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O nascimento de um mito

Nas últimas semanas, muita gente tem comparado o efeito do treinador Roger Schmidt, neste primeiro ano no Benfica, à revolução provocada por Sven-Goran Eriksson há precisamente 40 anos, não só no clube encarnado, mas em todo o meio futebolístico nacional e europeu.

Compreendo a comparação, mas vejo muito pouca semelhança, para lá dos resultados invulgares que a equipa encarnada tem alcançado em campo: uma boa carreira nacional, não obstante os títulos prematuramente perdidos nas taças, e uma notável campanha europeia.

No seu primeiro ano, Eriksson ganhou Campeonato, Taça de Portugal e chegou à final da Taça UEFA, sofreu apenas duas derrotas (Sporting e Anderlecht) em 49 jogos, marcou 112 golos e sofreu 25.

Curiosamente, o Benfica de Schmidt também marcou 112 golos nas 44 partidas já disputadas, só foi derrotado uma vez (Braga) e é, precisamente, pela preocupação do jogo positivo, pela intensidade ofensiva de todos os planos de acção e pela frescura física e mental da equipa, que se chegou à comparação com o sueco.

Embora os mitos nasçam do desconhecimento, o de Eriksson resultou de uma personalidade aberta. Aprendeu português em menos de três meses, teve a visão de emprestar a imagem jovial e empática a uma marca nacional e popular, concedia entrevistas com regularidade, não escondia métodos nem soluções, tinha prazer em partilhar, acabando por fazer escola, gerando e cultivando um estilo para gerações sucessivas de treinadores, alguns dos quais foram seus jogadores na Luz, quer na primeira, quer na segunda passagem, quando voltou a conduzir o Benfica a uma final da Taça dos Campeões.

Ao contrário, de Schmidt sabemos e saberemos muito pouco e dificilmente o seu legado ultrapassará as paredes do Seixal e as parangonas das grandes vitórias. As suas curtas e circunstanciais conferências de imprensa não mitigam a sede de conhecimento dos segredos do seu trabalho, em particular o modus operandi sobre jogadores dados como “perdidos”, como Florentino ou Chiquinho, ou a exponenciação de valores estagnados, como Vlachodimos, Grimaldo ou Rafa, ou o desenvolvimento de promessas relativas, como António Silva ou Gonçalo Ramos. E o que sabia ele sobre o lado oculto de Fredrik Aursnes que os próprios noruegueses só estão a descobrir agora?

Quando chegou a Lisboa, Schmidt foi apresentado a editores e jornalistas de referência num jantar informal, uma tentativa saudável de aproximação que mereceu rancorosos comentários de rivais viciados em teorias de conspiração, doutores milagreiros e “coaches” paramentais. Depois disso, o alemão fechou-se com os seus rapazes, protegido pelo biombo dos diretores de comunicação, e o mais próximo que estivemos do seu pensamento mais íntimo foi através de uma entrevista a uma publicação germânica, na qual cometeu a heresia de equiparar o Benfica aos colossos Real Madrid e Barcelona.

Tenho simpatia pelos jornalistas de hoje, enclausurados numa agenda de rotinas, anos e anos limitados a uma pergunta por evento, segurando microfones na esperança de captar um som, um bit, um desabafo – expressões sem sentido ou contexto que possam ser postas a render uma manchete ou um “lead” creditável e comentável. Nunca sentirão a atmosfera de um balneário, de uma boleia à saída do treino em máquina de alta cilindrada, da digressão num autocarro ou num avião de equipa, de um almoço confidencial que ajudasse a entender o que os jogadores realmente pensam do treinador e como o treinador julga os jogadores, o que ouvem, o que lêem, como brincam ou, até, como se alcunham uns aos outros.

Às vezes, imagino que os comentadores da atualidade sejam como os repórteres de há 30 ou 40 anos e os veredictos que vão exarando nos seus programas diários, embora disfarçadas no bordão “eu acho que” e em “whataboutismo” primário, resultem mesmo de acesso privado ao treinador alemão de Rui Costa na mesma medida em que nós tínhamos acesso público ao sueco de Fernando Martins.

Com que outro fundamento e conhecimento de causa alguém poderia sentenciar, em Outubro, que o Benfica de Schmidt estava preso por arames e iria cair a pique quando começasse a enfrentar adversários mais fortes?

João Querido Manha

FOTO: Entrevista com Eriksson, a bordo do avião no regresso da final da Taça UEFA em Bruxelas (Maio de 1983).

2 Comentários

  • Cossery
    Posted Março 30, 2023 at 8:39 pm

    Em geral gostei do texto, mas acho que a comparação feita tem mais que ver com as diferenças de organização dos clubes e a evolução da comunicação nas últimas quatro décadas do que propriamente uma diferença entre os treinadores, que também as há, naturalmente.
    Na verdade, parece-me injusto fazer uma comparação do legado de um e outro quando um teve cinco épocas no Benfica e o outro ainda não acabou a primeira. Em termos de impacto não é portanto possível fazer ainda comparações, embora seja dificil repetir a influência geral do Erikson.
    É possível fazermos comparações em termos de personalidade mediática, mas convinha então dizer que o Schmidt não se escondeu atrás de nenhum director durante a novela do Enzo, bem pelo contrário. As comparações baseiam-se simplesmente no contacto com os media, quando um teve

    • Cossery
      Posted Março 30, 2023 at 8:56 pm

      (não consegui terminar o comentário…)
      Gostei do texto porque de facto a diferença do contacto dos jornalistas com os clubes é tão diferente que não temos dos jogadores e dos treinadores senão sombras mediáticas, mas em termos de comparação entre Schmidt e Erikson creio que não está bem conseguido.
      O que seria talvez interessante analisar era a forma jogar e se há evoluções ao que existe em Portugal, também a capacidade física demonstrada e até a comunicação externa e o que sabemos da interna, ainda que, como o João Manha bem diz, quanto ao treino em si temos pouca informação à nossa disposição (fruto da evolução e modernização dos clubes profissionais). Não para comparar directamente com Erikson, mas para tentar perceber se há luz do tempo actual, o Schmidt, ficando tanto tempo e tendo tanto sucesso, poderia vir a constituir um novo caso de mudança no futebol nacional por influência de um treinador estrangeiro no Benfica.

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