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O dia que mudou o Futebol

Feliz aniversário, Mr. Bosman
Quando pensamos em jogadores que entraram para a História do futebol, imediatamente nos lembramos de DiStefano, Pelé, Maradona, Beckenbauer, Eusébio ou Puskas, mas provavelmente nenhum destes mudou tanto o curso da mesma quanto um desconhecido belga chamado Jean-Marc Bosman. O médio não chegou a maravilhar pelos seus dribles estonteantes, ou golos incríveis, a sua carreira no relvado é apenas mais uma que se perde nas brumas da irrelevância e dificilmente se encontrarão provas daquela no Youtube, mas o seu nome está na boca de todo o adepto e conhecedor de futebol, isto enquanto durar a denominada “Lei Bosman”.
Foi no dia 15 de Dezembro de 1995 que um tribunal luxemburguês, após meia década de litigância, deu razão ao jogador no diferendo que o opunha ao seu clube, o FC Liege. Esta decisão permitiu terminar com as renovações automáticas de contrato, ficando os jogadores livres de escolher o seu destino findo o vínculo que os ligava a um clube. Ao mesmo tempo, as leis de limitação de estrangeiros foram abolidas, efectivamente adaptando os regulamentos do futebol às leis de livre circulação de cidadãos na União Europeia, de acordo com o sentido de que qualquer pessoa pode exercer a sua profissão, em qualquer país, qualquer que seja a sua nacionalidade. Foi o início de uma era, coincidente no tempo com uma revolução financeira, em que as televisões passaram a pagar montantes até então impensáveis pelas transmissões de ligas internas e competições europeias, e as grandes marcas começaram a escolher os futebolistas como seus embaixadores, pagando-lhes a preceito. Depois de Bosman, versão Legal, entrar em campo, não só os jogadores se passaram a movimentar livremente, mas também o dinheiro obteve livre-trânsito no mercado.
A história do jogador belga é sobejamente conhecida; em fim de contrato com o Liege teve uma proposta financeira atractiva por parte do Dunquerque, de França, mas o seu clube recusou-se a libertá-lo sem receber compensação, que os franceses não quiseram pagar. Seguiu-se a luta na Justiça, culminada no famoso Acordão, conhecido internacionalmente pelo apelido do homem que despoletou toda a situação.
Até então, os clubes detinham todo o poder na relação laboral, pois na maior parte dos países existiam cláusulas que permitiam aos mesmos renovar um contrato automaticamente, mesmo sem acordo de ambas as partes. E se o jogador se recusasse, o mais certo seria vir a ser suspenso de actividade. Actualmente, os jogadores são livre de decidirem por si mesmos o seu destino, assim que terminem o vínculo laboral, tendo uma ampla oferta de opções à sua escolha. Mas esta decisão teve outras implicações, para lá da livre circulação de atletas.
Ao contrário do que se previa, as transferências subiram de maneira astronómica. Muitos recearam que os jogadores deixassem expirar os seus vínculos, saindo posteriormente e deixando os seus clubes (especialmente os chamados formadores) sem qualquer tipo de contrapartida pelo investimento feito. Não foi isso que aconteceu, pois os clubes tradicionalmente vendedores souberam adaptar-se, blindando os seus atletas com cláusulas de rescisão absurdas, e gerindo os timings de modo a apanhar o mercado em alta, inflaccionando o mesmo. É verdade que o reverso da medalha se reflecte no facto de serem raros os jogadores que fazem carreira num único emblema, ainda mais se este pertencer à classe média do futebol europeu. A impossibilidade de estabelecer contratos “vitalícios” e a necessidade de realizar mais-valias origina que, normalmente, um atleta seja transferido após estadia curta, isto para proteger as ditas saídas a custo zero.
Por outro lado, Bosman pode bem reclamar a paternidade das actuais super-equipas. Se Messi ou Ronaldo têm a companhia dos melhores jogadores que o dinheiro pode comprar, ao belga bem podem agradecer. Longe vão os tempos em que um treinador tinha de escolher três de entre os seis estrangeiros que tinha à disposição, ou em que um super-hiper-jogador-de-top não podia ir para o United ou Milão, simplesmente porque não havia vagas para estrangeiros. Hoje, um restrito grupo de clubes pode facilmente abarcar, ou açambarcar, os melhores de entre os melhores, quaisquer que sejam as suas nacionalidades. Um Manchester-Bayern deixou de ser mais uma reedição de um Inglaterra-Alemanha, passando a ser uma espécie de Sociedade das Nações. Os clubes acabaram por perder uma certa identidade, adoptando antes o modelo das multinacionais, não só porque o mercado de jogadores se tornou global, mas também porque a clientela (ou seja, os adeptos e consumidores) seguiu o mesmo caminho. Na verdade, desportivamente falando, o fosso entre os muito ricos e os remediados aumentou, beneficiando da falta de regulação das instituições que, encantadas pelos dólares, petrodólares, rublos e euros, apostaram tudo num modelo totalmente liberal.
A balança do poder mudou de mãos, sendo agora são os jogadores aqueles que detêm a força maior. Estes já não são escravos do seu empregador, mas por outro lado passaram a promover birras e amuos de modo a forçar saídas para melhores (para eles) paragens, ficando os clubes reféns deste tipo de comportamentos, tendo no fim que escolher entre a derrota financeira, em que deixam um contrato acabar e ficam com zero de retorno, ou desportiva, em que perdem um jogador com o qual contavam. Os empresários ganharam nova importância, os prémios de assinatura explodiram (transformando o custo zero num mito), os salários subiram exponencialmente (porque um jogador pode ir para onde lhe apetecer, ganhou a tal margem negocial que faz a diferença), o mercado de transferências movimenta milhões, o futebol fundiu-se e confundiu-se com a finança, no melhor e no pior.
Tudo por causa de um homem que apenas queria jogar à bola. E que nem era tão bom quanto nisso.

Visão do Leitor (perceba melhor como pode colaborar com o VM aqui!): Nuno R.

0 Comentários

  • Gonçalo
    Posted Dezembro 15, 2015 at 6:09 pm

    Bom texto, aproveito e deixo um 11 com jogadores que assinaram por outros clubes a custo zero:

    GK: Edwin van der Sar (From Ajax to Juventus in 1999).
    RB: Cafu (from Roma to Milan in 2003).
    CB: Christoph Metzelder (from Borussia Dortmund to Real Madrid in 2007).
    CB: Sol Campbell (from Tottenham to Arsenal in 2001).
    LB: Cocu (from PSV Eindhoven to Barcelona in 1998).
    RW: Luis Enrique (from Real Madrid to Barcelona in 1996).
    CM: Andrea Pirlo (from Milan to Juventus in 2011).
    CM: Michael Ballack (from Bayern Monaco to Chelsea in 2006).
    LF: Steve McManaman (from Liverpool to Real Madrid in 1999).
    FW: Gianluca Vialli (from Juventus to Chelsea in 1996).
    FW: Robert Lewandowski (from Borussia Dortmund to Bayern Monaco in 2014).

  • Ricardo Santos Couto
    Posted Dezembro 15, 2015 at 6:18 pm

    Vigésimo aniversário do dia em que começaram a matar o futebol.

    • Rui Moreira
      Posted Dezembro 15, 2015 at 6:43 pm

      Se não fosse essa lei hoje não tinhamos visto grandes equipas de Futebol, como o Barcelona de Guardiola entre muitas outras

    • Ricardo Santos Couto
      Posted Dezembro 15, 2015 at 6:51 pm

      O barcelona de Guardiola jogou a final da champions de 2009 com 7 jogadores da cantera de inicio. Não foi graças á lei Bosman que vimos essa equipa de certeza.

    • Anónimo
      Posted Dezembro 15, 2015 at 7:33 pm

      Com tanta equipa foste pegar num exemplo em que a Lei Bosman praticamente não teve influência.

      Acácio Norberto

    • Filipe Ribeiro
      Posted Dezembro 15, 2015 at 9:23 pm

      Podes crer foi o inicio do fim foi quando as sanguessugas começaram aterrar no futebol.

    • Rui Moreira
      Posted Dezembro 16, 2015 at 12:33 am

      Peço desculpa, realmente foi o pior exemplo que podia arranjar.

  • Jorge
    Posted Dezembro 15, 2015 at 6:20 pm

    É melhor assim, os jogadores de futebol, nem ninguém, não merecem ser escravos. Ver o seu contrato renovado sem sequer serem discutidos os seus termos não faz sentido. A parte má são de facto os empresários que parasitam no futebol.

  • Vitorino
    Posted Dezembro 15, 2015 at 6:32 pm

    Esse belga matou os clubes belgas (e não só…)
    Interessante.

  • cleuder graça
    Posted Dezembro 15, 2015 at 6:40 pm

    Excelente texto.Parabens

  • Edgar
    Posted Dezembro 15, 2015 at 6:40 pm

    Espero que agora apareça um dirigente com o mesmo impacto que obrigue a que haja um tecto salarial no futebol, senão qualquer dia vemos jogadores a ganhar 100 milhões por ano.

    • Anónimo
      Posted Dezembro 15, 2015 at 7:35 pm

      Qual é o problema de um dia um jogador ganhar cem milhões de euros se as receitas por ele geradas para o seu clube valerem a pena esse investimento? Tens de te convencer que o Mundo caminha para uma liberalização cada vez maior e não para uma cada vez maior regulamentação. Pelo menos assim deveria ser.

      Acácio Norberto

    • Nuno chaves
      Posted Dezembro 15, 2015 at 7:44 pm

      Não estou a perceber qual o problema de ganharem isso. Se o Ronaldo ganha 20 M mas traz ao clube 30 ou 40 em publicidades, imagem, troféus, camisolas etc.. Porque não receber o valor que merece? Pensa no clube como uma empresa. Se tens um activo (jogador) que te faz ganhar 20 milhões, não vejo o problema de lhe pagar 10 ou 15. É um trabalhador como os outros..

  • Pedro, o Polvo
    Posted Dezembro 15, 2015 at 7:01 pm

    A lei foi óptima, as federações dos países e a FIFA é que não protegeram o futebol. Faltam regras de limitação do número de jogadores sobre contrato, abolir totalmente todas as manobras de detenção de um jogador por mais que uma parte (tem de ser sempre 100% de um clube), instituir regras apertadas quanto à presença de jogadores formados no clube no plantel inscrito nas competições nacionais (ex: num plantel de 24/25, o habitual, ter 14 formados nacionalmente, sendo que até 8 ou 10 podiam ser formados no clube)…
    Entre outras que não me estou a lembrar agora. O problema é que tal como disse o texto os ricos ficaram mais ricos, então toda a gente olha para o lado, quando por ex os quartos e as meias da champions são sp iguais..

  • Anónimo
    Posted Dezembro 15, 2015 at 8:11 pm

    Convidava-vos a lerem o Acordão de Bosman, dado por qualquer aluno de Direito que tenha pela frente a cadeira de Direito da União Europeia.
    Sem dúvida um marco.
    João Filipe

    • João D
      Posted Dezembro 15, 2015 at 10:05 pm

      Já analisado ;)

      A cadeira de Direito da União Europeia é muitíssimo interessante. Mais até que Direito Constitucional, por exemplo.

  • Kafka I
    Posted Dezembro 15, 2015 at 8:27 pm

    Concordo na integra com tudo Nuno R

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