O futebol tem destas ironias deliciosas e cruéis: às vezes, quem tem a obrigação sagrada de ganhar apresenta-se em campo com a postura de quem está a tentar, acima de tudo, não incomodar o destino. Dizia-se na pré-temporada que este Benfica de 2025 seria um rolo compressor, mas ontem, na Luz, o que vimos foi um Benfica a jogar xadrez com luvas de boxe – muita movimentação, algum suor, mas um medo terrível de desferir o golpe fatal.
Era um jogo de “sim ou sim”, diziam as parangonas. Mas o “sim” ficou esquecido no balneário e o que subiu ao relvado foi um “talvez” muito envergonhado. Os primeiros vinte minutos foram, para sermos simpáticos e não ferirmos suscetibilidades, um massacre unilateral. O Sporting entrou na Luz como quem entra na sala de estar de casa alheia sem limpar os pés: autoritário, rápido e perigoso. A defesa do Benfica parecia um daqueles guarda-chuvas de venda ambulante em dia de tempestade: dobrava, virava do avesso, mas lá se ia aguentando, muito por culpa de Trubin. Logo aos três minutos, o ucraniano teve de usar o pé direito para negar o golo a Suárez, num daqueles lances que fazem o adepto benfiquista suster a respiração e prometer ir à missa no domingo.
Mas como a tragédia raramente vem sozinha, o golo do Sporting, aos 12 minutos, foi uma comédia de erros que nem o próprio Molière escreveria melhor. Uma saída de bola suicida, uma oferta de bandeja de Barrenechea – que parecia estar a distribuir prendas de Natal antecipadas – e Pedro Gonçalves, com a frieza de quem pede um café, fuzilou.
Foram vinte minutos de sufoco onde o adepto encarnado, já de terço na mão, pedia apenas que o relógio avançasse mais depressa. Depois, a tempestade amainou e o Benfica dominou? Sim, se chamarmos “dominar” a ter a bola num meio-campo onde não se passa rigorosamente nada. Foi um domínio inconsequente, estéril, uma posse de bola de secretária, burocrática, onde cada passe para o lado parecia um pedido de desculpas por não se atacar a baliza adversária. Valeu, contudo, a inspiração solitária aos 27 minutos: uma jogada desenhada a régua e esquadro, iniciada pela visão periférica de Ríos, continuada pela correria de Dedic na direita e finalizada por Sudakov, que encostou para o empate e evitou que o intervalo chegasse com assobiadela monumental.
Veio a segunda parte e a toada mudou, mas a música continuou desafinada. O Sporting recuou, talvez cansado de tanto correr sozinho ou satisfeito com o pontinho, e as águias subiram no terreno. Mas foi uma subida tímida, de quem espreita à porta mas tem medo de entrar na festa. As melhores jogadas deste segundo tempo resumem-se a três suspiros de esperança que Rui Silva tratou de abafar: primeiro, aos 63 minutos, um remate forte de Aursnes que levava selo de golo, e logo a seguir, aos 65, Sudakov a tentar a sorte de fora da área, ambos negados pelo guardião leonino. Aos 80 minutos, grande remate de Ríos, ligeiramente acima da trave. E aqui entra o nosso timoneiro, José Mourinho. O “Special One” ontem foi o “Careful One”. Quando a Luz pedia sangue, suor e lágrimas (e golos, por favor!), Mourinho olhou para o banco e escolheu a segurança. Tirou Sudakov e Pavlidis para meter Prestianni e Ivanovic. Trocou seis por meia dúzia, manteve os quatro médios como pilares de um templo que ninguém estava a tentar derrubar e deixou a audácia no bolso.
E para fechar com chave de latão este espetáculo deprimente, tivemos o momento pastelão da noite: a entrada de Prestianni. O rapaz entrou aos 81, mal tocou na bola, e conseguiu ser expulso aos 90+2 pelo VAR. Entrou, viu, não jogou e foi para a rua. Uma cameo digna de filme mudo. E o Schjelderup? O miúdo que tinha sido decisivo frente ao Nacional ficou a ver, com a tristeza de um artista proibido de pintar.
No meio deste deserto de ideias, pernas tremidas, e um aparente medo de ganhar, houve, contudo, quem se recusasse a aceitar a mediocridade vigente. Richard Ríos foi o homem do leme, o verdadeiro “Homem do Jogo”. O colombiano não parou um segundo, correu por três e teve a clarividência de desenhar o lance do empate com aquela abertura magistral. Foi o dínamo que evitou que o meio-campo encarnado fosse engolido, justificando plenamente a distinção, ainda que Sudakov, pelo golo e pela insistência, e Trubin, pelas defesas cruciais no início, também merecessem uma vénia. Do lado de Alvalade, o destaque tem de ir para o inevitável Pedro Gonçalves, sempre aquele diabo à solta que não precisa de muito para morder, bem secundado pelo Hjulmand, que mandou no miolo como se fosse dono da bola, e pelo Gonçalo Inácio, que limpou tudo lá atrás com a calma de quem dobra roupa ao domingo.
No fim, um empate que serve de pouco ao Benfica. E um medo de ganhar que assusta mais do que a derrota. O Benfica mostrou ontem uma ambição demasiado pequena para o tamanho da Catedral. Como diria o outro, jogámos como nunca, empatámos como sempre. Para quem tinha de ganhar “sim ou sim”, este resultado é um “não” rotundo disfarçado de ponto.
Valter Batista


8 Comentários
ManuelFAlbuquerque_
Não deixa de ser curioso, e não estou a falar do autor do texto porque não me lembro de o ter lido sobre este assunto, não deixa de ser curioso que um treinador que chega a um plantel que não construiu tenha a obrigação de vencer o bi campeão, bi campeão esse que ainda por cima está num momento de forma muito bom e que tem reconhecidamente mais qualidade individual no 11 que o Benfica.
No United perdemos jogos e pontos contra equipas mais fracas no papel e li que Amorim iria ter muito trabalho e que seria necessário tempo.
Há coerência? Não há.
Benfica não luta pelo título.
Benfica luta pela melhor classificação possível. E jogar para não deixar fugir o segundo classificado é melhor do que arriscar ficar praticamente já no terceiro lugar até ao fim. O mister não fez o plantel, não fez pré época e querem o quê exatamente? Jorge Jesus e Rui Vitória também apresentaram um futebol bonito e vocês diziam que eles eram uma bela de uma treta. E o Schmidt esteve lá tempo a mais, segundo li.
Hey, lá está. A pimenta toda no cozinhadinho deles e não estão a aguentar a pressão. Sempre tão bonzinhos a cada desaire do United contra equipas inferiores, sempre tão moralistas e agora até exigem ao mister que jogue aberto contra a melhor equipa do momento em Portugal. Pode não estar em primeiro, mas o Sporting neste momento é de forma destacada a melhor equipa.
É ou não é uma anedota? São ou não são uns 🐰? Claro que sei.
Mas hey, atenção que com eles a liderar um clube ou uma federação é que seria bom. É uma imparcialidade do caneco.
Um raciocínio translúcido.
Que anedotas. Sério. É uma simulação, eles só podem estar a trollar porque caso contrário é mesmo uma incapacidade de ter um discurso minimamente coerente.
RuiCoelho
Não sei sequer se entendo este comentário. Para quem leu o artigo de opinião percebe o ponto de vista, mas deixo aqui 2 considerações adicionais:
– Respeitante ao jogo: vimos um sporting sem ideias, sem remates à baliza desde os 25 min (a partir do momento em que a pressão do Benfica começou a condicionar o Pote e o Trincao que estavam a ter até ao momento muito espaço entre a linha de médios e a linha defensiva e facilmente se viravam para a baliza com a equipa desequilibrada). Face isto, não interessa se é o Sporting ou o Real Madrid, com tanto pouco do adversário, o Benfica tem de ter a ambição de ganhar o jogo. Jogar para vencer.
– Contexto estrutural: o posicionamento do Benfica tem de ser para ganhar em Portugal. Não há outra hipótese. Não se pode dizer que não devíamos ter a ambição de ganhar em casa, porque o Sporting é o atual bicampeão. Para que é que se gastou mais de 120M€ em transferências mais o Mourinho? Se é para “se fazer o melhor possível”, fazíamos isso com o Lage e os putos da formação. Se não dá para mais, a direção pede a demissão e dá lugar a quem tenha mais ambição. Está é mediocridade que os 65% gostam…
ManuelFAlbuquerque_
Boa tarde.
Com o devido respeito, esse comentário mostra as incoerências típicas de um certo tipo de raciocínio.
Hey, o Sporting jogou pouco porque o Benfica e o plano de jogo conseguiram aplacar o adversário. Não foi porque o Sporting é uma treta e o seu treinador uns treta.
Aliás, como vimos na votação e é um dado praticamente unânime, o Sporting tem claramente melhor 11 e melhores individualidades que o Benfica.
O mister montou um sistema para parar o jogo da melhor equipa nacional do momento.
Se o desmontasse, poderia perder. Não o desmontando, teve por cima do jogo e teve azar na expulsão do Prestianni.
Vocês vivem muito de frases feitas e por isso nenhum treinador foi de jeito.
Jesus, Vitória, Lage, Schmidt, Mourinho e por aí adiante. Nenhum presta.
E vocês? Prestam? Acho que não.
O Benfica objetivamente não tem equipa nem individualidades para jogar de peito feito com o Sporting.
Neste momento não tem e o mister foi pragmático.
O resto são ilusões de grandeza.
Hey, em quem os benfiquistas votam ou deixam de votar é irrelevante para mim e para a análise do jogo e das opções do mister.
Se acham que o Ruizinho só compra porcaria, então deveriam em coerência perceber as opções do mister neste tipo de jogo onde uma equipa reforçada impede o melhor clube nacional do momento de fazer comichão.
Mas não, querem ter razão a todo o custo mesmo que isso envolva um discurso incoerente.
E isso foi notório quando eu li sobre o United e Amorim e depois sobre Milão e Conceição e agora sobre Mourinho e Benfica.
Vocês, quem quiser enfiar a carapuça enfia, vocês têm preferidos e não têm uma análise coerente.
O contexto do Benfica e do treinador do Benfica é olhar para o adversário e para a sua equipa e fazer as escolhas devidas.
Nomes não ganham jogos e o United é disso exemplo porque temos perdido pontos atrás de pontos contra equipas mais fracas porque o treinador é refém da única forma de jogar que tem, 3 centrais.
Mas aí, Hey, aí é tudo culpa dos atletas.
RuiCoelho
Com todo o respeito, não é no meu texto que há incoerências.
1o – independentemente do adversário, se o mesmo não faz um remate desde os 25 min , é obrigação seja qual for o clube, de nem que seja nos 15 min finais ter uma postura mais ambiciosa. Esta conversa da táctica do mister é conversa apenas, porque no fundo a verdade é que o Mourinho é conhecido por este tipo de jogo, autocarro estacionado e sair nas transições rápidas. Não há uma equipa que tenha orientado que seja famosa pelo futebol ofensivo e dominador (o que não tem mal, porque naquele caso, as equipas eram todas underdogs).
2o – essa conversa de temos de nos contentar que o Benfica atualmente deve é disputar o 2o ou 3o lugar também faz pouco sentido. Mais uma vez, não é coerente nem com uma administração que diz que fez um bom planeamento com, repito, +120M€ gastos no verão, e que foi buscar o treinador mais titulado de Portugal.
Falta de coerência, é todo este investimento e comunicados, e depois contentem-se com lutar para empates contra os grandes. Então os resultados são para quando? Para daqui a 2 épocas? Entretanto pagamos um treinador a preço de ouro? Isto além de não ser coerente, é não entender absolutamente nada do que é o Benfica.
henry14
Excelente texto.
Petrol
O Sporting foi bem melhor nos primeiros minutos do jogo mas este sufoco que se fala no texto na minha opinião só aconteceu até ao golo. A partir daí só me recordo de mais um remate do Sporting que foi a corrida contra o mundo de Maxi Araújo. A partir do golo, o Benfica foi ganhando terreno aos poucos, sendo a única equipa a ter aproximações à baliza do adversário com a possibilidade de resultar em golo. Na parte da ambição concordo plenamente. O Benfica tinha o controlo do jogo mas apenas conseguia criar com base no crer e na raça. Faltou a capacidade de definição que devia ter sido acrescentada a partir do banco.
Daervar
Alguém não gostou do resultado das eleições.
Red Scorpius
O Benfica precisava muito de ganhar este jogo; é verdade.
Gastou muito dinheiro em reforços, também terá arrecadado algum em receitas, já recebidas ou por entrar.
Olhando friamente para o atual plantel do Benfica, parece-me inferior ao da época passada, principalmente no ataque, do qual saíram Di Maria, Amdouni e já depois de iniciada a época o mal amado Akturkoglu que, ironia das ironias, colocou o seu antigo clube na Champions à custa do seu atual clube com um golo seu. Bruma continua lesionado e Prestianni e Schjelderup continuam a contar pouco, não se assumindo como titulares e veio Lukebakio um extremo solista que prometeu mas que se lesionou. Também saíram os avançados Cabral, Marcos Leonardo e Belotti e entrou Ivanovic e regressou Henrique Araújo, sendo que o croata já tem alguns minutos e poucos golos, mas um muito importante em Nice.
No meio-campo sairam o também mal amado Florentino, o talentoso mas pouci intenso Kokçu e o crónico lesionado Renato, tendo entrado um Enzo, bom de bola mas muito lento, um Rios que foi muito caro e só agora começará a justificar o investimento feito e um talentoso mas algo macio Sudakov, permanecendo o certinho Aursnes e o intenso mas pouco talentoso Barreiro e regressa agora Manu, desconhecendo-se ainda o impacte que poderá ter na equipa.
Saiu o melhor dessa esquerdo, Carreras, e entrou um defesa direito de qualidade ofensiva, mantendo-se os 3 centrais, um em permanência e os outros em intermitências. Bah ainda não regressou e Dahl não convence como lateral esquerdo, parecendo render mais como médio.
Na baliza permanece o algo irregular Trubin, com um jogo de pés impróprio para os corações dos adeptos.
Não me parece que este plantel, mais caro que o da concorrência, o que não abonará a favor de quem o construiu, seja capaz de dar grandes alegrias aos adeptos do clube, embora esteja a crescer de rendimento.
Uma equipa que leva golos decisivos de equipas como o Santa Clara, o Rio Ave e o Casa Pia, não pode destapar-se, nesta altura, contra um Sporting que tem jogadores rápidos como Catamo, Quenda, Suárez e criativos como Pote e Trincão.
O título é uma miragem, mas o segundo lugar é alcançável e permitir disputar o acesso à Champions, pelo que entendo o realismo de Mourinho.
Quando não se pode ganhar, há que não perder.
Compreendo a desilusão dos adeptos, pois já são demasiados anos de insucessos, mas talvez ainda se possa minorar os estragos.