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O filho e o bastardo

O Benfica foi o primeiro e único clube do mundo a vender dois jogadores por mais de cem milhões de euros. Até hoje, houve apenas 13 transferências acima desse valor e duas saíram da Luz.

Félix e Fernandez, gémeos imperfeitos, separados na maternidade e agora reunidos na casa adoptiva de Stamford Bridge.

Após seis meses e duas dezenas de jogos, o João português e o Enzo argentino são protagonistas do mercado internacional, tão idênticos, mas tão distintos: um de concepção natural, o outro de barriga de aluguer, um que marca passo, o outro que arrasa, um que maravilha e o outro que envergonha.

Ambos decidiram sair para clubes da segunda linha europeia e figuram hoje, lado a lado, no Chelsea, podres de ricos aos vinte e poucos anos, mas sem qualquer garantia de um futuro desportivo à altura de um valor nominal ampliado pelas circunstâncias, como soldados da fortuna sacrificados ao desígnio superior do vil metal, do qual ninguém, ninguém mesmo, consegue escapar.

Por isso, é difícil entender que a venda de Félix, pelo rei Vieira, tenha sido endeusada como uma benção e a de Fernandez, pelo príncipe Costa, seja abominada como uma praga. Que se exalte ainda hoje o soberbo trabalho de convencer os basbaques do Atlético de Madrid, mas se amaldiçoe até à eternidade a soberba preguiçosa dos novos-ricos do Chelsea.

Que se babe deleitosamente sobre cada ocasional fogacho do português pela sua imagem de marca, mas que provoque náuseas a simples associação do nome do melhor médio do mundo ao glorioso alfobre do Seixal. 

Que a um se aplauda, por excesso, a natural evolução na carreira e a outro se acuse, por despeito, de falta de compromisso. 

Que se compreenda, ao fim de quatro anos sem qualquer triunfo, a perda de força competitiva como consequência da opção de venda dos melhores jogadores, mas se julgue plausível que esse sucesso seja marginal à perda, sem acautelar a substituição, de um campeão mundial. 

A venda inflacionada de Félix deixou os benfiquistas eufóricos: “bem os enganámos”. A saída precipitada de Fernandez deixou-os furiosos: “fomos enganados”.

Félix é um filho e terá sempre as portas abertas na Luz. Fernandez, um bastardo indigno de passar, sequer, pela Segunda Circular.

É realmente incompreensível que duas situações tão semelhantes possam despertar explicações tão diversas como o “factoring” claro dos espanhóis e o “factoring” obscuro dos ingleses, que a cláusula de rescisão signifique pagamento a pronto, como num divórcio, mas possa ser a prestações por conveniência do comprador, que se tenha feito tudo para vender um e se queira fazer crer que se fez tudo para não vender o outro ou que do nível fora de série se passe tranquilamente para o nível Chiquinho, sem ofensa.

São os olhos apaixonados dos adeptos que projectam estas “diferenças”, pois no essencial nada mudou com a rotina dos mil e quinhentos milhões de euros arrecadados em exportações de jogadores ao longo deste século.

O passivo financeiro não diminui, os dirigentes e a estratégia não mudaram, o agente intermediário mantém o exclusivo, as comissões injustificadas só aumentam e a dependência de treinadores circunstancialmente em estado de graça, de Lage a Schmidt, é a bendita estrutura que mantém a casa de pé.

O Benfica continua perante o mesmo infinito e incontornável motivo que nos últimos 30 anos levou quase todos os grandes ídolos, a começar por Rui Costa, a trocarem o compromisso do coração pela sensatez da razão – a irresolúvel “equação” entre vender e vencer.

João Querido Manha

10 Comentários

  • Shupaky
    Posted Fevereiro 3, 2023 at 12:50 pm

    Ponto 1: o primeiro veio da formação, nem que fosse as fases finais da mesma, conseguiu ganhar lugar, teve 6 meses de alta categoria e ofereceu nos literalmente um titulo.
    Outro veio da argentina, ja era minimamente conhecido para quem acompanha a bola, e nao foi de todo barato, jogou 6 meses e esteve muito bem, diga se.

    Ponto 2: um sai no final do ano, depois de vencer titulos.
    Outro sai em janeiro quando nada esta ganho, deixando o temor de epocas passadas de se vir a perder tudo depois de otimos 6 meses. Ja aconteceu.

    Ponto 3: no primeiro caso, nao vou dizer que foi empurrado, mas de certeza vieira nao quereria ver felix a ficar nem terá sido a sua prioridade. O mais provavel foi dizer ao rapaz para ir ganhar muito dinheiro que a vida de futebolista é curta e que um dia talvez voltaria.

    Outro caso, o presidente, à partida, fez de tudo para ele ficar, mais que nao fosse perder dinheiro, sem perda de centimo para o enzo e ele nao demonstrou vontade nenhuma em nada.

    Ponto 4:
    Um nao faltou aos treinos e se leu que tivesse colocado uma pressão gigante para sair, apenas saiu.
    Outro teve um comportamento totalmente nao toleravel com a ética profissional.

    Posto isto, ambos otimas vendas, ambos com 6 meses fantasticos, mas de resto, nao vejo grandes semelhanças entre eles, so se for mesmo o jogarem no chelsea.

  • Nickles
    Posted Fevereiro 3, 2023 at 11:40 am

    O Otamendi não servia porque jogou no Porto, e quando virou capitão foi um escândalo imensurável nunca antes visto. Agora já ninguém questiona o seu histórico e é um grande líder, não se passou nada portanto. O Enzo depois de ir para a Argentina sem autorização bate no símbolo e os benfiquistas ficam todos malucos “ele é dos nossos” “Se queda!” e tal, comidos mais uma vez como veio-se a comprovar no dia 31. O Seferovic ha uns anos manda calar os adeptos, mas está tudo bem porque tem raça e entrega. Resumo da história, é fácil iludir grande parte dos benfiquistas já que respeito próprio, e consequentemente pela própria instituição que é a maior do país, não os assiste.

    O Enzo está a duas ou três palavras de amor para voltar a enganar os benfiquistas, caso vire um tremendo flop e volte por empréstimo para relançar a carreira. Fá-cil

    • Cambiasso
      Posted Fevereiro 3, 2023 at 2:05 pm

      Pergunto-me como será a recepção do Pizzi na Luz… Depois da maneira como saiu e de todo o circo que esteve montado à volta dele, do André Almeida e do Rafa, estou curioso para ver. Pelas reações de algumas páginas e adeptos do Benfica depois da assobiadela em Alvalade acredito que possa haver ovação.

      • Mantorras
        Posted Fevereiro 8, 2023 at 10:23 am

        Espero que seja aplaudido.

        Pizzi quando comecou a contestacao a sua continuidade saiu. Sem dramas, sem horror, e sem passar na “casa partida”. Nao ficou agarrado a nada nem colocou nada a frente do clube.

        Foi um jogador que deu bastante ao Benfica, simplesmente no final ja nao acrescentava.

  • Sobe Alges
    Posted Fevereiro 3, 2023 at 11:35 am

    A diferença é que um andou a faltar a treinos e a desrespeitar o clube, o outro não. Ninguém condena o Enzo por aceitar o contrato de uma vida, qualquer um na sua situação faria o mesmo. O problema foi mesmo a forma como ele fez as coisas.

    De qualquer das formas, este jogador é passado e não vale a pena falar mais dele.

  • Diogo Moura
    Posted Fevereiro 3, 2023 at 11:13 am

    Comparar a venda de Félix com a de Enzo… Um formado no clube, Benfiquista assumido e que nunca faltou a nenhum treino ou procurou forçar a saída. E foi de facto ganhar muito mais.
    O outro, abandona o clube a meio da época (mesmo o Benfica pagando o mesmo que iria receber no Chelsea), faltou aos treinos, viajou contra a autorização do próprio clube e recusou ficar até ao final do ano mesmo perdendo zero euros.
    Na situação do Félix, o clube vendeu no final da época e após ter sido campeão e ainda ficou com dinheiro em caixa e um Verão inteiro para acautelar uma alternativa. Na do Enzo, o clube não queria vender de todo pois a época vai a meio e o plano desportivo é mais importante que o financeiro. Além disso, o jogador forçou a saída no último dia de mercado deixando o clube de pés e mãos atadas e sem margem para arranjar um substituto.
    Não se trata de ser o Vieira ou Rui Costa, trata-se de carácter. Eu não exijo que o Enzo ame o Benfica ou até só um mero simpatizante. Exijo sim que respeite o Benfica, a sua história e o contracto que o próprio assinou com o clube.

  • Francisco Ramos
    Posted Fevereiro 3, 2023 at 10:56 am

    Penso que para analisar a equação entre vencer e vender seja necessário olhar para as propostas apresentadas.

    Em momento algum, NUN-CA!!, se pode recusar uma proposta desta dimensão. Se o jogador escolheu bem o clube, se o empresário fez bem o trabalho de aconselhamento, isso é outra história. Para o Benfica, depois disso, apenas fica o dinheiro no banco e estas propostas são absolutamente irrecusáveis visto por qualquer prisma. Até porque a nossa dimensão não permite que seja feito de outra forma, seja no futebol, nos bens de consumo, ou outra qualquer área da economia portuguesa.

    Quando analisamos propostas de valores mais pequenos, excepto se os clubes andarem com a corda ao pescoço (Porto e Sporting), aí sim devemos verificar se estas ofertas, apenas quando acontecem a meio de uma época desportiva, são benéficas sobre o ponto de vista desportivo. Veja-se o caso de Luis Diaz, que sai no mercado de Inverno, e o Porto decide perder o seu melhor e mais decisivo jogador sob pena de poder perder o campeonato e não o perde por clara sorte também, visto que tivemos uma 2ª volta idêntica ao Sporting. Se for no final da época, existem 3 meses para fazer um novo plano, não acho que não seja suficiente.

    E o grande problema do Benfica, não foi a venda. Foi ter um mês inteiro a saber que isso podia acontecer de qualquer maneira, até pelas atitudes do jogador, e não se ter precavido com um negócio da sua substituição, acreditando que os jogadores que tem em casa são suficientes e que a vantagem pontual também permite alguma escorregadela (quando se perde um dos pêndulos da equipa e top3 dos jogadores esta época na Liga, pode acontecer). Não podem dizer que quem gasta 114M em compras esta época, não consegue ter um jogador de 10-15M (se for necessário) debaixo de olho para servir como plano B caso perdessem o jogador?

    • henry14
      Posted Fevereiro 3, 2023 at 4:41 pm

      Já estou farto dessa conversa da treta de não se poder se recusar uma “proposta desta dimensão”. Antigamente não se podiam recusar 50, depois 70/80. Repara que agora já estamos nos 120 e se pensássemos “pequeno” como muitos, ofereciam 50 ou 60 e abríamos logo as pernas.
      É por pensamentos como esse que os clubes portugueses nunca terão uma palavra a dizer na Europa.
      E se o Benfica não tivesse contratado Enzo? O clube morria por não receber 121M em Janeiro (ou lá quando vai receber)?
      Sim, não só podemos como devemos recusar as migalhitas que por norma nos oferecem porque como se vê em Inglaterra há dinheiro para gastar sem grandes limites, por isso é extrair o máximo possível.
      Acabou por fazer bem em vendê-lo apenas por causa da personalidade do jogador e do facto de ele não nos querer representar, porque caso ele quisesse ele tivesse compromisso e quisesse deveria ser INTRANSFERÍVEL até Maio.
      A culpa é em parte do teu clube que antes era implacável a vender e agora anda a vender Diaz e Vieira em saldos para a Premier. Depois claro que eles vão achar que é dar meia dúzia de tostões e tá feito. Veja-se o caso do Matheus Nunes também…

      • GabCel
        Posted Fevereiro 8, 2023 at 11:54 am

        acho que estás a esquecer um pormenor: estes negócios não dependem de uma só parte. O chelsea percebeu bem como isso se faz.

        o clube vendedor pode até recusar/adiar a proposta dos 120M€ durante 5 meses. mas como se mantém um jogador com uma proposta a receber 4 ou 5 vezes mais que o tecto salarial do clube? é que não se pode pensar que apenas se paga aquele jogador. todos os outros vão querer negociar de acordo com o precedente estabelecido. Basta ver o que se passa com o Benfica B depois do contrato obsceno do Paulo Bernardo.

        Acho que o clube deve ser intransigente a defender-se, mas se o jogador (e agente) forem umas “primadonnas” como a maioria arriscamos a ter um jogador a fazer uma 2ª volta com jogos como o que fez em Braga.

        Só critico que não tenham acautelado a sua substituição por antecipação, ele iría sair de qualquer forma e um jogador novo poderia ter 6 meses para se habituar (na pior das hipóteses).

      • Francisco Ramos
        Posted Fevereiro 3, 2023 at 6:06 pm

        O meu clube não tem culpa por vender ao desbarato, o meu clube tem culpa porque tem uma cambada de chupistas e chulos que se alimentam do clube sem pensar em consequências e que nos faz viver com a corda ao pescoço e com isso ter que fazer vendas abaixo do valor real do jogador para equilibrar as contas.

        Sobre o resto, aceito mas não concordo. Para a nossa realidade, País em claro declínio financeiro, é uma proposta irrecusável.

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