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O diabo no bolso

Vivem-se tempos desconcertantes. Às vezes tento convencer-me de que no final ficará tudo bem, que se escreve direito por linhas tortas, e outros clichés dignos da sétima arte. Mas se ludibriar os outros não é tarefa fácil, imagine-se o fardo de se iludir todas as manhãs. Não me revejo, de todo, no meio que me rodeia. Os únicos valores relevantes são os da bolsa de mercado. O sentido crítico assemelha-se a uma bússola no Polo Norte. E, quais marionetas sem fio, abre-se a boca para regurgitar as ideias de outrem.

Fascina-me, no entanto, que uma geração com toda a informação do Mundo a um ‘click’ de distância, seja das mais desinformadas e manipuláveis de que há memória. A causa, essa, salta aos olhos. É que pensar dá trabalho, informar-se leva o seu tempo, e refletir requer humildade. O que é, obviamente, incompatível com uma sociedade de gente apressada, que se acha estupenda, e não mexe uma palha.

Permite-se, e até se incentivam, calamidades diante os olhos de todos. Aplaudem-se genocídios, e homens encapuzados raptam pessoas à luz do dia na terra dos livres. Deixou-se de ter vergonha, e por mais aberrante que seja a tua crença ou convicção, terás um exército do teu lado. Talvez nem sempre físico, mas sempre a aplaudir e encorajar-te. Como eu, muitos já se devem ter questionado, ao assistir a obras que relatam tragédias do passado, como é que se deixou que aquilo acontecesse. Aquela passividade intrigava-me, e agora percebo o quão vazio é sentir-se apático e impotente enquanto o Mundo arde à nossa volta.

Esta dura realidade estende-se a todos os setores da sociedade, e o desporto rei não passa impune. Sabido que não era propriamente renomado por ser um meio onde prospera a integridade, não deixa de ser difícil ver os clubes a perder aos poucos a sua identidade. Reféns da ganância, manipulados por ilusionistas da verdade, o que menos importa é o jogo. Mas jogadas há muitas. E passa a ser irrelevante a competência, a dignidade, e até mesmo o sucesso. Basta atacar a alternativa o suficiente, para se perpetuar o regime. Jamais saberemos se a mudança era próspera, se ela não tiver a chance de chegar. Talvez por isso sejam relembrados fantasmas do passado, num desespero irónico que tenta impedir que os seus erros deixem de ser cometidos. E, numa fascinante inversão dos tempos, passam a ser os novatos a abrir o caminho aos anciões. Não vá, numa improvável disputa contra a neutra Suíça, nascer algum novo herói.

O problema esse, não se resolve pelas folhas. E esta falta de empatia, de senso comum, e de princípios começa a enraizar-se. Convém, no entanto, entender o que permite que se propague com tamanha facilidade e rapidez. É que honestos ou trafulhas, bondosos ou cruéis, seguimos todos eletronicamente anestesiados. O medo de uma revolta das máquinas focou-se demasiado em forças tangíveis, batalhões de androides que nos tentariam dominar à força. E isso cegou-nos para aquilo que, aos poucos, destrói tudo o que levámos séculos a alcançar. Essa força que, tal como as divinas, nos faz curvar a coluna inúmeras vezes ao dia. E que nos acompanha para todo o lado, na palma da mão ou no fundo do bolso.

Visão do Leitor: Pedro Gonçalves

3 Comentários

  • beterrabapragmatica
    Posted Outubro 28, 2025 at 12:52 pm

    O LastWeekTonight do John Oliver tem vários episódios muito bons, não só sobre o mundial do Qatar, como dos dirigentes da FIFA e mesmo do mundial no Brasil. Vale a pena.

  • Manel-Abecasis
    Posted Outubro 28, 2025 at 12:29 pm

    A FIFA em 2010 atribui a organização do mundial de 2022 ao Qatar. No inicio dessa década começa a ser pressionada para agir no que toca à violação constante dos direitos humanos dos trabalhadores envolvidos na organização dos seus torneios. Em 2017 são instauradas as políticas de Direitos Humanos da FIFA, e passa a haver (na teoria) um processo de due dilligence prévio das condições dos trabalhadores nos países que se candidatam, e também do respeito, no geral, desses mesmos países pelos direitos humanos tal como pintados nos Princípios da UN, na sequência da forte pressão resultante do desastre humanitário que sucedeu no Qatar. Após todo este progresso, todo este esforço, toda esta preocupação, o mundial de 2034 será na Arábia Saudita. O futebol está podre, em todo os aspetos.

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