Esta rubrica destina-se a jogadores nascidos em 1999. Os parâmetros de selecção são os feitos dos jogadores até ao momento e, principalmente, o seu potencial e o nível (patamares em termos de projecção Mundial) que poderão atingir no futuro.
Outrora uma das principais escolas de formação de França o Marselha tarda em recuperar tais pergaminhos. Por vários motivos (aos quais não está alheio o “escândalo Tapie”, que empurrou o OM para uma posição secundária no futebol nacional), o emblema do sul tem sentido dificuldades em estrear elementos com potencial no elenco principal, algo que se reflecte nas convocatórias das selecções jovens gaulesas: entre os sub-17 e os sub-21, somente Maxime López foi recentemente convocado (PSG, Monaco e Lyon, em contrapartida, conseguem colocar pelo menos 10 elementos cada).
O panorama geral está, obviamente, longe de ser satisfatório, mas tal não implica um cenário catastrófico. Depois de Maxime López, que há três anos surgiu de rompante no clube mais titulado de França, o ano passado foi a vez de Boubacar Kamara, completamente formado em Marselha, receber oportunidades para evidenciar o talento que transporta. As suas exibições, plenas de maturidade, foram suficientes para agradar a Rudi Garcia, que este ano o segurou na equipa, já lhe tendo inclusivamente dado a titularidade em 7 partidas. Apesar da forte concorrência (Caleta-Car obrigou a um investimento elevado, havendo ainda, para o centro da defesa, o intocável Adil Rami e o adaptado, com sucesso, Luiz Gustavo), o promissor defesa não se parece deixar intimidar, surgindo em todos os desafios com vontade de mostrar serviço, permitindo prever um futuro risonho à sua frente.
Desde cedo visto como um elemento recheado de talento, foi com esforço que o Marselha conseguiu convencer a sua pérola a assinar um contrato profissional, há pouco mais de um ano, quando clubes da envergadura do Manchester United, Arsenal e Chelsea o seguiam. Presença assídua nos escalões de formação gauleses, Kamara há muito que chamava a atenção dos mais atentos, tendo por exemplo estado presente no Euro de sub-17, em 2016, onde contudo apenas alinhou em duas partidas.
Com uma evolução estonteante (apesar de tudo não era, nessa fase, crível que fosse capaz de bater às portas da equipa principal do OM num tão curto espaço de tempo), o camisa 4 foi ganhando a confiança dos responsáveis, passo a passo, ao ponto de se ter tornado no mais jovem jogador da história do Marselha a representar o clube em provas europeias (tal sucedeu, curiosamente, na visita ao Vitória SC, na época passada). O nível de jogo por si apresentado, de resto, não tem passado despercebido aos frenéticos adeptos marselheses, que o começam a acarinhar como ídolo absoluto – uma ideia que ganha força a cada jogo que passa.
Olhando para Kamara, fica claro que estamos na presença de um atleta particular – talvez como nenhum outro do seu ano. A sua relativa baixa estatura (178 cm) é acompanhada por uma velocidade interessante (não sendo um velocista, defende-se bem neste capítulo, acrescentando ainda a sua agilidade e boa capacidade de reacção, não sendo também de menosprezar aspectos como a impulsão e timing de salto, que facilmente lhe dão vantagem, mesmo quando tem pela frente adversários mais altos), acrescentando ainda uma maturidade acima da média, que lhe tem garantido tempo de jogo. Extraordinariamente tranquilo e sem medo de arriscar o passe longo (algo tão crucial no futebol moderno), além de possuir um nível técnico incomum para alguém da sua posição, é comum vê-lo procurar queimar a primeira linha de pressão da equipa oposta, de modo a agilizar o movimento ofensivo da sua equipa. Mais que isso, destaca-se pelo exemplar posicionamento, quer para dar linha de passe ao guarda redes, quer para travar acções de perigo adversárias (a noção espacial é um ponto forte), acabando por não necessitar de recorrer frequentemente à falta (é certeiro nos carrinhos).
Apesar da sua polivalência lhe ter granjeado um certo estatuto de “faz tudo” em Marselha (já alinhou, literalmente, nas quatro posições da defesa e no meio campo), é óbvio que as suas características se adaptam melhor ao eixo. Rudi Garcia, na época passada, chegou a afirmar que via Boubacar fazer carreira enquanto trinco (partiu dessa posição várias vezes em 2017/18, sobretudo em confrontos teoricamente mais exigentes), mas, aparentemente, mudou de ideias (este ano tem sido maioritariamente utilizado no centro), e provavelmente tal só favorecerá o promissor francês. A estatura já não é o handicap que em tempos se aventou (Thiago Silva, com quem Kamara tem sido vastamente comparado, só tem mais cinco centímetros e, no entanto, tem sido capaz de se estabelecer como um dos melhores do mundo no posto) e, considerando o excelente jogo de pés que possui, o sangue frio que evidencia sistematicamente e a competente composição física, é previsível que se transforme num central de topo – e num futuro próximo.
António Hess


3 Comentários
T. Pinto13
Este não engana.
Tiago Silva
É um jogador com um futuro brilhante pela frente, tem todas as características para vingar no futebol moderno. Super agil, forte na impulsão e na antecipação, muito bom com bola, vai dar muito que falar e a sua polivalência faz-lhe ser um dos jogadores mais interessantes do futebol francês e um dos defesas com mais potencial do Mundo!
Visão de Mercado
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