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Manual do médio defensivo moderno

No passado, as funções de um médio defensivo de futebol eram, como o nome indica, meramente defensivas: os chamados “trincos”, destruidores de jogo, jogadores fortes na marcação individual, impetuosos nos duelos aéreos ou à flor da relva, que nos momentos de sufoco se juntavam aos centrais quando se tornava imperativo defender um resultado; jogadores que mais parecia que tinham saído de um campo de batalha para um campo de futebol. Olhámos para os livros de História e lembramo-nos de nomes como os de Dunga, Jeremies ou Roy Keane, citando apenas alguns dos que ainda me lembro de ver jogar desde meados dos anos 90. Jogadores que se evidenciavam pela entrega e vigor com que disputavam cada lance, pela capacidade de liderança da equipa que demonstravam dentro do campo, sendo o braço-direito do treinador nas 4 linhas. A parte estética era pouco relevante nas suas funções. Numa entrevista dada há uns anos atrás, Pedro Martins, ex-médio de clubes como Sporting CP, Vitória SC ou FC Alverca e atual treinador do Olimpyacos, afirmou, num tom humorado, que Quinito, seu treinador no Vitória SC, pedia-lhe apenas que, na sua posição, fosse um “rabo-de-vaca”. Porquê “rabo-de-vaca”? Porque a sua única função era limpar tudo o que lhe aparecesse à frente.

Os tempos avançaram e o futebol evoluiu ao mesmo ritmo. Das trincheiras futebolísticas dos anos 90 passámos para relvados bem tratados para o espectáculo do futebol e adotámos um futebol mais bem praticado e perfumado. Apoiadas nas ideias de jogo de Rinus Michels, dinamizadas mais tarde pelo seu discípulo Johan Cruyff e ainda mais tarde actualizadas por Pep Guardiola, as equipas começaram a praticar um jogo mais apoiado, mais sustentado, com linhas mais próximas, viajando sempre juntas no transporte da bola desde a sua área ao reduto contrário do adversário. Com esta evolução futebolística, as funções e características dos médio defensivos alteraram-se drasticamente nos últimos 25 anos. Para além das naturais funções defensivas inerentes à posição, os médios defensivos começaram a desempenhar um papel essencial na organização ofensiva de qualquer equipa que pretenda dominar o jogo, com e sem bola. Hoje em dia, observamos várias equipas que optam por um jogo de posse, com mecanismos, dinâmicas e sistemas tácticos diferentes, mas com objetivos comuns: dominar o jogo, ter o máximo de tempo possível a bola, garantir segurança desde a fase de construção, criar várias soluções ao portador da bola e viajar juntos em cada pedaço do campo. Olhamos para a posição de “6” e vemos médios como Busquets, Fabinho, Rodri, Jorginho, Verratti ou Fernandinho, jogadores inteligentes na busca do espaço vazio, a interpretar bem onde poderão garantir superioridades, numéricas ou espaciais, com capacidade de passe curto e longo, visão para romper linhas de pressão com uma tomada de decisão ou simplesmente equilibrar a equipa de forma a prevenir o momento da perda. Então, no que às características de um médio defensivo diz respeito verificamos denominadores comuns nos jogadores acima referidos:

  1. Interpretar os espaços vazios para ser solução ao portador da bola – mostrar para jogar, ser sempre solução, ser dinâmico, intenso, vivo;
  2. Passe – a capacidade de com um passe conseguir tirar a bola de uma zona de pressão, com um passe romper linhas de pressão, habilidade para ligar curto, pelo chão mas também para ver longe e variar o centro de jogo, libertando a bola para zonas com mais espaço;
  3. Interpretar a pressão do adversário e verificar onde poderá garantir superioridade/vantagem na fase de construção – numérica, quando, por exemplo, o MD baixa para entre os centrais para criar uma situação de 3×2, ou espacial, quando garante uma linha de passe vertical aos centrais nas costas da pressão adversária. Sendo um elemento essencial na 1.ª fase de construção, o médio defensivo é muitas vezes pressionado por um adversário. Assim, este deve ter a capacidade de mexer muitas vezes a cabeça, rodar o pescoço, ler por cima do ombro, interpretar de onde vem a pressão para a seguir poder tomar uma decisão consoante estes fatores. Na inviabilidade de ser solução para os jogadores do sector mais recuado, deve libertar espaços para outros colegas aparecerem nesse espaço;
  4. Jogar de perfil – esta virtude permitirá sempre interpretar o que acontece no centro de jogo e ler o que acontece nos sectores mais avançados do campo, antecipando a sua decisão antes da bola chegar aos seus pés;
  5. Comunicação – seja ela vocal ou gestual. Ocupando uma posição central no campo, o médio mais recuado acaba por ter uma visão panorâmica de todo o campo, fator que lhe permite ser um elo de comunicação com praticamente com todos os companheiros de campo, instruindo ou sinalizando espaços vazios, homens livres ou apenas ligações limpas para avançar no terreno;
  6. 3.º Homem – a dinâmica que procura ser uma forma de criar perigo e ultrapassar opositores através do espaço interior com a intervenção de 3 atletas, almejando ficar com a bola de frente para os defesas. Assim, em equipas de posse o MD sabe que será sempre 3.º homem dos laterais da equipa e vice-versa na fase de construção, ou dos médios-interiores na fase de criação;
  7. Cobertura Ofensiva – quando a equipa se encontra instalada no meio-campo ofensivo, o médio defensivo desempenha um papel essencial na manutenção da posse de bola, garantindo sempre uma solução atrás aos seus companheiros para tirar a bola de uma zona de pressão ou para variar o centro de jogo para zonas do campo com mais espaço para jogar;
  8. Equilíbrios – uma das principais características das equipas grandes que jogam em posse é a capacidade de prevenir o momento da perda de bola quando se encontram em organização ofensiva. Assim, o “6” desempenha um papel essencial mantendo-se sempre perto dos jogadores que jogam mais à frente no terreno, mantendo a equipa junta, unida, ligada para que no momento da perda possam reagir rapidamente e recuperar a bola o mais longe da sua baliza.

Em suma, para além de tentar marcar e gerir o ritmo do jogo, sempre da forma que mais lhe convém, o médio defensivo tem obrigatoriamente de ter boa visão panorâmica de jogo, segurança no passe e cultura tática. É por tudo isto, que um deep-lying playmaker passou a ser um jogador de grande importância no processo ofensivo de uma equipa. Um jogador que atue nesta posição, mas que não consiga produzir este tipo de ações ou que demonstre este tipo de características, dificilmente terá sucesso numa equipa que defenda este modelo de jogo. Um médio defensivo hoje em dia é sinónimo de talento e classe, criatividade e inteligência, um atleta de superlativa importância no jogo da sua equipa. São as consequências do futebol moderno. Chama-se a isto evolução, de “rabos-de-vaca” a “barómetros” do futebol…

Visão do Leitor: Nuno Mota

VM
Author: VM

23 Comentários

  • Knox_oTal
    Posted Abril 15, 2020 at 10:14 am

    Para mim o médio defensivo que mais gosto de ver são aqueles do perfil de Matic e Fernandinho, ou mais recente, Rodri, isto é com largo espectro de acção, competentes com bola no início da construção e até no transporte, mas muito fortes na ocupação dos espaços e na transição defensiva. Em termos de jogadores portugueses talvez Danilo Pereira na sua melhor fase foi o que se aproximou mais deste perfil mais completo e all-around de médio defensivo. A vantagem deste tipo de médios, sobretudo se forem de qualidade top, é que permitem utilizar jogadores de cariz mais ofensivo à sua frente meio-campo, pois sozinhos arcam com grande parte das despesas do miolo. Daí Pep no City conseguir pôr a equipa a render como uma dupla de interiores como KdB/David Silva ou KdB/Bernardo Silva.

    Porém, como diz o post e alguns users, tudo depende do que pretendemos da posição e que dinâmica colectiva tem a nossa equipa. Acho que mesmo hoje em dia, um enforcer como Roy Keane ou um Petit na nossa realidade, pode ser extremamente útil (mais não seja pela liderança que costumam passar em campo), desde que devidamente compensado por companheiros de sector mais capazes na hora de construir e transportar, sendo que Keane proporcionava um equilíbrio perfeito com Scholes, e Petit tinha em jogadores como Tiago ou Manuel Fernandes jogadores complementares ideais.

    E quem não gostaria de ter um expert em pressão e recuperação de bola como Makélélé, um perfil de formiguinha, por quem não se dava muito no jogo, mas cujo trabalho sem bola era essencial em todas as equipas por onde passou. Florentino no Benfica, acredito ter o potencial de se tornar um médio nesta linha, um raio de acção mais amplo que um enforcer, a jogar em antecipação e delinear as zonas de pressing mediante as necessidades da equipa. Neste caso os parceiros de sectores têm que ser fortes na construção de jogo e não tanto em transporte, até porque este tipo de médios defensivos tem um raio de acção amplo e costuma ter uma saída limpa mas também muito simples e eficaz, cabendo a outro elemento as despesas na hora de construir. Makélélé tinha Guti em Madrid ou Lampard no Chelsea (um médio total), Florentino pode ter em Gabriel um bom complemento se forem trabalhados e rotinados para isso (apesar de achar que o brasileiro tenha algumas lacunas, sobretudo se não tiver a 100% fisicamente, sendo o primeiro a quebrar a coesão no meio-campo muitas das vezes).

    Por fim, os mais esteticamente apelativos da lista, os deep-lying playmakers, que se dividem ainda em dois sub-grupos: os de perfume de camisola 10, como Pirlo, Pjanic e Verratti (se bem que este o vejo mais como um 8 de equilíbrios com uma capacidade técnica e criatividade fora do comum, se quiser uma versão upgrade e muito mais criativa de João Moutinho), e aqueles de cariz mais posicional como Busquets ou no contexto português William Carvalho. Ter um jogador destas características é uma mais-valia obviamente, mas tem que ser devidamente enquadrado na equipa, ou esta terá fragilidades em termos defensivos, pois tratam-se de jogadores não tão fortes no trabalho de pressing e na recuperação de bola, daí o meio-campo a três de génio de Ancelotti com Pirlo, Gattuso e Seedorf (havia de tudo um pouco neste meio-campo extremamente complementar e dinâmico). Estes jogadores precisam de jogadores rotativos e intensos à sua frente, funcionando eles como pivot e temporizador. Por isso já tanto insisti que para Weigl funcionar no Benfica terá que ser num 4-3-3 (Gedson e Taarabt na teoria eram os melhores para completar esse trio) com uma dupla de interiores rotativos à sua frente, sendo que não “casa” bem com Gabriel pois trata-se de um jogador pesado e algo lento nos movimentos, ou então em alternativa num 3-5-2 em que Weigl seja uma espécie de líbero.

    Posto isto, para mim, e assumo que não o vi jogar, mas do que pode ver e ler, o melhor médio defensivo da história, ou pelo menos aquele que reuniu o maior número de características úteis à posição dá-se pelo nome de Fernando Redondo! Era um deep-lying playmaker híbrido, pois possuía algumas características dos médios all-around como Matic, tinha o carisma e a presença de um enforcer como Keane, mas ao mesmo tempo fazia tudo com uma elegância ímpar! Enquanto os joelhos o deixaram foi para mim a referência máxima daquilo que um médio defensivo pode ser e oferecer ao jogo colectivo da equipa, a má notícia é que como ele não devem aparecer muitos mais… vamos ver!

    Saudações Desportivas

  • Diogo Moura
    Posted Abril 15, 2020 at 12:31 am

    Para mim o jogador que fez a transição – se assim posso chamar – do puro 6 à moda antiga para um box-to-box foi Makelele.
    Super completo! Um autêntico pêndulo. Aguerrido nos duelos, fisicamente bastante forte e tentava sempre soltar a bola o mais rápido possível. Defensivamente preenchia os espaços e dobrava muito bem os laterais.
    Destaque ainda para Patrick Vieira e Guardiola.
    E ainda existia o Edgar Davids, mas esse, volta e meia perdia o juízo a meio do jogo, não era de fiar.
    Relativamente ao Post, muito bom!

  • Antonio Clismo
    Posted Abril 14, 2020 at 11:02 pm

    A adaptação feliz de Pirlo a médio defensivo mudou claramente as regras do jogo a partir de 2006.

  • Tiago Silva
    Posted Abril 14, 2020 at 10:26 am

    Está tudo dito no post, quero só acrescentar algo. O aparecimento deste deep-lying playmakers, muito se deveu também ao aumento da importância da pressão alta. Cada vez mais os treinadores trabalham a pressão da equipa sem bola, é quase uma prioridade porque querem ter a bola rapidamente e recuperar a bola o mais à frente possível, para no momento de transição causarem estragos e não terem de criar tanto porque têm menos terreno para ultrapassar. E para evitar isso, a saída, para ser mais limpa precisa destes jogadores, mais tecnicos e que consigam sair dessa zona de pressão com bola e acho que essa foi a principal razão para este tipo de médios defensivos começarem a aparecer no futebol moderno.

    • Antonio Clismo
      Posted Abril 15, 2020 at 1:24 am

      Depende sempre do esquema que a equipa utiliza. Sou fã dos médios estritamente defensivos como Matuidi ou Kanté como também sou fã dos médios defensivos mais criativos e cerebrais como era o Pirlo ou o Busquets cada vez mais em voga.

      Em Portugal ainda não se trabalha muito bem essa parte uma vez que na formação os modelos continuam a ser muito martelados no típico 4-3-3 sempre com um trinco bem definido a servir de pêndulo defensivo.

      A nível de médios defensivos jovens o paradigma é geral e dá para ver a forma como se trabalha a posição em Portugal.

      Florentino
      Rui Pires
      Nuno Henrique Pina
      Duarte Valente
      Rafael Brito
      Rodrigo Fernandes
      Samuel Costa

      Ou seja todos muito bons no capítulo defensivo mas pouco interventivos nos processos ofensivos das equipas porque nunca foram habituados a tal nos anos formativos. Não me surpreenderia que no futebol actual esse tipo de jogadores fosse aproveitado num futuro próximo a posições mais no centro da defesa do que no meio campo.

      Depois há jogadores que podem ser aproveitados como o Gustavo Assunção ou o Ronaldo Vieira já com características um pouco diferentes.

      • solrac43
        Posted Abril 15, 2020 at 2:17 pm

        Antonio Clismo, isso é verdade em parte, mas acho que não é transversal. A posição de médio defensivo em portugal é muito influenciada pelo tradicional 433 como referes, mas o que tem acontecido é que a maioria dos jogadores que ocupam a posição 6 na formação dos grandes clubes são jogadores com toque de bola diferenciado mas não tão defensivos, o que leva na transição a seniores grande parte das vezes subirem para a posição de 8. O caso mais flagrante disto é o caso do Daniel Bragança no Sporting. Ele destacou-se na formação do Sporting a jogar a 6 pela sua capacidade técnica, visão de jogo e capacidade de construção, o que é essencial para modelos de posse, no entanto na transição para sénior nota-se que não tem capacidade física para ocupar a posição num clube grande, porque faltam algumas vertentes que não são tão importantes como na formação.
        Outro caso que me recordo é o de Adrien Silva em que se passou exactamente a mesma coisa.
        Acho que isto é muito influenciado pelos treinadores da formação, e algumas vezes vemos casos como o Rúben Neves que é claramente diferenciado a ocupar a posição e o papel, mas que no Porto foi tapado por um grande jogador que oferece metade da qualidade com bola, mas muito mais segurança defensiva… E agora é o que se vê!
        No meu ponto de vista o que faz falta são treinadores principais com durabilidade no clube para terem a capacidade de moldar a formação e trabalhar os jogadores para encaixarem na equipa A, e não andar a adaptar na fase de transição para seniores.

  • Flavio Trindade
    Posted Abril 14, 2020 at 2:37 am

    Ainda há uns dias noutro tópico escrevi a mesma coisa para ilustrar a qualidade de um jogador em específico.

    Paulo Sousa actual treinador do Bordeus, era no final da década de 80, um 6 muito à frente do seu tempo.

    Aliás as valências que Paulo Sousa tinha na altura, são precisamente as valências que se pedem a um 6 moderno actualmente e tão bem retratadas neste texto.

    Sublinho ainda que Paulo Sousa na sua época era muito superior a uma das grandes referências da posição 6 da última década, Busquets, o que dá bem para perceber a sua valia.

    Ainda assim, é preciso dizer que os médios mais agressivos na recuperação sao essenciais para garantir os equilibrios e permitir que o pivot central consiga emprestar qualidade na saída de bola em posse ou em passe e consiga fazer uma marcação mais zonal.

    No último Milan ganhador na Europa no início do milénio, era Pirlo que jogava na posição 6, mas tinha a companhia de um rotativo Gattuso como falso 8.

    O próprio Verratti que está a fazer porventura a sua melhor temporada em Paris, tem agora a companhia de um box to box rotativo como Gana Gueye, o próprio Pjanic contava com Matuidi nos tempos de Allegri para fazer esse trabalho mais intenso.

    Em Inglaterra temos Rúben Neves com esse perfil.

    Ou seja, o tal 6 moderno tipo Paulo Sousa que o texto refere, só funciona em equipas que gostam de jogar em construção baixa e se sentem confortáveis em posse, mas mesmo assim, terão que ser complementados por jogadores mais rotativos.

    Basta olhar para a nossa liga para se perceber que face as características das equipas, que usam e abusam do jogo em profundidade, um 6 moderno não resulta.

    O Porto joga com Danilo e dois 8 com características defensivas e posicionais como Sérgio Oliveira ou Uribe.

    O Braga tem Palhinha como 6 clássico, o Sporting tem Doumbia e Battaglia, o Benfica tinha Florentino, Fejsa e Samaris e quando mudou o paradigma para começar a ter qualidade em construção desde trás e privilegiar o jogo em posse, trouxe um 6 elegante em Weigl mas perdeu o homem da rotatividade e dos apoios, Gabriel, e com isso veio um avolumar de erros defensivos e a perda da lideranca.

    Em suma a escolha do perfil de 6 irá sempre depender do modelo e da filosofia a utilizar por cada equipa.

    No caso que foi aqui dado, juntaria mais uma característica essencial para poder desempenhar essa função.

    A inteligência, o q.i futebolístico.
    Não basta ter bons pés se não conseguir ler o jogo à sua volta e compreender o jogo.

    E isso infelizmente é característica que não abunda e quando existe estamos logo na presença de um jogador diferenciado para qualquer treinador.

    Só um 6 com elevado nível de compreensão do jogo, vai conseguir saber que zonas pressionar, quando baixar para dar superioridade, quem atacar para recuperar mais bolas, e como garantir situações de ataque à sua equipa, quer através do domínio posicional, quer em passe.

    • SCP1906
      Posted Abril 14, 2020 at 10:20 pm

      Sem ter visto Paulo Sousa jogar, não acredito que tenha sido muito superior a Busquets, que é claramente o melhor médio-defensivo da última década.

      • Gil Rodrigues
        Posted Abril 15, 2020 at 8:14 am

        Se nunca viu como consegue afirmar tal coisa?
        o Texto é bem explícito e compara ambos num determinado espaço temporal. não compara as carreiras de ambos. Se bem que não podemos dissociar que a carreira do Busquets é essencialmente marcada por ser o fiel escudeiro de Xavi, Iniesta, Messi, e até o Piqué era mais importante da equipa. (Engraçado que quando Xavi e Iniesta se retiraram o barça deixou de vencer internacionalmente, mesmo tendo o Busquets)

    • Daniel Alves
      Posted Abril 14, 2020 at 9:07 pm

      Concordo. Pedem aos trincos para serem mais artistas e eles deixam de ser os lutadores que normalmente eram.
      Em termos de características, até pego no teu exemplo do Milan para falar do meio campo que mais se completava, pelo menos para mim: tinhas a raça do Gattuso, a arte de Pirlo, o músculo de Seedorf e a magia de Rui Costa e mais tarde Kaká. Completavam-se perfeitamente. Cada um com a sua coisa, mas todos tinham algo uns dos outros. Nenhum era tosco com a bola.

    • Pedro Rosa
      Posted Abril 14, 2020 at 12:29 pm

      Onde quero chegar com isto: JJ com as opções que tinha ao dispor utilizou várias estratégias para compensar o pior e Mostar o melhor de cada jogador.

      Conseguimos perceber então, que com as opções diferentes e de qualidade ao dispor do Bruno lage para o meio campo, não se trata do facto do Gabriel estar lesionado, mas o facto de lage ser fraco como treinador.

      Tal como Victoria conseguiu safar-se com o Sanches, o lage tinha o menino de ouro a produzir e a cobrir as falhas do Bruno.

      Mostra bem a qualidade do campeonato, quando um só jogador de topo consegue ganhar campeonatos. (No caso do Vitória 2, com o Ederson)

      p.s. o Gaitan não conta que sem treinador é um jogador banal.

    • Pedro Rosa
      Posted Abril 14, 2020 at 12:18 pm

      Boas Fábio.

      Também pelo papel fulcral que o medio defensivo tem no campo, que se nota o trabalho dos treinadores.

      Lembro-me de ir ver o Javi à luz, a dominar todo o jogo a seu belo prazer sozinho no centro do terreno. Parecia que metade do terreno era só dele. Esse pulmão e capacidade física permitiu ao JJ utilizá-lo como único médio defensivo (com a ajuda do Ramires para os equilíbrios) tendo sempre alguém próximo para o passe curto, e sair a jogar (Aimar que saudades!) O Javi, para além de besta, é um homem inteligente, conseguia perceber o que JJ pretendia na equipa e traduzir em campo. Isto sem grandes dotes técnicos para além do passe curto para o Aimar..
      Ou seja no futebol moderno não é extremamente importante a.qualidade técnica, mas sim a inteligência, do jogador e do treinador.
      Quando Javi saiu, o sistema teve de ser alterado, um Matic (que ao início, vi-o bem no estádio, era uma nódoa a md) , não tendo os mesmos recursos físicos do Javi tinha uma capacidade de passe, posse e drible de um 10. Mas precisava de ajuda de um cão de caça, e com Aimar a meio gaz , quem transporta-se a bola e lhe desse opção de passe. Aí entra o Enzo.

    • Tiago Silva
      Posted Abril 14, 2020 at 10:19 am

      Concordo com todo este texto e com o teu aparte Flávio, aliás adoro estes posts, são os que mais gozo me dá ler.

      A posição de médio defensivo é a mais importante atualmente e as equipas que têm os melhores 6 são as equipas mais próximas do sucesso. Se queres ver como uma equipa joga, basta veres o comportamento do médio defensivo em campo e tens logo uma ideia.

      Eu pessoalmente gosto deste tipo de médios defensivos, mais inteligentes, mas na minha opinião e gosto pessoal, gosto sempre de ter um jogador mais agressivo atrás, que seja imperial nas divididas que que saiba ler quando atacar a bola ou quando fazer contenção, mas acima de tudo tem que ser um jogador inteligente.

      E o teu exemplo do Benfica foi na mouche, os médios defensivos deste novo perfil precisam sempre dessa carraça ao lado e a ausência do Gabriel está a fazer muita falta ao jogo do Benfica por isso mesmo. Não é a presença do Weigl que está a matar a equipa, mas sim a ausência de alguém que complemente com ele. Por isso é que defendo um duplo pivô com Florentino, jogando o português como 8 e com liberdade para dar essas tais coberturas ao Weigl.

  • Mantorras
    Posted Abril 14, 2020 at 2:35 am

    Excelente post. Mais destes por favor, aliás, muitos mais destes!!

    Pirlo para mim foi o expoente máximo de um deep playmaker, e vejo em Verrati outro jogador muito parecido.

    Quanto a Keane, sempre o vi como um MC completissimo. Embora fosse mais 6 do que o medio do Bayern, ele e Stefen Effenberg pautavam-se por uma lideranca que se sentia ate pelo feixe de electroes projectado pela TV. Eram jogadores com um carisma brutal.

    Ja agora, gostava de te fazer uma pergunta, de todas essas características que referencias, quais sao as que Weigl nao possui?

  • Af2711
    Posted Abril 14, 2020 at 12:49 am

    Como é bom entrar no blog e ler publicações como esta que fala de futebol.
    O momento principal de viragem para mim deste conceito é tendo o inevitável Barcelona de Guardiola como expoente máxismo, onde equipas mais fortes privilegiam a construção desde a defesa. Com o avanço desta tendência o médio defensivo (chamemos de construtor de jogo recuado, à FM XD) tem importância fundamental no processo. Jogadores teoricamente mais lentos, mas de raciocínio rápido conseguem exercer esta função por entendimento dos espaços em que se poderão aproveitar (os mais evoluídos pensam sempre à frente) e com isso libertam toda a equipa da primeira fase de pressão dos adversários.

    O ônus, ou a má utilização deste jogador tem ficado latente nos jogos do Barcelona com Busquets; os dois laterais ficam demasiado abertos, e os centrais também abrem, com isso estão condicionados à tentativas de passes longos (jogos contra Getafe e Eibar).
    O médio defensivo atual nas grandes equipas é importantíssimo, mas não pode ficar preso sem opções de passe (enfrentando equipas que pressionam alto) nesta posição por ser uma zona perigosa.

  • Nazgul
    Posted Abril 13, 2020 at 10:25 pm

    Penso que aquele 6 puro já não existe, quase nenhuma equipa utiliza os antigos “trincos” tirando o Barcelona e o real que tem o busquets e o Casemiro! Hoje em dia só existe praticamente 8s, ou seja, antes só destruíam jogo agora tem de tirar a bola e depois transportar e fazer a 1 construção de jogo, daí o Florentino estar a ter muitas dificuldades o miúdo è um 6 há moda antiga rouba imensas bolas, mas depois passa para trás e isso já não serve … Hoje em dia os médios centros bons tem de ser os jogadores mais completos em campo tanto com bola como sem bola, atacar, defender, construir jogo e sacrificar pela equipa!

    • T. Pinto13
      Posted Abril 14, 2020 at 12:37 am

      Então o Sérgio não faz construção de jogo?

      • Nazgul
        Posted Abril 14, 2020 at 1:04 pm

        O Sérgio não faz construção de jogo, aliás è um jogador que beneficiou muito do estilo de jogo do Barcelona e de guardiola, eu nem o consigo ver noutras equipas è mole, lento e não transporta bola faz me lembrar o weigl que parece me que vai ser flop no Benfica è um 6 há moda antiga e nos jogamos com dois 8s para isso já tínhamos o Florentino!

  • André Dias
    Posted Abril 13, 2020 at 9:56 pm

    Excelente post. Só trocava Fabinho por Pjanic nos exemplos de deep-lying playmakers.

    Em relação ao médio defensivo moderno não me vou manifestar porque ficou praticamente tudo dito pelo autor.

    Quero aproveitar para falar de Roy Keane por causa dos aspectos que o Nuno Mota destacou nos médios defensivos à antiga (entrega, vigor e liderança).

    Todos conhecem o desfecho da Champions League de 98/99 quando o United venceu o Bayern na final com dois golos nos descontos (o 2º foi apontado por Solskjaer) mas não sei se todos estão a par daquilo que foi a meia final entre o Manchester United e a Juventus.

    Na 1ª mão o jogo ficou 1-1 em Old Trafford. Na 2ª mão a Juventus entrou bem e aos 11 minutos já vencia por 2-0. O United precisava de marcar 3 golos em casa de uma equipa que contava com jogadores como Peruzzi, Deschamps, Edgar Davids, Conte, Zidane e Inzaghi. A eliminatória parecia perdida e qualquer equipa se teria deixado ir abaixo naquela situação.

    No entanto, Roy Keane disse presente. O antigo capitão do United marcou o 1º golo do United. Mais tarde leva um amarelo que o deixaria fora da final e mesmo sabendo que não iria jogar a final esforçou-se como nunca em campo e a sua enorme manifestação de liderança e altruísmo galvanizou a equipa que viria a dar a volta à eliminatória. Foi provavelmente a melhor exibição da sua carreira e um excelente exemplo daquilo que um líder deve ser.

  • OMotoqueiroGuti
    Posted Abril 13, 2020 at 9:40 pm

    Um post muito interessante. Parabéns.
    Sim, essas são as características que se apontam a médio defensivo “moderno”.
    Porém, a união de tudo isso num jogador não é frequente. Ou seja: só clubes milionários, ou que tenham um jogador desses na formação, é que se podem dar ao luxo de exigir tanto.

    Sou pela complementaridade. No meu Sporting faz falta um “rabo de vaca”. Porque jogadores de bola no pé já há. Tudo depende do que a equipa necessita. E ela necessita, creio eu, de algum nervo. A táctica e o grupo de jogadores disponíveis é que fazem com que Determinado jogador, e determinadas características, sejam importantes.

    Um exemplo? Xavi. Quando foi lançado, Dizia-se que não era especialmente forte fisicamente, nem especialmente forte no drible, nem especialmente forte no remate. Para que serviria, então, um médio assim?!
    Com Guardiola, e respectiva ideia de jogo, atingiu o topo. Acontece.

  • Kacal
    Posted Abril 13, 2020 at 9:15 pm

    Excelente post Nuno Mota, uma descrição pormenorizada e bem descrita. Parabéns!

    Posto isto, só acrescento que entre ter um médio defensivo que fisicamente é “mole” e defensivamente frágil mas com uma capacidade de passe e visão de jogo, mesmo capacidade técnica, muito acima da média e o oposto, ou seja, uma capacidade técnica, de passe e visão de jogo fraca mas um nível físico altíssimo e uma capacidade defensiva e de “encher” o campo bem acima da média, prefiro este último caso de ter físico e capacidade defensiva sendo mais limitado no resto do que o oposto, sinceramente. Ou é para ter os dois aspectos em alto nível mesmo que um seja mais superior que o outro ou então se tiver apenas um deles, prefiro que seja o físico e defensivo. Basta acrescentar um médio mais capaz tecnicamente e que seja forte no transporte de bola e ter possivelmente um criativo virtuosismo num trio e já compensa ou então ter só o 2º médio e compensar com extremos e avançados mais técnicos e virtuosos que assim podem ter outro tipo de liberdade criativa e de movimentos.

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