A história dos adeptos de futebol é tão antiga quanto os primórdios do próprio desporto, numa altura em que os espectadores se reuniam em grande número para assistir a jogos disputados entre equipas locais. Ao longo do tempo, a paixão pelo desporto cresceu, assim como o número de apoiantes, que começaram a apoiar outras equipas e jogadores específicos. Os primeiros clubes de futebol organizados foram formados no meio do século XIX, e com eles veio a formação de clubes de apoiantes ou claques. Esses grupos reuniam-se organizadamente para assistir a jogos, cantar e entoar os seus hinos, apoiando a sua equipa e exibindo as suas cores e símbolos. À medida que o desporto ganhava notoriedade e se espalhava globalmente, os adeptos de futebol tornaram-se uma parte significativa do tecido do desporto, conhecidos pela sua energia, paixão e apoio incansável. Hoje, esses adeptos são uma parte integral do futebol e desempenham um papel fundamental na criação de uma experiência efusiva e inesquecível de dia de jogo. Contudo, deveria o seu papel ficar por aqui? Ou será responsabilidade e direito dos adeptos estenderem a sua influência noutras áreas do próprio clube que apoiam?
Como foi frisado, os adeptos de futebol desempenham um papel crucial no desporto, e o seu impacto vai além de apenas apoiar a sua equipa favorita durante os jogos. Uma forma dos adeptos se envolverem é terem voz na concepção dos equipamentos do seu clube ou seleção. Afinal, não são as camisolas mais do que adereços e extensões da identidade do clube? Cada vez mais este tópico se tem tornado uma prática comum entre clubes, que compreendem a importância de incorporar o feedback dos sócios e adeptos no processo de design por várias razões. No entanto, ainda não é um processo generalizado em todos as equipas. Atualmente, existe muita polémica por causa das ideias progressistas de alguns clubes e marcas que priorizam a inovação e marketing, perdendo-se a história e identidade clássica dessas instituições. Este implementar de uma modernização excessiva e súbita resulta num afastamento exagerado do que é a imagem tradicional e clássica desses clubes, muitas vezes infringindo os próprios estatutos e regulamentos internos. São alguns exemplos, a camisola principal de 2023/2024 do Atlético de Madrid, a camisola principal de 2020/2021 do SL Benfica, entre outras.
O processo de inclusão dos adeptos na concepção dos equipamentos começa com o agregar de opiniões e ideias. As marcas realizam pesquisas, focus groups e monitorizam plataformas e redes sociais para conseguir feedback dos adeptos sobre equipamentos atuais e o que gostariam de ver em designs futuros. Esse feedback pode abranger diversas informações, desde preferências de cor e padrão até ao posicionamento e cores do logótipo do patrocinador. Idealmente, o objetivo do designer é criar uma camisola que represente a identidade da equipa e modernize o visual, mas que também satisfaça os adeptos, tornando a incorporação desse mesmo feedback num aspeto crucial deste processo.
Incluir adeptos no processo de design dos equipamentos tem vários benefícios do ponto de vista do marketing. Neste cenário, os adeptos são quem projeta – em parte – e o consumidor, sendo mais propensos a comprar um equipamento em que eles próprios tiveram voz na concepção. A sua envolvência, investimento emocional e orgulho no seu papel são sinónimo de promoção positiva, levando a uma maior lealdade à marca e maiores receitas de vendas. Alguns clubes, como o Flamengo, West Ham United, Borussia Dortmund, Atlético Mineiro e AC Milan, abraçaram essa prática, realizando votações online para que os adeptos votem no seu design preferido ou convocando reuniões para que os sócios compartilhem as suas ideias.
O caso do Clube de Regatas do Flamengo é especialmente louvável, uma demonstração de uma receita de sucesso e um modelo a seguir por outros grandes clubes e marcas:
O Flamengo, um dos maiores clubes de futebol do Brasil, tem uma abordagem única para o design dos seus equipamentos. O clube tem um Conselho Deliberativo, que desempenha um papel crucial em várias temáticas do clube. Este conselho é responsável por supervisionar vários aspetos e processos, incluindo a criação de equipamentos. Para atender especificamente a estas questões, o Conselho Deliberativo tem várias comissões, entre as quais a “Comissão de Uniformes”.
A Comissão de Uniformes tem como tarefa a responsabilidade de aprovar ou rejeitar os modelos dos equipamentos do clube durante o processo de criação. Este processo dura entre um a dois anos. A comissão, onde figuram um número restrito de sócios, realiza reuniões regulares com a marca, a Adidas, para avaliar os designs e fornecer feedback. Este processo garante que o produto final não infringe os regulamentos e estatutos e que reflete a identidade do clube, mas também leva em consideração as opiniões e preferências dos adeptos sem descurar a modernização inevitável dos designs da marca. Todos os sócios que participam no processo estão sujeitos a acordos de sigilo para poderem ver as maquetes e aferirem sobre a sua viabilidade à luz das diretrizes do clube.
Através desta colaboração próxima entre o clube, o Conselho Deliberativo e a marca, o Flamengo é capaz de criar camisolas únicas e inovadoras que não só são visualmente apelativas para os adeptos, mas também expressam a história e tradição do clube sob diversos pormenores. A participação dos adeptos no processo de criação dos equipamentos ajuda a fomentar um forte sentido de comunidade e conexão entre o clube e massa adepta, o que é um aspeto vital num desporto em que o apoio dos adeptos é tão importante.
Do ponto de vista financeiro, envolver os adeptos no processo de design pode levar a camisolas mais apelativas que consigam diferenciar o clube e aumentar a comercialização próprios equipamentos. Este aumento na demanda pode resultar em vendas mais significativas, fornecendo uma fonte adicional de receita mais expressiva para o clube.
Em conclusão, a participação dos adeptos no design de equipamentos de futebol é uma clara mais-valia, e apresenta inúmeros benefícios tanto para o clube e marca quanto para os próprios adeptos. A incorporação do feedback de sócios e adeptos permite aos designers criar camisolas com ligação à massa adepta, fortalecendo a ligação entre o clube e adeptos, tendo como consequência natural o aumento das vendas, proporcionando benefícios financeiros significativos para o clube. As vantagens referidas em incluir os adeptos no processo de design tornam-nos uma parte indispensável do design da indumentária.
Mais do que apoiante e festivo, o adepto deve ser participativo.
Visão do Leitor: Francisco Torgal


22 Comentários
Christian "Chucho" Benítez
Excelente texto, Francisco.
Hoje em dia no futebol não há uma época em que o equipamento de um clube ou de uma seleção não seja uma ‘cagada’ autêntica, como se verificou com o equipamento que Portugal utilizou neste último Campeonato do Mundo.
Acho que a Federação Portuguesa de Futebol podia ter feito uma espécie de votação no seu site para que as pessoas pudessem eleger qual o design para a camisola de Portugal. E, atenção, para mim os dois equipamentos de Portugal no último Mundial são dos mais horríveis que já vi Portugal usar (espero que não levem a mal eu dizer isto, mas eu costumo ser muito picuinhas com os equipamentos quer de Portugal, quer do Sporting).
Saudações Leoninas ?
Antonio Clismo
Tens que te meter no lugar das marcas. Se fizerem sempre os mesmos equipamentos, os adeptos deixam de comprar com o tempo. E a melhor forma de fazer um reset é lançar um equipamento horroroso para depois todos comprarem quando voltarem a lançar um em condições.
Quantas camisolas achas que a Nike vende da seleção portuguesa em ano de Mundial? Um milhão? Talvez.
No dia em que lançarem uma camisola da seleção portuguesa ao xadrez, verde e vermelho, vão ser obliterados por toda a comunicação social mundial e no final do dia vão vender 2 milhões de camisolas..
Christian "Chucho" Benítez
E isso também acontece com os clubes. Pegando naquele exemplo que dei, noutro comentário, da camisola cor-de-rosa do Benfica em 2007-2008, aposto que essa camisola na altura terá vendido, e bem.
O que é certo é que daí para cá, outros clubes começaram a ter camisolas alternativas em cor-de-rosa, como a Juventus e, salvo erro, o Real Madrid.
Saudações Leoninas ?
Antonio Clismo
Ou o do Barcelona versão circo do ano passado. Atletico Madrid versão trip de LCD deste ano também está qualquer coisa.
Antonio Clismo
Em Portugal não é costume haver grandes problemas com os equipamentos dos clubes, porque como as vendas são tão reduzidas, as marcas não se sentem compelidas em ”inventar” para criar um buzz à volta de um design. Tirando as camisolas meio alaranjadas do Benfica do ano passado ou aquelas com os letras douradas do ano anterior, não costuma haver problemas de maior.
A Adidas não tem que se enganar a produzir o equipamento do Benfica.
A NB está-se a marimbar para o FC Porto, e qualquer coisinha serve.
A Nike também não quer saber muito do Sporting e basta inverter as cores de ano para ano para os adeptos ficarem contentes (se bem que poderão mudar de símbolo no próximo ano, para um leão mais simples, no seu design, tal como o leão que está no centro do símbolo do Lyon).
Depois há uma grande variedade de marcas a equipar clubes em Portugal como a Hummel, Joma, Kelme, Puma, Macron, Kappa, Mizuno e a Skita. Sem esquecer as portuguesas Lacatoni e CDT.
Não esquecer que Portugal é líder europeu na produção de tecidos e calçado, por exemplo, chega a ser constragedor a Lacatoni e a CDT terem uma quota de mercado tão baixa. Para mim, a CDT até é aquela que tem feito os melhores designs de equipamentos dos últimos anos no nosso futebol.
Christian "Chucho" Benítez
Clismo,
Mas olha que os três grandes já tiveram autênticas ‘cagadas’ em relação aos seus equipamentos. Por exemplo, em 2007-2008, o Benfica teve aquele equipamento cor-de-rosa, que acabou por motivar até muitas piadas por essa Internet fora; o FC Porto, em 2015-2016, teve o famoso equipamento alternativo acastanhado que também era horrível; e o Sporting em 2017-2018 teve uma equipamento alternativo que era em verde ‘cor de azeite’ que também era feiinho.
Aliás no Sporting, os equipamentos alternativos que mais gostei foram o de 2006-2007 (uma camisola amarela e calções verdes), de 2009-2010 (camisola verde-lima) e o de 2020-2021 (em preto com o leão em marca de água em baixo).
Saudações Leoninas ?
Antonio Clismo
Equipamentos alternativos para mim não contam, podem ser aberrantes á vontade. O problema é quando são os principais a serem aberrantes.
Antonio Clismo
Vemos marcas espanholas a equiparem clubes da Primeira Liga (Joma e Kelme) e não vemos marcas portuguesas a equiparem clubes espanhóis…
Veridis Quo
Não deve haver um único sportinguista contente com o desleixo (e falta de atenção) que foi o equipamento principal deste ano.
Antonio Clismo
Foi só pegar no do ano passado e inverter as cores. O design é exactamente o mesmo. O que era verde passou a branco e o que era branco passou a verde.
lipe
Bom texto. Equipamentos de futebol é um tema que gosto sempre de discutir.
Infelizmente, este texto sai no mesmo dia que o anúncio de uma nova superliga.
O futebol há muito tempo que não é nosso e cada vez menos o há de ser, especialmente nos clubes de mais alto nível.
Quem é que, há uns 20 anos atrás, conseguiria prever um Barcelona a jogar de xadrez ou às riscas horizontais? Como é que se explicava sequer isso a uma pessoa que na altura apoiava um clube que nem patrocínio na camisola usava (ainda)?
Enfim, já nem vale a pena discutir isto, é cuspir contra o vento.
Em relação aos equipamentos em si, confesso que não sou o maior apreciador do que se vai fazendo atualmente. Na minha opinião, há algumas marcas que se destacam, como a Hummel, Umbro ou Le Coq Sportiff, mas no geral é tudo algo aborrecido e, quando se tenta inovar, raramente sai bem. Marcas como a Nike, Adidas ou Puma estão no geral completamente acomodadas uma vez que patrocinam clubes e seleções que vão sempre vender milhões de camisolas independentemente de ser algo bonito ou um tapete de piquenique.
Adorava que o meu clube abrisse a possibilidade aos sócios de escolher um equipamento. Para mim, principal e alternativo não mexe (aliás, acho um absurdo que se faça equipamentos novos para todas as épocas desportivas – o ideal seria 1 a cada 2 anos, alternando o principal e o alternativo: por exemplo, esta época teríamos um alternativo novo e a principal da época passada; na época seguinte teríamos o alternativo da época presente e um principal novo, assim sucessivamente); o terceiro equipamento serve para inventar à vontade da marca e do clube.
João Ribeiro
Não conheço o portefólio todo da marca, mas a Macro ainda é das marcas que tenta sempre colocar um cunho diferente em cada equipamento que faz, de clube para clube. É certo que houve aquele ano em que conseguiu produzir equipamentos iguais mas com cores diferentes para o Vitória e Famalicão, mas de resto há todos os anos uma qualquer referência à cidade ou clube inserida no equipamento (neste aspecto o nosso 3⁰ equipamento está brilhante, desde a camisola aos calções). Pelo menos falando pelo Vitória…
Em relação há tradição, acho que ainda somos dos poucos clubes a respeitar a questão do primeiro equipamento e o alternativo se manterem sempre com as mesmas cores. Mesmo o 3⁰ nunca houve grandes extravagâncias. A maior terá sido um roxo que tivemos…
Antonio Clismo
Acho que é seguro dizer que o Vitória de Guimarães tem os melhores equipamentos da Primeira Liga este ano. Calha bem, uma vez que é ano de centenário.
Da Segunda Liga gosto dos do Moreirense e Tondela.
lipe
João, tens toda a razão, esqueci-me completamente da Macron. evoluíram bastante como marca. Quem compara a Macron quando começaram a equipar o Braga (2008 se não me engano) com agora, é da noite para o dia.
Concordo que os vossos equipamentos de centenário estão bem conseguidos.
Antonio Clismo
Portugal tem algumas das melhores empresas de tecido já estabelecidas e com décadas de know-how no mercado, tem óptimos designers gráficos e de produto, criativos e óptimos gestores de marcas e empreendedores. Além disso a paixão ao desporto (vá… pelo menos ao futebol).
Porque raio é que nenhuma empresa portuguesa consegue estar no top10 de marcas desportivas mais vendidas?
E olhamos para onde são feitos os equipamentos da Nike, Adidas, Puma, NB, etc e não ficaria surpreendido se muitas coisas até tivessem sido feitas cá…
lipe
Não faço ideia sinceramente amigo Clismo. Pensando assim por alto diria que simplesmente é um mercado algo complicado de penetrar. Nike, Adidas e Puma praticamente monopolizam tudo o que é grande clube e clube grande (veja-se o caso do Liverpool que estava muito bem servido com a NB e mudou para a Nike, ganhando mais dinheiro mas recebendo equipamentos básicos).
Se se prestar atenção às marcas de equipamentos rapidamente se repara que nas últimas décadas a tendência tem sido a de as pequenas marcas perderem o seu espaço ou desaparecerem por completo. A Reebok desapareceu do futebol, marcas como a Champion ou Le Coq Sportiff têm pouca expressão. As que eram grandes só ficaram maiores.
Assim de cabeça as únicas que me lembro que conseguiram entrar no mercado com algum sucesso foram a NB e a Castore, mais recentemente.
João Ribeiro
A própria Kappa, que produziu equipamentos absolutamente míticos, perdeu espaço, diria até que terá sido a maior prejudicada desse domínio das grandes marcas. Já quase se limita a equipas italianas e mesmo aí perdeu preponderância para a Macron.
lipe
Verdade, esqueci-me. Míticos equipamentos do Porto, Itália, e até vossos.
Antonio Clismo
A própria Lotto, Legea, Erreá ou mesmo a Asics foram à vida, tendo redireccionado o seu mercado para outros segmentos.
Por exemplo, não tenho dúvidas que se a Under Armour quiser entrar no futebol, entra com toda a facilidade como aconteceu com a New Balance.
Aliás, a Under Armour já equipa algumas equipas como o Sydney FC na liga australiana.
Depois há também os clubes com grandes massas adeptas que se cansam das margens que estas marcas comem dos negócios (por cada camisola de 80€ vendida, um clube é capaz de receber apenas uns 20€, o resto vai para a marca) e lançam as suas próprias camisolas com as marcas dos próprios clubes como acontece em muitos casos no Brasil.
Antonio Clismo
Mas a Reebok não tinha sido comprada pela Adidas?
lipe
Foi, mas a marca não desapareceu.
Referiste a Under Armour mas eles já andaram pelo futebol e até foi com o Tottenham. Sendo uma marca americana com pouca expressão na Europa talvez não tenham o maior dos interesses, não sei.
Christian "Chucho" Benítez
lipe,
Em relação á Reebok, a última equipa portuguesa, senão mesmo a única, a utilizar equipamentos dessa marca foi o Sporting desde o final da década de 90 até 2006 (se a memória não me falha). E depois veio a Puma.
Saudações Leoninas ?