Em 1975, em Wordsley, West Midlands (Inglaterra), nascia mais um predestinado, alguém que cedo se iria mostrar ao sempre crítico público britânico, alguém que iria atrair os holofotes pelos melhores e piores motivos, alguém que iria dar espetáculo pela genialidade que apresenta. Falamos claro de Ronnie O’Sullivan, ou como preferirem, O Rocket.
O’Sullivan teve um começo prometedor, cedo apareceu em torneios, conseguindo o seu primeiro 147 aos 15 anos. Aos 16 tornava-se profissional, e aos 17 conseguia o seu primeiro Major. Porém nem tudo foi um mar de rosas na carreira deste génio. Para o perceber, recuamos até 1992, data em que o seu pai foi preso por homicídio. Um ano mais tarde foi a vez da sua mãe ir parar atrás das grades, acusada de evasão fiscal. Ronnie nunca soube lidar bem com esta situação. Cedo ficou responsável pela irmã, o que o perturbou. Era demasiado novo para tamanha responsabilidade, e apesar de ter mantido um excelente nível nos primeiros tempos após a prisão do pai, rapidamente foi afetado por problemas psicológicos, que o conduziram ao consumo de álcool e drogas. Viveram-se tempos bastante inconstantes do Rocket após a vitória prematura no Masters.
Ronnie dava início a um longo e perturbado período da sua vida. Porém, nunca escondeu o seu talento e mesmo sendo raras as vezes em que conseguia períodos de estabilidade, eram grandes os feitos que alcançava. Em 2001, conseguiu o seu primeiro mundial, em 2004 e 2008 repetia o êxito, ficando sempre na ideia que o Rocket tinha como maior adversário aquele que via enquanto se olhava ao espelho.
É então que surge na sua vida o psiquiatra Steve Peters, especialista em temas desportivos. Peters conseguiu extrair o melhor de Ronnie, dando-lhe mais confiança e segurança, ajudando-o a melhorar o aspeto mental e a preparar-se melhor para as partidas, conseguindo assim reerguer um génio campeão que outrora andava perdido em constantes depressões e que se refugiava nas drogas.
Apesar de se apresentar melhor psicologicamente, o Rocket não abdicou das suas celebres e longas paragens, mas as mesmas terminavam com um reaparecimento a um nível bastante elevado. Após realizar a sua décima primeira paragem oficial, reaparece no final do ano 2011. Muitos se questionaram, mas a verdade é que o Ronnie conseguia uns meses mais tarde, e já no decorrer do ano de 2012, arrecadar o título de campeão do mundo.
Após conseguir alcançar este feito, recordo-me de ele ter estado parado quase um ano, onde trabalhou numa quinta. Segundo o mesmo, a vida de agricultor dava-lhe mais motivação que o snooker, fazendo-o levantar da cama todos os dias às 8 da manhã com o pensamento de trabalhar em prol de um objetivo. Os trabalhos com Peters estavam a dar resultados, a vida de agricultor fazia-lhe bem e “naturalmente” revalidou o título mundial, conseguindo assim o seu quinto ceptro mundial, mas mais do que isso, conseguindo assim um reaparecimento demolidor e genial.
Em 2014, e já numa fase claramente tranquila da sua carreira, perde pela primeira vez uma final de um campeonato do mundo, frente a Mark Selby. Ronnie não desapareceu como muitos previam e prosseguiu a sua época conseguindo ainda assegurar o UK Championship, uma das provas mais importantes do circuito, num encontro que foi considerado pelo próprio como o mais difícil da sua carreira, frente a Judd Trump, decidindo-se somente na negra.
Todos esperavam que 2015 fosse mais um ano tranquilo para este “novo Rocket”. Porém, a sua eliminação prematura do campeonato do mundo, afetou-o psicologicamente, levando-o a ter um novo período de “férias”. Muitos se questionaram se seria o fim daquele que é unanimemente considerado o melhor de todos os tempos. Ronnie estava melhor psicologicamente e, subitamente, desapareceu de novo, colocando-se a grande dúvida no ar: “Reaparecerá mais uma vez?! E se o fizer, será de novo em grande estilo?”.
A verdade é o que fez e, novamente, em grande estilo, a provar que é sempre um jogador imprevisível e que quando quer e está em forma, ninguém se consegue colocar ao seu nível.
A vitória no Masters, no final do mês de Janeiro, deu-se sem qualquer tipo de contestação, eliminando os últimos dois campeões do mundo, e acabando por cilindrar na final Barry Hawkins, por uns expressivos 10-1. Mais recentemente, Ronnie conquistou o Welsh Open, batendo na final do passado dia 21 o australiano Neil Robertson (aquele que, segundo o próprio, é o melhor jogador do mundo da atualidade), recuperando de uma desvantagem de 5-2 para um 5-9.
Após as concludentes vitórias nestes dois Majores, a crítica inglesa não se inibe de apontar este Ronnie como o melhor de sempre. Porém, há muitas questões no ar, e uma delas é perceber se o Rocket consegue manter este estado de graça por muito tempo. O que é certo é que as constantes depressões foram ultrapassadas e deram lugar a um Ronnie mais sereno e mais forte psicologicamente, um Ronnie capaz de inverter um jogo e de controlar os momentos chave do mesmo, sem nunca se esquecer de dar espetáculo. Apesar de ainda desaparecer por uns meses, tem conseguido voltar sempre melhor do que nunca.
A marca de 28 Majores pertencentes a Steve Davis (o seu ídolo de sempre) e John Higgins (o seu maior rival) foi alcançada. Resta agora perceber se conseguirá chegar às estrondosas marcas de Stephen Hendry, que conta com 36 Majores e é detentor de 7 campeonatos do mundo da era moderna, o recorde da modalidade.
Toda esta história e todos estes predicados fazem dele o melhor jogador de snooker da história. Outrora descrito como um génio pelos seus adversários, Ronnie parece finalmente começar a entrar nos eixos. Apesar das pausas para “férias” continuarem, os regressos são melhores do que nunca.
Uma coisa é certa: com o Rocket na mesa, haverá sempre show!
Visão do Leitor (perceba melhor como pode colaborar com o VM aqui!): Gil Novo



0 Comentários
Luis La Liga
Acho que é uma figura carismatica. Quanto ao desporto em si, eu não consigo ver um jogo inteiro e não foi por falta de tentativas.
Miguel
Se eu ainda vou vendo Snooker é por causa deste homem. É simplesmente um deleite vê-lo jogar e ver como consegue transformar um desporto dificílimo numa coisa banal. Só o facto de jogar com as 2 mãos como lhe convier melhor é qualquer coisa. Que continue por muitos anos!
Nuno R
Valha-nos o Europsport para dar uns desportos alternativos.
Snooker é coisa para eu ver em doses reduzidas…
Uma questão: porque consideras o higgins o maior rival? Maior número de embates entre os dois, animosidade de algum tipo?…
Sempre pensei que o Stephen Hendry tivesse sido o maior rival dele.
GN2193
O Higgins e o Rocket têm a particularidade de ambos terem nascido em 1975, tornaram-se ambos profissionais em 1992 e são de uma era pós Steve Davis e Stephen Hendry, por isso é que os considero os dois maiores rivais. O Hendry é igualmente um rival de peso, mas mais pelo que conquistou no snooker, e porque em títulos é o melhor de sempre.
GN (Gil Novo)
Kafka I
Comecei a ver Snooker por causa dele, para mim é o melhor que já vi jogar e ainda ao dia de hoje o Rocket desde que esteja focado limpa TODA a gente, é o melhor o melhor do Mundo PONTO…
O "problema" é que ele nem sempre ao longo da carreira foi capaz de estar 100% focado no Snooker, o que o levou a algumas derrotas surpreendentes como por exemplo no ano passado no campeonato do Mundo, onde claramente estava com a cabeça em todo o lado menos no Snooker…
Espero que este ano volte a limpar o Crucible
GN2193
Espero igualmente!!
No desporto tudo é possível, mas se o Rocket começa o jogo sempre com mais probabilidade de vencer que o adversário, a lenga lenga do 50-50 com ele não resulta, este ano parte ainda com maior vantagem. Se num ano normal tem 55/60, este ano tem 60/70.
Em 2016 leva 19 vitórias em 19 jogos.
GN (Gil Novo)
Ben
Concordo totalmente!
Estive Lá
Bom artigo. Realmente o rocket é um génio e no futuro vão-se contar histórias e filmes sobre este homem. Um predestinado como há muito poucos.
Ben
Excelente post! Fico muito contente por ver um texto a falar de Snooker (a seguir a futebol, o que mais gosto de ver – obrigado, EuroSport!) num grande espaço como o VM.
Sobre Ronnie (curiosamente, chama-se Ronald Antonio), é indiscutivelmente o maior talento de sempre no Snooker (e certamente um dos maiores de todas as modalidades).
Pessoalmente, cai-me bastante bem e estou sempre á espera que faça grandes tacadas, embora por vezes até dê pena ver adversários vergados por números tão grandes.
Foi ele que me levou a adorar o Snooker e a passar a ser um espectador assíduo das transmissões da Eurosport. Oxalá continue por muitos anos (mesmo que com os seus meses de ausência) e nos delicie com o seu jogo genial.
Anónimo
Simplesmente adoro ver este génio a jogar!
RMAL21
Calu
O Paul Hunter poderia ter criado uma rivalidade épica com Sullivan. No entanto, o menino de ouro morreu de cancro em 2006
Anónimo
Adoro snooker, perco várias horas a ver os vários torneios.
O meu ídolo é o John Higgins, é aquele a quem dedico mais tempo e com o qual mais me identifico, adoro a sua personalidade, é muito humilde (as declarações aquando da vitória do último mundial demonstram isso mesmo). Efetivamente o Ronnie é o mais talentoso, mas para mim um jogador tem que ter uma componente que lhe permita estar ao mais alto nível de forma contínua. O Ronnie tem historial bem pesado, respeito quem o adora mas a meu ver esse gosto tem haver com a sua face psicológica e o estilo de jogo.
Diogo Almeida
Ana S
O Higgins também não conta com um historial muito bonito tendo inclusive sido suspenso.
Tavares
Espero que já o saibas, caso contrário poderá ser uma pequena desilusão para ti…
Mas de humildade, Higgins não deve ter muito, visto que "anda" de mãos dadas com viciação de resultados… apesar de ter sido inocentado (não sei como)…
Kafka I
Já agora, alguém viu há umas semanas atrás quando o Rocket NÃO FEZ um 147 de PROPÓSITO (é certo que estava em protesto com a organização e tal)…mas convenhamos, quantos iriam desperdição uma oportunidade daquelas para fazer um 147? aposto que NENHUM… só mesmo um génio como ele, se dá ao luxo de DESPERDIÇAR PROPOSITADAMENTE um 147 para o palmarés
Diga-se de passagem, que ele mesmo a desperdiçar propositadamente 147, tem o recorde na mesma, com 13 ao longo da carreira…o 2º de sempre tem 11 é o Hendry…
Isto para não falar que tem um recorde que meto as minhas mãos no fogo que NUNCAAAAA será batido por ninguém (a não ser por ele mesmo), que é o 147 mais rapido de SEMPRE…apenas 5 min e 20 segundos para limpar a mesa…
GN2193
O recorde dos 5 minutos e 20 segundos foi feito num campeonato do mundo.
É o jogador com mais tacadas a cima de 100 pontos, conta com mais de 800 tacadas centenárias…
Acho que é também o recordista do break mais alto numa final de um mundial, 141 (acho) contra o Carter em 2012. Recentemente, ele fechou a final contra o Robertson com um 141.
GN (Gil Novo)
Paulo_Leixonense
Kafaka,
Por acaso vi isso e até me ri! Se não estou enganado, não fez o 147 em protesto com a organização porque achava que o prize-money do 147 era muito baixo!
Que REI :) Ahahahah
Tavares
Foi engraçado de ver!!
Já foi a segunda vez que o fez, mas da primeira vez não quis embolsar a preta final, e o Jan Verhaas como que o obrigou a embolsar… aqui não "correu riscos"… e preferiu a rosa à preta…
Já agora, o prémio era de 10.000 libras… o prémio aumenta 5.000 por cada torneio em que não é feito… (antes o Robertson tinha o feito em Dezembro no UK Championship…)
J. C. Chainho
Por acaso comecei a acompanhar Snooker numa fase em que o Ronnie estava pelas ruas da amargura, o meu velhote falava-me do potencial tremendo que ele tinha mas eu só assistia a tremideiras e a uma excursão volta e meia a, no máximo, uns quartos de final de uma prova importante.
Acabei por me tornar fã do John Higgins que salvo erro em 2009 faz uma temporada brutal em que o estado de graça perdura mais um par de anos e ao mesmo tempo do miúdo maravilha, o Judd, que por ser jovem e irreverente num jogo de gentlemen e entrar daquela forma em Sheffield (2011?) a limpar tudo com uma facilidade terrível mas a ficar curto na final com o próprio Higgins.
E hoje? Coitados se tiverem de partilhar a mesa com o Rocket que está imparável e tenho de admitir que nunca assisti a jogador tão dominante quanto ele.
Rodolfo Trindade
Excelente post!
Vejo muito snooker na eurosport por causa deste génio!
Zé Barros
O melhor jogador de Snooker, simplesmente genial. Sou fã do Snooker por causa do rocket. É impossível não gostar do jogo dele.
Pedro Silva
É incrível este jogador! Obrigado pelo post, esclarecedor para aqueles que iam acompanhando a modalidade sem perceber os súbitos desaparecimentos deste génio.
RMSO
Brilhante! O melhor de sempre, sem dúvidas. Sempre que o vejo na Eurosport, não consigo deixar de acompanhar uns minutos.
Anónimo
Bom artigo. Sabes muito miúdo! Abraço.
Saudações,
Crow
Fábio Mendes
Antes de mais quero agradecer-te Gil Novo por esta publicação muito boa.
Nota-se que és conhecedor da vasta história de vida que o The Rocket tem tido e das batalhas que ele próprio vai tentando vencer aos longo dos anos.
É sem dúvida um predestinado, um ídolo para muitos (inclusive para mim), só ele consegue embolsar certas bolas que mais ninguém consegue e é uma figura que é bastante conhecida apesar do Snooker não ter a popularidade que tem o Futebol, Basquetebol, Formula 1 ou Ténis.
Sigo a carreira do Ronnie desde o mundial de 2004, aliei o meu gosto pela variante do bilhar ao Snooker e o que é verdade é que nunca mais deixei de acompanhar esta modalidade nem as pisadas do Rocket.
Vê-lo ganhar os Mundiais de 2012 e 2013 foi saborosamente inesperado e espero vê-lo ganhar pelo menos mais 2 e igualar Stephen Hendry. Será difícil mas o Rocket é o Rocket.