bom a jogar de costas (essencial naquela posição do onze), porque não tem primeiro toque, visão de jogo, critério e decisão, qualidade técnica ou criatividade ofensiva para jogar a dez.
«O resto é literatura, libertinura, pegas no paleio»…;-)
Valter Batista
Caro BP, comentário com bisturi e assinatura de quem não se limita a ver o jogo – disseca-o. “Cantas bem, mas não me alegras” é ouro velho, com cheiro a sarcasmo de quem já viu muito e não se deixa embalar por floreios. E sim, tens razão: Barreiro não é um dez, nem um segundo avançado, nem um criador de espaços curtos. É um médio de rotação, de pressão alta, de reacção à perda – um 6/8 que joga com o cronómetro e não com o espelho. A tua leitura tática é cirúrgica: o trio atrás de Pavlidis é mais trincheira que salão de baile, e Barreiro ali é mais alicate que pincel. Mas há aqui um detalhe que merece crónica: quando o treinador põe um jogador “defensivo” numa posição ofensiva, não é só por contenção – é por convicção. Mourinho não quer um dez que pinte, quer um oito que construa. E Barreiro, mesmo sem primeiro toque de salão, dá ao jogo o que o jogo pede: ordem antes do caos, recuperação antes da criação. “O resto é literatura, libertinura, pegas no paleio” – é um mimo. Porque é isso mesmo: a crónica não é para definir posições, é para provocar pensamento. Tu fizeste isso com precisão, e eu agradeço. Porque quando o comentário é melhor que muitos textos publicados, merece resposta à altura. E esta é a tua: lúcida, mordaz, e com mais futebol por linha do que muitos relatórios técnicos. Saudações Benfiquistas!
BP
«O resto é literatura, libertinura, pegas no paleio» é um mimo sim, mas não da minha autoria: citei o enorme, o incomparável poeta Alexandre O’Neill.
BP
Eu gosto muito do Barreiro, como gosto muito do Ausrnes. A sério, sem ironias, gosto mesmo.
Mas nem o Barreiro é dez/segundo avançado nem o Ausrnes é extremo. Porque nessas posições não basta a atitude, entrega e raça: também é preciso ter qualidade para a fase de criação e de finalização do ataque posicional do Benfica…falo de qualidade criativa, de qualidade no primeiro toque, na tomada de decisão, na execução técnica da decisão. Em doses generosas, para desmontar equipas pequenas e médias nacionais que jogam em 541 com as três linhas coladas e bloco baixíssimo: nesse contexto táctico do jogo, é preciso saber jogar e criar em espaços muito curtos; aliás, muitas vezes, nesses jogos na Luz, é preciso saber criar espaço onde ele à partida não existe…. Este é o contexto táctico de 80% dos jogos do Benfica numa época: jogar em organização ofensiva contra blocos baixíssimos e muito densos, com as linhas muito próximas – não é jogos de transições em campo aberto…Nem Aursnes nem Barreiro têm essa qualidade superlativa em espaços curtos. Lá raça e entrega eles têm, mas falta-lhes tudo o que aquelas posições e funções no onze exigem especificamente: criatividade ofensiva, boa e rápida tomada de decisão, qualidade técnica no primeiro toque e no executar das decisões – tudo isto em espaços curtíssimos/virtualmente inexistentes…
Por outro lado, tanto o Barreiro como o Ausrnes são óptimas opções para o duplo-pivot do meio-campo, onde agora jogam Enzo e Rios…deviam contar para este duplo pivot e não para dez ou extremo. Pois é, temos excesso de opções para esses dois lugares (Enzo, Rios, Ausrnes, Barreiro) e falta de opções para dez e para as alas do meio-campo ofensivo…é o ‘bom planeamento estratégico’ do costume, a montar plantéis…
Mas atenção que uma das poucas opções que há para a ala esquerda do meio-campo ofensivo é um predestinado…um extremo esquerdo que combina criatividade mágica, genialidade técnica e velocidade vertiginosa como eu não via no Benfica desde…2009/2010, quando Jorge Jesus, na sua primeira época, apostou num tal de Angel Di Maria para titular indiscutível a extremo esquerdo…se Mourinho tivesse o olho e a audácia ofensiva de JJ, entregava a ala esquerda do meio-campo ofensivo, no onze titular, a este novo mago das pampas, Gianluca Prestianni…
Valter Batista
BP, leitura com régua e esquadro – daquelas que põem a táctica a suar. Concordo contigo no essencial: Barreiro não é dez nem segundo avançado; Ausrnes não é extremo. São dois operários de alto rendimento, feitos para o duplo-pivot, para o jogo que respira nos momentos sem bola e nos segundos depois da perda. O trio atrás do ponta precisa de pelo menos um poeta; com dois mordomos defensivos e um figurante, a sala fica impecável… mas ninguém dança. O Benfica, na Luz, joga 80% das vezes contra paredes: linhas coladas, bloco enterrado, centímetros de oxigénio. Aí não bastam pulmão e virtude – é preciso primeiro toque que amansa o caos, pausa que ensina o defensor a cometer o erro, decisão que rasga sem pedir autorização. Barreiro e Ausrnes dão ordem, dão andamento, dão mapa; o dez tem de dar surpresa. Sem essa faísca, a equipa tenta abrir latas com martelos. Onde a tua tese ganha corpo é no planeamento: concordo que há excesso de gente para o motor (Enzo, Rios, Ausrnes, Barreiro) e carência para a faísca – o dez e as duas asas do meio-campo ofensivo. É o velho vício de montar plantéis em cima dos joelhos. E quando o treinador, por convicção, privilegia a segurança nos três de trás do avançado, o ataque posicional perde risco e a área fica curta de peso e engenho. Sobre a ala esquerda: se há predestinado com cheiro a Di María – dito sem idolatrias baratas – então o tema deixa de ser talento e passa a ser coragem. Minutos, tolerância ao erro criativo e responsabilidade adulta no último terço. Audácia não é romantismo; é investimento com retorno quando os jogos são de centímetro. Se Prestianni tem esse truque na bota, que lhe abram a porta: não se aprende a furar blocos baixos dentro de uma caixa de segurança. Em síntese: Barreiro e Ausrnes para a caldeira; um dez de verdade e um extremo que invente espaço onde não existe para os jogos de parede. Mourinho pode manter o dogma defensivo sem abdicar da faísca – a arquitetura aguenta poesia no último piso. Primeiro o cimento, sim; mas sem pintura, o prédio não vende.
6.Mik
Aqui se vê que o nível do Benfica está baixo.
Jogador de equipa e bastante rotativo mas tem um ordenado completamente absurdo para a sua real valia.
Acho que quem viu Aimar, Rui Costa, Gaitan ou Rafa agora ter que se contentar com Barreiro não deve ser fácil.
Petrol
Planteis com Aimar, Rui Costa, Gaitan ou Rafa também precisam de Barreiros. Quanto ao seu custo em relação à sua valia, concordo.
lvme
É tipo o 3° mais bem pago do plantel. Esforçado? Sem dúvida mas quando isso é razão para este kudos todo, mostra bem quão em baixo está o Benfica
Joga_Bonito
O Barreiro é atacado como foi o Tino e outros, porque alguns adeptos têm sempre de embirrar com alguém…Todos os anos é o mesmo…
Não desistiram até que Tino saísse, o Barreiro também foi atacado e outros mais. O Gilberto há uns anos atrás levou com ódio de alguns que queriam algum Philipe Lahm ou algo do género, quando Bah nunca mostrou ser melhor que o brasileiro e tens o problema das lesões constantes que ele tem.
O Barreiro é muito útil, dá tudo pelo clube e é daqueles que tem sempre de ser opção num plantel onde nem todos têm de ser artistas…
Mantorras
Ha uma divisao dos adeptos em relacao ao Barreiro, como havia em relacao ao Tino? Concordo.
Que sao casos comparaveis? Ja nao concordo.
As criticas ao Tino eram justas, outra coisa é dizer que o Tino nao tinha qualidade para jogar no Benfica, tinha sim, e muita gente, mesmo aqui, ficou triste com a sua saida, porque cabia perfeitamente no plantel.
O Tino nao recebia 3.5M/ano, nem era propriamente um suplente, mesmo tendo tido fases distintas no clube, na maior parte do tempo era um titular. Era um especialista, na sua posicao, sem bola, como demonstram varias exibicoes monstruosas na champions, onde as suas estatisticas defensivas nao enganam. Era um perfil daquela posicao muito especifico, com os pros e os contras, mas nao andava a jogar a segundo avancado por “nao servir para a sua posicao de origem”, mas servir como remendo para cobrir insuficiencias colectivas noutras, porque quando é esse o caso, é legitimo dizer que nao serve para jogar ali, e que ali devia jogar alguem daquela posicao, mas com as caracteristicas defensivas certas.
O perfil correcto para alguem como o Barreiro era o do Gedson, quando comecou no Benfica. Um jogador jovem que vai entrando na rotacao e tendo minutos, que vai crescendo e que pode significar algo importante no futuro do clube.
Joga_Bonito
A questão que falaste daqueles que confundem achar que alguém tem limitações, com um “não serve para o clube” é que é o cerne da questão. Para muitos, se não é perfeito já não vale para o clube. A questão não é pôr em causa que haviam críticas lógicas às limitações do Tino, outra coisa é colocar isso no mesmo patamar do “não serve para o clube”. O Barreiro, tal como o Tino, terá limitações mas será sempre daqueles que são úteis e necessários e os quais terão de fazer carreira no clube.