Recuemos até ao ano de 2014. Nesse mesmo ano, volta à convivência dos grandes um clube histórico da cidade do Porto e, acima de tudo, do futebol português. O Boavista Futebol Clube via-se numa ascensão meteórica, que o trouxe desde das profundezas do Campeonato Nacional de Seniores, onde o clube andou mergulhado durante mais de meia década, diretamente para a principal divisão do país. Durante esse período negro da história do clube, as dívidas acumulavam-se, as fontes de receitas diminuíam e toda a gestão outrora altamente profissional e organizada passou para uma gestão de pessoas que trabalharam para manter o clube de pé apenas sustentado no seu amor ao mesmo. A massa adepta que enchia o estádio do Bessa semana sim semana não, viu-se também ela drasticamente reduzida.
Esta era a realidade do clube aquando da subida administrativa em 2014. Um clube sem estrutura, um clube com uma massa adepta altamente dilapidada e com o seu património extremamente reduzido. Tudo isto fica refletido quando o principal patrocínio do clube ganhou o “concurso” com a oferta da pintura do estádio.
Logo saíram à rua os arautos da desgraça, dizendo que esta não seria mais do que uma passagem efémera de um clube que noutras épocas havia desafiado de forma descarada não só o domínio da cidade do Porto, como do futebol português.
Pois bem, já passaram cinco anos desde dessa subida e cinco épocas desportivas completas. O Boavista Futebol Clube, para espanto de muitos, resistiu e tem vindo a apresentar um crescimento sustentado com melhorias classificativas assinaláveis. Desde do seu regresso já travou o seu grande rival no seu próprio reduto, empatou a 3 bolas no estádio da Luz e já vergou os dois grandes clubes da capital na sua fortaleza. Derrotou, por duas vezes consecutivas, de forma categórica o clube que lhe vem roubando o título de 4º clube nacional e apresenta de momento 13 jornadas consecutivas sem derrotas. Apesar dos feitos desportivos, havia algo que o clube manifestava grande dificuldade em recuperar, as bancadas do Bessa. Ao contrário de muitos clubes o Boavista divide a sua cidade sede com um clube de outra dimensão, o FC Porto. Desde da subida o Bessa registava uma média de espectadores entre os 4 000 e 5 000 adeptos. Até que o clube percebeu que para subir para o próximo nível é vital a existência dessa mesma massa adepta, que confira outra dinâmica ao clube e que atraia outro tipo de investimentos. Usando a sua localização, situado num centro residencial e com duas escolas públicas ladeiras, que estão à distância de uma passadeira, iniciou-se uma operação de charme. No entanto, conscientes que só uma ida regular ao estádio pode converter verdadeiros adeptos o clube decidiu abrir as portas do seu estádio e o resultado foi evidente. Na época passada o Boavista F.C. apresentou uma média de espectadores de mais de 8 000 pessoas, um aumento de quase 45% relativamente à sua época anterior. Para a presente campanha, a política de bilhetes “low cost” entrou de início e até ao momento a média de assistências é de mais de 9 000 pessoas e sem contar com os dois jogos que tipicamente mais gente traz ao estádio, o derby da cidade com FC Porto e o duelo com o clube mais representativo de Portugal o Benfica.
Numa altura, em que vemos clubes que estão há anos na 1ª liga e que reclamam por mais investimento e que estão completamente estagnados no seu crescimento, assistimos ao ressurgimento de um clube que teve de comer o pão que o diabo amassou. Vemos por aí tantos clubes que estão em regiões populosas e em capitais de distrito que não precisam de dividir os seus adeptos com um dos três grandes e não conseguem, na minha ótica porque muitas das vezes a classe diretiva não tem interesse nesse mesmo crescimento. Olhando para o Boavista dá-me vontade de questionar. Em que patamar competitivo poderiam estar clubes como o Marítimo, o União de Leiria, o Beira-Mar, a Académica o Farense entre outros. Olhem para os bons exemplos, como os do Boavista F.C.,Famalicão, Vitória SC ou o SC Braga e arregacem as mangas, trabalhem e façam crescer os vossos clubes. Tragam as gentes da vossa terra para o vosso lado da barricada. A mim, como adepto rival do Boavista F.C., só me resta agradecer o trabalho dos seus dirigentes, pois com vocês presentes e fortes a cidade ganha outra cor.
Visão do Leitor: Santander


12 Comentários
Tiago Silva
Belo texto, o Boavista mostrou que é possível crescer mesmo com poucos meios. Um clube são os seus adeptos e quantos mais tiverem, haverá uma onda envolvente, e isso motiva a equipa, motiva os dirigentes a investir no clube e assim crescem. Espero que os clubes vejam este caso e aprendam com ele, seria ótimo termos um campeonato mais competitivo e com clubes com melhores projetos.
Santander
Exatamente Tiago! Também acho que teríamos um campeonato bem mais interessante e competitivo… Segundo umas contas que fiz por alto existem capitais de distrito que poderiam ter clubes com outra dimensão como são os casos que referi no texto.. Todos eles com possibilidade de terem medidas de assistências à volta das 20 000 25 000 pessoas e depois outras regiões com muita população ou com clubes históricos como Sintra, Gaia, Matosinhos ou Vila Franca de Xira.. Esses clubes facilmente podiam meter entre 15 000 e 20 000 pessoas..
Este é um tema que me preocupa bastante porque em vez de termos um campeonato forte e competitivo temos um campeonato com uma média de pouco mais 11 000 (relativo ao ano passado) e em que se retirarmos os três grandes passa para as 5 000 e poucas pessoas…
É urgente que os clubes se reinventem e cresçam a bem do futebol português
Tiago Silva
Exato e tudo isso é muito importante que aconteça. Agora acho que o maior fator desta falta de adeptos chama-se monopolização dos adeptos por parte dos 3 grandes, o principal problema está nas pessoas quererem ser de um desses 3 clubes, é quase uma escolha que cada cidadão português faz quando é miúdo e muito disso se deve ao facto de na nossa comunicação social apenas se falar dos 3 grandes. Se houvesse mais incentivo, menos ignorância quanto aos outros clubes, acredito que ficassem com mais adeptos.
Santander
Eu não censuro a comunicação social… Com qualquer outro meio de negócio olham ao lucro e é inegável que os três grandes pelo número de adeptos vão dar mais audiência e por consequente mais dinheiro.. Os clubes com têm de criar massa adepta para que depois a CS lhes dê tempo de antena…
Os clubes têm apostado muito na divulgação digital e eu acho um erro porque o clube não vai angueriar adeptos no outro lado do país.. Tem é de ter estratégias.. Abrir um sportsbar nos centros da cidade em que os adeptos se possam juntar nos jogos fora e onde possam ir antes de um jogo em casa.. Ter iniciativas na cidade ser uma marca presente constantemente… Qualquer adepto vai ter mais facilidade para ir ver o seu clube local do que ir ao estádio de um dos três grandes que fica fora da sua cidade..
briosa
isso do arregaçar as mangas não é assim tão linear… no caso do boavista, é de facto de louvar o desempenho nestes ultimos anos mas tenho a certeza que desses 9000 espectadores de media, cerca de 3000 torce pelo Benfica, Sporting e Porto quando estes jogam contra o Boavista. Isto acontece com todos, não é so com o Boavista. Sou um jovem na casa dos 25 anos que apoia a Academica, se forem a Coimbra e perguntarem à geração mais nova se são da AAC, a percentagem afeta ao clube da cidade é quase nula! Ainda esta semana o Dynamo Dresden da segunda divisao levou 30mil adeptos a Berlim para um jogo da taça, lá apoia-se o clube da cidade e ponto final!
Santander
Obviamente que isto não vai ser o trabalho de um ano, nem é por ir ao estádio uma vez que um adepto passa apoiar esse clube.. Mas ida ao estádio de forma regular cria rotinas que depois começam a ser difíceis de anular…
E hoje em dia instituiu-se que para trazer adeptos só montando uma grande equipa de futebol… Isso tá muito longe de ser uma realidade..
Se és da académica experimenta levar um amigo que não seja ao estádio de forma continuada e vê lá se ele a certa altura não começa a simpatizar…
Os clubes têm é de arranjar estratégias para aumentarem a sua massa adepta..
Primeiro a nível de comunicação e presença na cidade e depois com medidas concretas que os façam diferenciar e atrair pessoas ao estádio.. Seja com bilhetes low cost, seja a dar uma almofada e uma manta como faz o Sintra seja com uma politica de levar um acompanhante seja com benefícios na cidade por ser sócio do clube (por exemplo descontos em ginásios, cinemas, etc..) muita coisa se pode fazer basta haver interesse e andar para a frente… Por exemplo, segundo as minhas contas a académica teria forma de ter cerca de 20000 no estádio.. Se vai meter isso este ano com as melhores políticas de sempre. Óbvio que não vai, se vai meter isso daqui a 5 anos? Óbvio que não vai.. Isto é um trabalho de anos e que muitas das vezes só daqui a 15/20 se vê resultados concretos… Olhe para o exemplo do Braga que devia ter a dimensão da académica e hoje está num patamar competente diferente, sendo que mesmo assim ainda tem muito para crescer… O que o Salvador começou por fazer foi exatamente isso, levar o clube à cidade e envolver as pessoas da cidade no clube.. Hoje tem uma média de assistências entre os 10 000 e os 12 000 pessoas por ano.. Por isso obviamente tem forma de crescer apesar do salto que já deu… Mas claro que, com todo o respeito, é mais fácil dar a desculpa do costume de que as pessoas são todas dos três grandes e por isso não há nada a fazer
TiagoFCP
Não compares a AAC com o Boavista , quem é da pantera não torce por mais ninguém .
Saudações Azuis e Brancas ?
Richrad
Um post pertinente.
No meu caso que me estou a formar na área do Desporto vejo claras oportunidades de crescimento e desenvolvimento não só do futebol mas de inúmeras oportunidades em Portugal.
Deixamos-nos de treta e colocaremos de uma vez por todas o rótulo de pequeninos de fora. É possível mas não é fácil. É possível se os interesses sociais forem colocados no topo da pirâmide. Não falta quem queira investir e entrar nesta área. Falta quem leve este trabalho a sério e que olhe para o Desporto somente para uma fonte de negócio mas também como um modo de vida.
Santander
Concordo em absoluto! O problema é que os clubes preferem os 1000 de sempre a pagarem 20€ por jogo do que 10 000 a pagarem 2€ claro com isso existe mais despesa de logistica logo a receita da bilheteira é também ela afetada, mas depois com certeza que o facto de passar de 1000 para 10 000 levará também a patrocínios de outra natureza e com outros valores
panther1903
Resistência é mesmo a palavra mais correta para definir o Boavista.
Poderíamos escrever páginas e páginas sobre as dificuldades e milagres que o clube superou, mas estas nunca seriam devidamente reconhecidas por quem não passou pelas mesmas privações.
É esta resistência, muito bem referida, que apaixona os Boavisteiros. Somos poucos, lutamos com armas diminutas, mas somos gigantes em ambição e espírito de luta. Inigualáveis.
dleao
Artigo extremamente bem escrito ao qual concordo a 300%. Parabéns pela clareza de escrita e pelo ponto de vista apresentado. Deviam dar mais tempo de antena a artigos destes
Antonio Clismo
E o que dizer dos escalões de formação do boavista que outrora já dominaram a zona norte a seu bel prazer?
O crescimento sustentável de um clube tem obrigatoriamente que passar pela melhoria dos escalões de formação.