A 4 de Fevereiro de 2000, era lançado The Sims, a primeira versão de uma série de jogos electrónicos de simulação da vida real, nos quais os seus jogadores podem criar e controlar o dia-a-dia de indivíduos virtuais. Nesse mesmo dia, nasceu na cidade de Luxemburgo, um novo prodígio do futebol internacional. Vincent Thill joga no FC Metz, e a 21 de Setembro, tornou-se no primeiro futebolista nascido em 2000 a estrear-se numa das cinco principais ligas europeias.
Aconteceu na 6ª jornada da Ligue 1 e o adversário foi o Bordéus, que levou a melhor no reduto do Metz por 3-0. Lançado ao minuto 82, quando a sua equipa já perdia por três golos de diferença, Thill já não foi a tempo de inverter o desfecho da partida, nem de justificar o interesse demonstrado pelos maiores clubes do futebol europeu na sua contratação. Mas afinal, de quem se trata este jovem que em maio rejeitou mudar-se para o Bayern Munique para assinar o seu primeiro contrato profissional com o Metz?
Vincent é o terceiro de quatro filhos da família Thill e o futebol sempre fez parte da sua vida. O seu pai, Serge, foi 14 vezes internacional pelo Luxemburgo, e a sua mãe, Nathalie, foi a primeira capitã da equipa nacional feminina. O seu irmão mais velho, Sebástien, de 22, joga no Progrès Niederkorn e é uma presença regular nas convocatórias da selecção principal. Olivier, de 19, é seu companheiro de equipa e internacional sub-21. O mais novo, Marek, tem apenas 6 anos.
Vincent iniciou a sua carreira no Fola Esch, mas este não seria o único clube que viria a representar no seu país natal. Ainda criança, Vincent passou pelas camadas jovens do Progrès Niederkorn, do FC Rodange 21 e do CS Pétange, antes de se mudar com apenas 12 anos para o Metz, cujo centro de formação ficava a 75 km da casa da sua família. No nordeste de França, Vincent foi queimando etapas com relativa facilidade. Aos 15 anos, já jogava pelos sub-19, e em maio, assinou o seu primeiro contrato profissional com 16.
“Tu crias, tu controlas, tu dominas.” – era este o slogan com que The Sims 4, o quarto e último jogo da série, foi lançado a 2 de Setembro de 2014. E as funções de Vincent dentro de campo, não podiam ser mais semelhantes. O jovem prodígio ora pode actuar como médio ofensivo, ora mais próximo do ponta-de-lança, como 2º avançado. As semelhanças com Messi (baixa estatura, pé esquerdo, controlo de bola e bom poder de drible) existem, mas é com Miralem Pjanic que Vincent é comparado com maior frequência. E existem razões para isso.
Apesar de ter nascido na Bósnia-Herzegovina, Pjanic cresceu no Luxemburgo para onde os seus pais emigraram quando ele ainda era bebé, para escapar à guerra no seu país natal. Com apenas sete anos, Pjanic juntou-se ao Schifflingen 95, uma equipa local, onde despertou a atenção de diversos clubes em redor. No entanto, à semelhança de Thill, seria no Metz que o actual médio da Juventus iria concluir a sua formação e cumprir a sua estreia como profissional com 17 anos, 4 meses e 16 dias.
A juntar a isso, o facto de ter passado tantos anos no Luxemburgo, também o tornou elegível pelas selecções jovens do Grão-Ducado. Pjanic representou as equipas sub-17 e sub-19, antes de preterir o Luxemburgo em favor da Bósnia. Seria, de resto, da sua autoria o único golo do Luxemburgo no Europeu de sub-17 em 2006, torneio para o qual os pequenos Leões Vermelhos se apuraram na condição de anfitriões. Mas as semelhanças entre os dois não terminam aqui.
Se Pjanic é hoje um dos maiores especialistas em livres directos da actualidade, Thill não lhe fica atrás. Em Outubro de 2015, o jovem do Metz assinou dessa forma os dois únicos golos do Luxemburgo no apuramento para o Europeu de sub-17, competição que Portugal acabaria por conquistar em Maio passado. Primeiro, com um remate a 25 metros diante da Sérvia (1-6), e dois dias mais tarde, a 30, com a Áustria (1-2).

A estreia pela selecção principal aconteceu a 25 de Março deste ano, justamente num particular com a Bósnia de Pjanic. Ao minuto 68, apenas um após a entrada de Pjanic em campo, Thill rendeu o capitão Mario Mutsch, tornando-se no mais jovem jogador na história do Luxemburgo, com apenas 16 anos e 50 dias. Dois meses depois, o seu primeiro golo internacional, num particular diante da Nigéria. Com 16 anos e 117 dias, Thill estabelecia o segundo recorde de precocidade com a camisola do seu país, poucos dias após o turbilhão que rodeou a assinatura do seu primeiro contrato profissional.
Além do Bayern Munique, também o Hoffenheim, o Milan e diversas equipas inglesas terão demonstrado interesse em Thill, que decidiu permanecer no Metz, por oposição, por exemplo, à decisão que Thibaut Vion tomou com 17 anos, quando trocou o clube francês pelo Porto. Decisão que, contudo, se revelaria precipitada para a carreira do antigo jogador dos azuis e brancos, que ainda não confirmou em sénior o talento que lhe vislumbraram quando era mais jovem, e que lhe permitiu ser campeão do mundo de sub-20, ao lado de Paul Pogba, Geoffrey Kondogbia ou Kurt Zouma. O contrato de Thill seria válido por três anos, com mais dois por opção, mas apenas no início da pré-temporada o jogador se iria juntar à equipa principal, recém-promovida à Ligue 1.
Os poucos minutos a que teve direito no seu jogo de estreia, seriam suficientes para, ainda assim, captar a atenção do Real Madrid e do Manchester City, que se juntaram a um já extenso rol de interessados. Com 16 anos, 7 meses e 17 dias, Thill superou Pjanic que se estreou em 2007/08, na 4ª jornada. No entanto, Pjanic beneficiaria do arranque em falso do Metz no campeonato (acabaria mesmo despromovido) para se fixar no onze inicial a partir da 11ª jornada. No final da temporada, o médio seria transferido para o Lyon por uma verba recorde na história do clube: 7,5 milhões de euros. Thill, por seu turno, não mais foi opção para Philippe Hinschberger – tem competido pela equipa de reservas que disputa a CFA 2, o quinto escalão do futebol francês.
Metz & Luxemburgo, uma longa história
Thill integra uma extensa lista de jogadores luxemburgueses que se notabilizaram ao serviço do Metz. Nico Braun é o melhor marcador na história do clube com 96 golos, mas Guy Hellers, que também por lá passou, foi o responsável pelo recrutamento de Thill para a academia dos Grenats. Juntamente com Thill, fazem parte da equipa principal outros dois jogadores com nacionalidade luxemburguesa: o médio Chris Phillips, 35 vezes internacional A e Vahid Selimovic, central internacional sub-21 pela Sérvia.
Na equipa de juniores, destaque para outros três jogadores: Pit Simon, central de 18 anos já chamado à selecção principal do Luxemburgo, o capitão Emir Bijelic e Belmin Muratovic, que já foram colocados no radar do Aston Villa e da Roma, respectivamente. O problema é que todos estes jovens, quando confrontados com os convites de outras federações, à semelhança de Pjanic, não hesitam em escolher os países de onde são originários os seus pais (nomeadamente, dos Balcãs), em detrimento do país que os viu nascer.
Alheia a este problema, para já, parece a selecção principal, liderada por Luc Holtz, que se tem apresentado de forma bastante consistente, tendo em conta o seu historial recente, no apuramento para o Mundial 2018. Apesar de ocupar o 6º e último lugar do grupo A, sem qualquer vitória, os Leões Vermelhos venderam caras as derrotas diante da Bulgária e da Suécia, ambas pela margem mínima, e surpreenderam na Bielorrússia com um empate, depois de terem jogado toda a 2ª parte reduzidos a 10 unidades. Na última actualização do ranking FIFA, em Outubro, o Luxemburgo subiu para a 130ª posição, saltando 15 lugares. Thill, Florian Bohnert (Schalke II) e Christopher Martins (Lyon II) são os baluartes desta nova geração, que conta com a experiência de Mario Mutsch, Daniel da Mota ou Aurélien Joachim.
João Lains


9 Comentários
Kafka
Grande texto sobre um jogador que desconhecia, obrigado Lains
To Madeira
Excelente artigo! É sempre bom podermos aumentar o nosso QI futebolístico com a vossa ajuda, continuem com a publicação deste tipo de textos que nos ajudam abrir horizontes :)
(Apenas um pequeno comentário: Tendo nascido no ano 2000, nasceu no Sec XX e não no Sec XXI, correto?)
RodolfoTrindade
Não conhecia o jogador.
Obrigado pelo texto.
Observador
Excelente crónica e conhecimento. Parabéns!
MegaBadjeras
Excelente talento, muito idêntico ao Emre Mor. Pena não ser francês ou belga, porque pelo Luxemburgo nunca ganhará nada. A formação do Metz é uma das melhores de França e começam a surgir alguns jogadores. Há ainda Alexis Larriere (médio muito forte fisicamente, um todo-o-terreno) e Gauthier Hein ( um extremo, segundo avançado ao estilo do Podence). Que pena que Vion nao tenha dado jogador!
José Nuno Alves
És grande Lains! Mais um excelente texto! Parabéns
Antonio
Conheço pessoalmente o jogador…e ele já me dizia ” se sou bom agora daqui a uns anos também sou… Tenho que crescer como jogador e pessoa para quando chegar ao topo lá estarei por muitos anos”
Pedro o Polvo
Grande!
Tiago Silva
Aguardo com muita expectativa a evolução deste talento! O Pjanic é o meu jogador preferido e o Thill tem tido um percurso muito semelhante ao bósnio e espero vê-lo nos maiores palcos!