Com o aparecimento de José Mourinho, um dos factores que era considerado de menor importância no futebol saltou repentinamente para o 1º lugar: a Psicologia. Começou a falar-se em Mind-Games, utilizando a imprensa como veículo para transmitir mensagens para dentro e fora da equipa, motivando os atletas ou provocando os adversários. Mas até que ponto esta face mais visível das estratégias de motivação é a mais relevante?
Se fosse apenas no panorama público que os treinadores e equipas técnicas intervêm…então o Athletic de Bielsa, a título de exemplo, nunca teria tido o rendimento que teve – o argentino é um treinador muito sóbrio nas conferências de imprensa. No entanto, há casos em que o que é dito em público acaba por se revelar decisivo, por provocar uma resposta (na equipa, no adversário ou em ambos). Uma das afirmações mais célebres é a frase de José Mourinho no ano em que se tornou treinador do Porto: “Para o ano, em condições normais…vamos ser campeões e em condições anormais…também vamos ser campeões” – esta frase foi inicialmente interpretada como uma indirecta aos adversários, uma forma de pressão aos árbitros, mas embora esse resultado não possa ser ignorado, o principal objectivo seria motivar a própria equipa. No fundo, transmitir-lhes que, se fizerem tudo como planeado e seguirem as indicações até ao fim, seriam capazes de ser tão melhores que os outros que não haverá qualquer factor externo que possa interferir. Basicamente, o treinador assumiu sozinho o risco – antecipar que vai ser campeão e depois não se concretizar podia ter destruído a carreira do melhor técnico do mundo – retirando muita pressão aos jogadores e facilitando-lhes a tarefa. No entanto, é importante referir que a maior parte do trabalho de motivação dos atletas é feito no dia-a-dia, longe dos olhares da imprensa. A intenção é proporcionar as melhores condições possíveis a cada jogador, dentro da sua personalidade e das limitações da equipa, ou seja, aquilo que muitas vezes o comum adepto refere como uma loucura do treinador, tem muitas vezes uma intenção óbvia de recuperar/motivar o jogador em causa. Um exemplo claro foram as situações de Roberto e Emerson no Benfica: será que o treinador era o único que não via os erros individuais de cada um, ou será que a mensagem que poderia transmitir ao grupo traria consequências ainda piores? Será que determinadas acções ou declarações podem fazer com que o treinador perca o controlo do grupo? Como o caso de Domingos Paciência, quando culpou publicamente os jogadores pelos maus resultados. E situações como a que foi descrita, entre Jorge Jesus e Ola John, quando o jogador foi repreendido em pleno relvado. Qual a importância destes aspectos no rendimento das equipas? Em Portugal, quem pensam ser a estrutura (não só o treinador) que melhor utilização faz da imprensa?
Pedro Nogueira


