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O Amorim que Manchester deixou

Há conferências de imprensa que servem apenas para apresentar um treinador. A de Rúben Amorim no AC Milan acabou por ser muito mais do que isso. Embora tenha recusado especificar o que correu mal em Manchester, “Teria de explicar todo o contexto”, as respostas que foi dando deixaram transparecer um treinador mais consciente da dimensão de um projeto desta natureza.

Não porque tenha mudado as suas ideias de jogo ou a forma como vê o futebol. Pelo contrário. O que parece diferente é a forma como encara o contexto que o rodeia e a maneira como comunica aquilo que pretende fazer. É, aliás, a forma como encerrou a conferência que melhor resume essa ideia.

“A única coisa que posso dizer é que aprendi muito. Cometi alguns erros. Vou tentar mudar, mas há coisas que nunca conseguirei mudar. Ainda assim, acredito que vou ser um treinador melhor”.

O primeiro sinal surgiu precisamente quando falou de Milanello. Em vez de começar por apontar aquilo que falta, Amorim descreveu o centro de treinos como um lugar histórico, tranquilo e onde sente que tem tudo aquilo de que precisa. Até o facto de muitos o considerarem antigo não foi apresentado como um problema, mas antes como parte da identidade do clube.

Essa preocupação em valorizar aquilo que encontrou repetiu-se ao longo de toda a apresentação. Falou da história do Milan, do privilégio de trabalhar num dos maiores clubes do mundo, do alinhamento com a estrutura e reconheceu a dificuldade que representa para um treinador estrangeiro ter sucesso em Itália. No fundo, apresentou-se como alguém que quer fazer parte de algo que já existe.

O mesmo aconteceu quando foi questionado sobre a contratação de Gonçalo Ramos. Em vez de assumir o protagonismo da decisão, Amorim fez questão de explicar o processo de recrutamento. Sublinhou que define apenas o perfil de jogador que procura, cabendo ao departamento de scouting identificar as melhores opções disponíveis, acrescentando que a rapidez com que o negócio foi concluído também resultou da confiança que a estrutura deposita em si.

Outra diferença significativa esteve na explicação para ter aceitado este desafio. Enquanto no Sporting admitiu que o Manchester United era o único clube que o faria abandonar Alvalade a meio da época, desta vez revelou que chegou à primeira reunião com muitas interrogações. Quis perceber a reorganização do clube, analisar o plantel, conhecer o modelo de recrutamento e confirmar que existia sintonia entre as suas ideias e as da estrutura. O prestígio do clube já não era suficiente, o projeto tinha de fazer sentido.

Essa prudência voltou a notar-se quando abordou os objetivos. Não prometeu títulos, nem revoluções imediatas. Falou de tempo, de trabalho e da necessidade de convencer jogadores e adeptos através do trabalho diário. Disse que pretende apresentar um estilo de jogo atrativo, capaz de dominar o adversário e recuperar rapidamente a bola, mas fez questão de lembrar que nada disso se constrói de um dia para o outro.

Até quando abordou o plantel a mensagem foi semelhante. Em vez de olhar de imediato para o mercado, insistiu que quer conhecer primeiro os jogadores que já tem à disposição. “Estou muito feliz com a equipa. Não interessa de onde eles vêm. Se treinarem bem e se nos derem características que sinto que nos façam falta, ganharão um lugar no plantel.” E foi ainda mais longe: “Eles vão dar-me ideias”, reconhecendo que algumas das convicções com que chega poderão mudar depois de trabalhar diariamente com os jogadores.

Nenhuma destas respostas, por si só, prova que Rúben Amorim seja hoje um treinador diferente. Em conjunto, deixam a sensação de alguém que regressou de Manchester mais consciente de que, antes de implementar uma ideia, é preciso compreender o contexto onde ela será aplicada. As convicções parecem manter-se intactas. A ambição também. A forma de chegar é que parece diferente.

Talvez isso fique resumido numa das últimas ideias que deixou durante a apresentação: “Sei que é preciso conhecer muito bem o futebol italiano. Mas acho que aprendo depressa. Vou tentar fazê-lo.” Em Milão, Rúben Amorim não deu a sensação de querer chegar para mudar um clube. Deu a sensação de querer começar por compreendê-lo antes de o transformar.

João Lains

1 Comentário

  • ManuelFAlbuquerque_
    Posted Julho 11, 2026 at 9:01 am

    Jorge Jesus disse ontem qualquer coisa como não sou grande adepto do 4-3-3, mas também tenho de perceber se os jogadores que tenho se adaptam etc. Algo do género.
    E mesmo no Benfica ele jogou com 3 centrais quando teve de juntar Otamendi a Vertonghen que teriam obviamente de jogar mas que em dupla não seriam a mais adequada para uma defesa a 2, apesar de serem jogadores de muita qualidade.
    Portanto o Jesus tentou o seu melhor mas a equipa tinha também as suas coisas e eu lembro de dizerem que ele era um treinador de 💩
    E hey eu esperava análise parecida sobre o United, esperava que os moralistas também dissessem que o Amorim tinha opções péssimas mas… não foi o que eu li e obviamente isso não aconteceu porque por detrás de um grande moralista normalmente está um frustrado na vida.
    Porque hey os moralistas não falam, eles fazem. E os outros observam.
    Sobre o Amorim no United eu escrevi logo quando ele chegou, não mudo nada porque acertei completamente e acertei completamente por dois fatores, em primeiro lugar porque percebo de futebol. Em segundo porque sou adepto do United e conheço o plantel.
    Só por aí acho que poucas pessoas chegariam lá, e mesmo em termos mundiais eu não me lembro de ter lido alguém com tanto acerto e com tanta antecedência. Pelo contrário a sensação generalizada era que ele era espetacular etc.
    Sim, Amorim deixa eles com ela na mão 🍾 é algo bastante óbvio, estavam sempre à espera de festejar e foi tão patético que numa situação por exemplo de 3 maus resultados consecutivos se houvesse depois 1 bom lá vinham eles dizer que eu não percebo nada etc. É sintomático da necessidade louca que eles tinham de soltar 💦 porque tavam em carência e festejar sabe sempre bem.
    São vidas.
    De resto, que tenha sorte no Milão. Não conheço o plantel, não sei o que poderá fazer mas segundo consta foram 100 milhões em duas compras. É dose.

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