Skip to content Skip to sidebar Skip to footer

O Estado do Futebol Moderno

Imagem: Lance

Sinto uma tristeza profunda em relação ao estado atual do futebol. Sou adepto de um clube que recentemente se transformou numa Sociedade Anónima Desportiva (SAD) e foi adquirido por um investidor estrangeiro, um nome já conhecido no mundo do futebol por deter um portfólio de clubes em várias ligas.

Com esta aquisição, sei que chegarão jogadores de maior valor, que haverá mais transferências – muitas delas facilitadas pelas ligações dentro do grupo de clubes do investidor – e que o nosso orçamento para as épocas futuras será significativamente maior. Em teoria, tudo isto deveria encher-me de esperança e entusiasmo pelo futuro do meu clube. Contudo, a realidade é bem diferente.

Deixamos de ser o clube que sempre fomos. Em vez de sermos uma equipa enraizada na paixão dos seus adeptos, tornamo-nos numa empresa, gerida diariamente com um único objetivo: o enriquecimento de quem manda e gere. As decisões são tomadas com vista a potenciar jogadores que possam ser uma mais-valia nos outros clubes do grupo ou que possam ser vendidos gerando comissões interessantes para alguns, e não necessariamente para o benefício do nosso próprio sucesso desportivo.

É doloroso perceber que, apesar de a curto e médio prazo sentirmos uma melhoria, com jogadores talentosos a brilhar no nosso clube e com a possibilidade de voltar às competições europeias, no fundo não passamos de uma incubadora de talento que mais tarde irá brilhar noutros lados. Somos um trampolim, uma etapa intermédia na carreira de jogadores que, mais cedo ou mais tarde, serão transferidos para servir os interesses de outros clubes do grupo.

Perdemos a nossa autonomia, a nossa voz.

Obviamente que vibrarei com as conquistas, mas no fundo sabemos que não estamos a construir algo duradouro para nós, mas sim a valorizar ativos que eventualmente seguirão para outros destinos. A nossa história, o nosso legado, não se irá perpetuar. Seremos apenas mais um clube num grupo de tantos outros. Iremos pertencer a este grupo, enquanto formos úteis.

Sinto saudades dos tempos em que o clube era verdadeiramente nosso, dos adeptos. Quando cada decisão era tomada com o coração, pensando na nossa comunidade, na nossa cidade e assegurando obviamente a sustentabilidade financeira. Hoje, somos apenas uma peça numa máquina maior, onde o futebol é tratado como um negócio e não como uma paixão.

Sei que muitos pensam diferente de mim mas para mim o clube é muito mais do que uma só equipa sénior de futebol e as vitórias ao Domingo.

Quem sabe, talvez um dia, possamos recuperar o que perdemos e voltar a ser mais do que uma incubadora. Até lá, permanecemos firmes, com a esperança de que o futebol possa, um dia, voltar a ser o que sempre foi: um conjunto de jogadores que criam um grande espetáculo para os seus adeptos.

Visão do Leitor: Daniel Silva
VM-Desporto
Author: VM-Desporto

4 Comentários

  • Lúcifer Morningstar
    Posted Julho 17, 2024 at 2:47 pm

    Muito bom texto, Daniel. Contudo, é muito difícil, nos dias de hoje, o futebol moderno voltar a ser aquilo que nós víamos há uns largos anos. A bolha está cada vez a aumentar a mais, os investidores multiplicam-se como cogumelos, os clubes mais ricos ficam cada vez mais ricos e os mais pobres cada vez mais pobres.
    *
    Nos tempos que correm, quem tem dinheiro está sempre mais perto de ter sucesso desportivo. Mas, vamos ver se um dia (o que duvido), o futebol volte a ser do povo e para o povo.

  • Fireball
    Posted Julho 17, 2024 at 2:52 pm

    Esse futebol atualmente só existe nas divisões distritais, onde o valor económico é tão baixo que os sanguessugas não querem lá meter os pés. É triste, mas o dinheiro compra tudo, especialmente princípios e valores. É tudo muito bonito mas quando se acena com dinheiro, o discurso muda logo.

  • Tiago Silva
    Posted Julho 17, 2024 at 2:56 pm

    Revejo-me com este texto, mas ao mesmo tempo penso que uma coisa não invalida a outra. Claro qua a maioria dos investidores tem o objetivo de lucrar com o clube, claro que quando um investidor que tem já partes de vários clubes a ligação entre esses clubes será sempre vista como um interposto de jogadores.
    *
    Mas isso pode ser positivo. Como referido no texto a capacidade de contratar melhores jogadores é maior e também de os reter. Depende das ideias do investidor. Sei que pode ser um mau exemplo mas vejamos o caso do Newcastle. Era um clube com adeptos super ferrenhos que vivem o clube a máxima intensidade e que viveram tempos muito maus antes do investidor. Agora os adeptos vibram mais que nunca com o clube, porque vêem melhores jogadores, vem melhor futebol, isto sem prejudicar a identidade do clube e da cidade.
    *
    Penso que o problema não está nos investidores em si mas da sua habitual estrategia na gestão destes, porque muitos não querem saber dos adeptos desse clube, da cultura e da história deste. Mas quando se conjuga o investimento com isso, os clubes vivem mais saudaveis que nunca.

  • whatyouth
    Posted Julho 17, 2024 at 3:30 pm

    Os investidores estrangeiros já controlam pelo menos metade dos clubes da I Liga, na II Liga já é mais de metade há algum tempo. Para ser sincero, no V. Guimarães ou no Braga, por exemplo, a coisa nem se notou muito. Mas no Estoril por exemplo, ou no Estrela e no Casa Pia notou-se bastante e não me parece que desvirtue assim tanto o desporto. Os tempos mudam e o humano adapta-se.

Deixa um comentário