5 de Julho de 2018. O Nápoles paga 27 milhões de euros por uma das sensações da La Liga anterior. Era o valor da cláusula de rescisão e uma das transferências mais avultadas da história dos napolitanos, apenas atrás dos avançados Higuaín e Milik. Fabián Ruiz era o seu nome. Ruiz era peça chave no meio-campo do Bétis. Um médio alto e canhoto, com técnica para dar e vender, com uma condução de bola fascinante e uma elegância sublime. O que Ruiz não sabia é que uma rapariga de Sevilha, a sua região desde que nasceu, seria a responsável pela maior mudança que ocorreria na sua vida…
Davide Ancelotti seria um jovem como tantos outros em Itália se não fosse filho de Carlo Ancelotti, um dos treinadores mais titulados do globo. Com uma namorada andaluz, Davide visitava regularmente Sevilha e passou a marcar presença nos estádios dos dois maiores clubes da cidade. Sem surpresa, a atracção por Fabián Ruiz foi imediata. Davide começou a seguir os jogos do Bétis e o fascínio pelo médio foi crescendo, ao ponto de sugerir a sua contratação ao pai, com quem trabalha desde os tempos de PSG. Impávido e na sombra do desconhecimento seguia o n.º 6 do Bétis. Ruiz não tinha interesse em relações extra-conjugais, apenas queria namorar a bola. O ciúme de qualquer adepto no Benito Villamarín era, por isso, desnecessário.
No entanto, por entre passes e fintas, lá arranjou tempo para um date. E não era um encontro qualquer. Estava Carlo Ancelotti do outro lado. Afinal, não é todos os dias que existe a possibilidade de conversar com uma personalidade deste calibre. Acontece que não se tratava apenas de uma conversa. Ancelotti tinha um convite para Ruiz. Queria levá-lo para Nápoles, no seu regresso ao Calcio. Hesitou. Desde sempre se sentira realizado em Sevilha. Vestia a verde e branca do Bétis desde os 8 anos de idade, habituara-se a assistir às cavalgadas de Joaquín pelo flanco direito e a entusiasmar-se com os gritos de Juanito. Chorou a despedida de Jesús Capitán Prada, o seu querido Capi, figura incontornável dos Béticos e a sua grande referência no mundo futebolístico. Queria ser como eles e cumpriu o sonho de alinhar nos Verdiblancos. Contudo, sentiu-se seduzido. Não foi fácil a decisão, mas optou por aceitar a proposta com a promessa de um dia mais tarde voltar para ali pendurar as botas. Os olhos de Ancelotti indicavam o caminho. Agradeceu à namorada de Davide e seguiu para Itália com o golo apontado ao Málaga cravado na memória. Havia sido decisivo para garantir o regresso do Bétis à Europa. Se tivesse imaginado um golo em criança teria sido aquele.
Seguia-se um período de natural adaptação, mas uma pequena lesão travou as suas intenções iniciais. Contudo, não era a primeira vez que enfrentava um revés. Nunca esquecera os murros no estômago na fase de formação, onde o seu corpo não crescera ao mesmo ritmo do seu pé esquerdo. É irónico que, actualmente, Ruiz seja um dos jogadores mais altos do futebol espanhol quando a altura foi vista como uma das suas lacunas durante alguns anos. De um Verão para o outro, passou de 1,59 cm, dos seus 14 anos, para os actuais 1,89 cm. Naturalmente, sentiu problemas musculares, que apenas debelou numa pequena passagem pelo Elche, por empréstimo, trabalhando hora e meia após os treinos para fortalecer os músculos. Essas memórias estavam presentes e davam-lhe força para se adaptar rapidamente a uma nova realidade. As maiores dificuldades deram-se fora do campo. Estava agora numa nova cidade, rodeado por pessoas diferentes e a experienciar uma língua distinta. Não tinha a sua Chari, que para muitos era uma das empregadas de limpeza do complexo de treinos do Bétis, mas que para Fábian era a mãe que passava o dia de um lado para o outro para que os filhos tivessem sucesso na vida e a quem ofereceu a camisola da estreia na selecção contra as Ilhas Faroé. Também não tinha a sua hermanita, como gentilmente tratava a sua irmã Yamila. Começou por se juntar mais aos compatriotas Albiol e Callejón, mas foi com Dries Mertens que criou uma relação mais especial e com quem se habituou a estar mais tempo. Ainda assim, vivia sozinho e, por isso, teve de aprender a cozinhar. Um desafio bem mais difícil para Ruiz do que enfrentar o velho San Paolo. No relvado, a história era outra. Era tudo diferente, menos uma coisa. A sua namorada continuava ali. E para ela, Ruiz não tinha segredos e nunca se sentia envergonhado. Pegou nela e começou a fazer aquilo que melhor sabe. A empatia foi imediata e a cidade que se apaixonou por Maradona começou a render-se aos poucos. Tal como em Sevilha, Ruiz começava a sentir o calor em seu redor e ia bebendo do mesmo vinho dos seus companheiros. Sentia-se já parte da família e era abordado na rua pelos tiffosi com regularidade.
Sob o olhar da dupla Ancelotti, foi-se começando a destacar, alinhando em várias posições e espalhando o seu perfume. 2019 viria a tornar-se num ano de sonho. Além da sua afirmação em Nápoles, conseguiu recuperar, seis anos depois, o título europeu de sub-21 para a Espanha, competição em que foi eleito o melhor jogador da prova. Por outro lado, chegou igualmente à selecção A, seguindo as pisadas de Capi e, mais recentemente, de Xavi e Iniesta, outras duas referências no seu crescimento. A ascensão de Ruiz foi, por isso, meteórica, ao ponto de ser já figura na La Roja e de ser cobiçado pelos maiores clubes do futebol europeu, nomeadamente os gigantes do país vizinho, Barcelona e Real Madrid.
Contudo, conhecendo-se a capacidade de resistência ao mercado de Aurelio De Laurentiis e o apego que a maioria dos jogadores do Nápoles sente em relação ao clube e à cidade, não será fácil fazer Fabián, a quem um dia apelidaram de Messi de Los Palacios, a sua terra natal, mudar novamente de ares. Tornou-se num dos melhores médios do mundo aos 23 anos e a melhor notícia é que isto ainda agora começou. Certo é que aquele namoro sevilhano mudou para sempre a sua vida. A dele e a nossa. Talvez um dia sejamos nós a agradecer a Fabián tudo aquilo que nos proporcionou.
Rodrigo Ferreira


8 Comentários
Vegeta
Espetacular ????
Fantantonio
Bonito texto e a menção ao Bétis de outros tempos tocou forte.
Maestro10
Segundo consta, está de saída e vai entrar Sandro Tonali para o seu lugar.
RodolfoTrindade
Excelente texto sobre um excelente jogador.
Pésquerdo
Belíssimo texto!
marquess
Bonito texto; parabéns
Tiago Silva
Que belo texto Rodrigo! O Fabian era um menino que sonhava jogar no Bétis e agora é bem mais que isso. Um dos jogadores mais desvalorizados quando se falam nos melhores médios do Mundo não se costuma falar nele, mas devia-se! Espero que continue em Nápoles e que por lá continue a ser o substituto da lenda Hamsik!
Khal Drogo
Bonito texto, Rodrigo. Excelente leitura.