Os franceses enriqueceram o código desportivo ao darem a cor das páginas originais do “L’Équipe”, o jornal n.º 1 do desporto mundial, o significado de vitória, o amarelo dourado dos líderes e campeões, a camisola que distingue o primeiro do pelotão.
Mas os brasileiros, com o seu infinito talento para reinventar a língua portuguesa, ofereceram-nos o verbo “amarelar” para retratar o ridículo da falta de coragem perante os desafios da vida. É o amarelo negativo, do crepúsculo, do empalidecimento, da queda da folha – em contraste com a alegria irradiante da rainha Leopoldina imortalizada na bandeira e nas camisolas do “escrete”.
A mesma cor tanto pode significar vitória (“nasr”, em árabe) como ocaso, luz e penumbra – dependendo do enquadramento e do ângulo de observação.
Como comparar o amarelo triunfante de Jonas Vingegaard com o amarelo pálido de Cristiano Ronaldo.
Coincidência de verão, nestas semanas de emocionantes e agonísticos desafios nas montanhas de França, aprendendo os nomes intrincados dos novos heróis do pedal europeu, regressou o futebol no calor do Algarve com a apresentação da nova equipa do jogador que todos conhecem, um Cristiano Ronaldo em acelerado programa de propaganda a ensinar-nos em entrevistas diárias – como nunca o vimos na seleção nacional – a bem pronunciar Al-Nassr e a vender a camisola amarela de um dos vários emblemas do harém clubístico do Rei das Arábias.
Habituados ao “peso” das camisolas históricas que Cristiano vestiu ao longo da carreira, foi um choque vê-lo de amarelo, a lembrar o Beira Mar de Eusébio, 40 anos atrás.
À primeira vista, parece o Rei-Sol, de brilho ofuscante. Mas depois, seguindo, penosamente, a sua marcha errática tentando sobressair como único soldado garboso numa parada de saltimbancos trôpegos, é o amarelo do outono que se sobrepõe aos nossos olhos, melancólico e triste. E lamentável.
Cristiano Ronaldo amarelou e ameaça prosseguir este desfile de “globetrotters” caducos, colhendo o aplauso e reconhecimento dos que nunca puderam vê-lo de perto no auge da carreira europeia, agora nos confins da Ásia, o derradeiro el-dorado, onde vai encher arenas nos próximos dois anos como o homem-bala na última digressão do circo de feras.
Portanto, a camisola do Al-Nassr, o Vitória de Riade, a ser enxovalhada em sucessivos jogos frente a equipas de Ligas em perda de “qualidade”, como o Celta de Espanha e o Benfica de Portugal, nunca dará a Cristiano Ronaldo a dimensão de um n.º 1 do pelotão do maior desporto global.
Pelo contrário, é como um parasita à boleia da aura e da energia do jogador português para dourar aos olhos do mundo a infâmia de um regime sanguinário e medieval. Que, no entanto, também há-de cair de maduro.
João Querido Manha


5 Comentários
Ruben Martins
Notas breves:
Bem haja
Aurinegro
Ponto 3: por aqui fala-se sempre da falta de importância que ele tem, mas qualquer coisa que faz ou diz é alvo de post e múltiplos comentários cheios de emojis, sem perceber que lhe estão a dar essa mesma importância. Que contradição!
There’s no such a thing as bad publicity.
VaideMota
Tudo certo. Mas eu posso julga-lo pelas acções e pelas coisas que diz. Um tipo que é bilionário (consta-se que cobra 2 milhões por post) pode ser julgado pelas coisas que faz por dinheiro.
Escuuuta
Concordo com tudo. Se o post dele custa 2M não é só pelos que gostam dele. Também é pelos que usam o seu tempo para o julgar. Quanto a este artigo, só é assunto porque o nome do homem ainda vende.
Santos David
O amarelo triunfante de Vingegaard nao vai tardar a ficar mais palido, pois é costume umas poucas semanas depois do fim do Tour chegarem os casos “positivos”