Ninguém disse que seria fácil, deve pensar “Moki”. Assim era como Slawek Mogilan, o seu técnico na formação do Katowice da Polónia, o chamava. O seu pai abandonou-o com apenas seis anos e Arkadiusz não foi pelo bom caminho: roubava em pequenas lojas na sua Tychy natal e fumava. Desde cedo se começava a complicar aquilo que seria um percurso profissional cheio de pedras no caminho.
Fui com Mogilan e mais tarde com Adam Nawalka (selecionador polaco até há bem pouco tempo), que Milik começou a endireitar a sua carreira, ainda na Polónia. Algum tempo depois, o seu périplo pela Alemanha (Bayer Leverkusen e Augsburg) não correu bem, tendo jogado muito pouco, mas um empréstimo ao Ajax relançou-o. Em Amsterdão, apontou 47 golos e fez 22 assistências em duas temporadas que lhe serviram para colocar-se na montra internacional. Justamente no verão em que Milik chegou a Amsterdão, Luis Suárez, o último grande dianteiro do Ajax, assinava pelo Barcelona. Até à chegada de Arek, Davy Klaase e Siem de Jong supriram com golos a ausência do uruguaio na dianteira, mas teve de ser Milik a voltar a ser uma verdadeira referência na frente de ataque do Ajax. Desde a época de Suárez, só Milik conseguiu superar os 20 golos na Eredivisie com o Ajax, ainda que esta temporada Dusan Tadic esteja quase a juntar-se a este restrito grupo.
Em Nápoles estão a tapar buracos desde 2013. Foi-se embora Cavani, o homem dos 104 golos em apenas três temporadas, e chegou Higuaín, procedente do Real Madrid, não só para fazer esquecer o uruguaio mas também para superá-lo em palmarés com o Nápoles e, como se fosse pouco, para deixar uma marca histórica na sua última temporada com a equipa: 36 golos na Série A. Ninguém igual. Ainda que o seu destino e maneira de sair não tenham sido ideais, cada napolitano sabe que rezou, chorou e sonhou com Higuaín, sobretudo no seu último ano, o primeiro de Sarri. Pensador e obra levaram o Nápoles a sonhar com um Scudetto que, desde a época de Maradona, nunca esteve tão perto de voltar ao Sul de Itália.
Para substituir o argentino foram apontados vários nomes. Icardi foi um rumor que teve muita força, outros sonhavam com o regresso de Cavani, mas chegou Milik. O polaco chegou por 32 milhões – a segunda contratação mais cara do clube -, desconhecido para muitos, de novo com o objectivo de fazer esquecer alguém mas sem ter, de todo, a reputação dos seus antecessores. Na sua primeira temporada teve uma rotura de ligamentos do joelho esquerdo e, na segunda, do joelho direito. Nunca superou os 1.000 minutos e, apesar de ter tido um bom início, enquanto estava a recuperar-se Mertens, como falso nove, tornou-se indiscutível para Sarri.
O melhor que sucedeu a Milik foi a chegada de Ancelotti, já que Maurizio continua a demonstrar em Londres que é um homem de ideias fixas. Sob as ordens de Carletto, começou uma bonita disputa esta época pela posição de n.º9. Em perfeitas condição, Milik ganhou de maneira natural e leva já 15 golos na Série A, sendo o máximo goleador da equipa e o jogador do Calcio com melhor média golos/minutos disputados, com um tento a cada 106′. A confiança na sua perna esquerda explica tudo.
E, agora, vamos com a única verdade de todo este texto. Sobre Milik fala-se pouco para o muito que faz. Goles à parte. O seu quase 1,90 m de altura é acompanhado por uma inteligência táctica que lhe permitiu ao Nápoles renovar-se ‘noutro futebol’ sem Sarri nem Jorginho. O Nápoles perdeu essência, mas ganhou variedade e, sobretudo, diferentes soluções na frente de ataque. Milik associa-se, cai nas alas e abre espaços com os seus movimentos. O Nápoles, agora muito mais vertical, aproveita-se dele muito bem. Como se isto fosse pouco, o polaco é corajoso e tem uma canhota descomunal. Nesta Série A leva já 3 goles de livre em 4 tentativas, incluindo um por debaixo da barreira. Um sinal de que nunca perdeu a confiança.
Em Nápoles dizem “Non Mollare Mai” (nunca desistir). Levam mais de 30 anos sonhando com voltar a levantar o Scudetto e Milik parece-se a eles. Na sua infância faltou-lhe um pai e depois cabeça, mas corrigiu a tempo. Depois foi uma questão de minutos e, já em Nápoles, questão de sorte. Na sua terceira temporada em Itália, é já o n.º9 fixo, ainda que com esse n.º99 tão característico. Não haverá Scudetto esta temporada, mas um sonho segue vivo. Repetir essa UEFA de Maradona em 1990. “Senza Mollare” e roubando corações. Assim joga Milik. Sempre.
Visão do leitor (perceba melhor como pode colaborar com o VM aqui): Pipe Olcina


11 Comentários
Kacal
Excelente post, Pipe Olcina. A qualidade destes posts é cada vez maior, não fica nada atrás da mesma do polaco. Milik é daqueles avançados que considero fantásticos! Além de ainda ter 25 anos, é daqueles avançados que são altos mas móveis, que jogam muito com os colegas, que caem nas alas, que são muito inteligentes nas movimentações e nos espaços a ocupar e ainda têm golo. Na Alemanha não correu bem a experiência, mas tanto na Holanda como em Itália está a corresponder bem. No Napoli as lesões impediram que o seu contributo fosse maior na 1ª e 2ª época, mas nesta tem provado o seu valor e leva 18 golos em 35 jogos. números excelentes quando juntamos o que ele dá ao jogo da equipa. Gosto muito do polaco, aliás, os avançados polacos são todos de qualidade com Lewandowski como um dos mais completos do Mundo na sua posição, um Piatek em alta a surpreender na sua 1ª época num campeonato de topo e um Milik de categoria. Merece o reconhecimento e os elogios.
Estigarribia
Excelente texto. Milik é um dos grandes avançados e é daqueles jogadores que pode garantir muitos golos durante uma época inteira. Se ele um dia ser do Nápoles gostava que o polaco fosse para o AC Milan, senão, caso contrário, penso que também poderia encaixar numa equipa de Premier League.
Gunnerz
Com Lewandowski com apenas 31, e milik e Piatek ainda meninos está aqui uma boa dor de cabeça para o seleccionador. Certo é que quando perderem lewa têm 2 bons substitutos, talvez como mais ninguém na Europa.
Estigarribia
Gunnerz,
Lewandowski é titularíssimo ainda na Polónia, mas eu penso que tanto o Milik, como o Piatek, poderiam complementar muito bem com o Lewa. Mas, sim, é uma dor de cabeça daquelas que os treinadores gostam de ter.
Tiago Silva
Parabéns pelo texto Pipe Olcina. Penso que o VM nunca esteve tão rico como está agora.
Quanto ao Milik é um jogador muito sobrevalorizado, um craque. Já tinha dado nas vistas no nosso Europeu, para mim um dos melhores do torneio é esta época em Nápoles está a ser talvez a melhor da carreira. Ele faz tudo: sempre muito móvel, arrasta marcações, desequilibrar com o seu pé esquerdo, matador, muito forte tecnicamente. Merece este texto, um jogador que nunca desistiu, que passou por muito na vida e que superou todos os obstáculos, soube esperar e agarrar as suas oportunidades. Que continue a jogar e a marcar.
cards
Liga europa é dificil tem que eliminar arsenal valencia e chelsea
PauloDybala1O
Grande texto, Milik está a ser associado ao Arsenal mas acredito que fique em Nápoles e ajude ao máximo a equipa que ele tanto gosta e de certeza, os adeptos Azzurros adoram o avançado polaco. Muita técnica e um grande finalizador.
Goncalo Silva
Grande, grande texto. Adoro Milik, desde os seus tempos no Zabrze da Polónia. Quando foi para o Leverkusen fiquei muito contente (é a minha equipa alemã), mas infelizmente não justificou.
A meu ver a Polónia tem o melhor leque de 9’s da atualidade, com Lewandowski, Milik e Piatek.
Kacal
Para mim o leque da Argentina é superior e o de França também é muito bom. Depois temos Brasil com Firmino/Gabriel Jesus e Inglaterra com Kane/Rashford (gosto muito do leque da Inglaterra).
André Dias
A Argentina com Aguero, Higuain e Icardi, o Uruguai com Suaréz, Cavani e Max Gomez e a França com Griezmann, Mbappé, Giroud e Lacazette parece-me leques superiores.
Pedro Barata
É, sem dúvida, um poderio ofensivo incrível por parte dos polacos. Veremos como, nos próximos tempos, irá ser conjugado em campo esse poderio (à partida jogarão dois).