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O personal trainer dos craques em exclusivo ao VM: «Manuel Fernandes é um exemplo para os jovens e mostra que a resiliência nos atletas é importantíssima»

Com Manuel Fernandes e Éder, festejando a conquista da liga russa

Não é novidade para ninguém que o mundo do futebol está, a cada dia que passa, mais profissionalizado. Os clubes, os jogadores e os treinadores rodeiam-se cada vez mais de ferramentas que permitam atingir patamares de excelência num mundo de competitividade feroz. Ora, um dos pontos nos quais os atletas se focam de maneira mais intensa é na preparação física, a qual é hoje bem mais cuidada que no passado. Neste sentido, a realização de trabalho específico, fora do tempo de treino “normal”, por parte de futebolistas é prática cada vez mais generalizada. Em Portugal, um nome tem-se vindo a destacar nesta área: Francisco Martins, de 28 anos, é o criador do “PTW360”, um projecto que visa o acompanhamento individualizado e minucioso da preparação física dos atletas. No passado recente, a forma de trabalhar de Francisco Martins tem levado diversos craques a solicitarem os seus serviços: Rubén Dias, Manuel Fernandes, William Carvalho, João Mário, Ricardo Pereira (estes 5 chamados ao Mundial’2018), Miguel Lopes, Éder, Gonçalo Paciência, Rafael Leão, Josué, Francisco Geraldes, André Almeida ou Carrillo são apenas alguns dos muitos craques que não só têm trabalhado com o preparador como têm tecido rasgados elogios aos seus métodos. Numa entrevista exclusiva ao Visão de Mercado, Francisco Martins fala sobre a realidade da preparação física individualizada e a forma como os clubes olham para este tipo de trabalho, não se coibindo de fazer referência a alguns casos individuais de grande sucesso.

Para começar, poderia descrever-nos, em linhas gerais, o que é o PTW360? Como surgiu, como teve a ideia, como foi evoluindo…

O PTW360 foi criado há cerca de 4 anos e na altura nunca pensei que tivesse a capacidade para se desenvolver até ao patamar em que está neste momento. Na altura eu estava a acabar a faculdade e, para além de ter estado sempre ligado à parte do treino desportivo, sempre tive uma grande paixão pelo treino das qualidades físicas e desde cedo percebi que era uma área na qual havia alguma lacuna em Portugal, havia um pouco aquele estigma de “ah o treino de ginásio ou de força faz com que os jogadores fiquem lentos”. Mas ao longo do tempo isso está a mudar, os jogadores estão, claramente, a perceber que através de um desenvolvimento das qualidades físicas podem atingir níveis altíssimos nas carreiras deles e, acima de tudo, os mais jovens começam a compreender que podem ser pequenos detalhes que vão fazer a diferença no futuro. E esses detalhes podem ser a nível de intensidade, velocidade, tudo o que são capacidades físicas do atleta, se ele as pode desenvolver, se ele pode ganhar com isso no jogo, por que é que não deve fazer um trabalho extra? Quando andávamos na escola, quanto mais estudássemos em casa ou quanto mais investíssemos nos trabalhos de casa melhores notas teríamos depois nos testes. E no futebol aqueles que investem mais nas suas qualidades, que treinam diversas componentes, são aqueles que vão chegar ao exame – ao jogo – e vão ter melhores resultados.

A nível de treino físico, o tipo de trabalho que se faz com um jogador de futebol é muito diferente daquele que se faz com jogadores de outras modalidades?

Eu penso que não. Dando um exemplo, eu agora comecei a trabalhar com um atleta do ténis de mesa e as componentes que ele precisa de desenvolver são as mesmas de um atleta do futebol. Se um atleta de ténis de mesa, na mobilidade ao nível da anca, não tem uma boa capacidade de aceleração e de mudança de direcção terá dificuldades no jogo, e isso aplica-se também ao futebol. A anatomia e a fisiologia são iguais para todas as pessoas. Claro que depois existem particularidades em certos desportos (um atleta no rugby se calhar precisa de mais trabalho ao nível de força máxima ou potência, mas isso também está relacionado com a posição). Acima de tudo o mais importante é avaliarmos os atletas, percebermos o que eles precisam e desenvolver um sistema a longo prazo que tem como objectivo que o atleta não se lesione (verificamos os riscos de lesão) e ao longo de 1/2 anos fazer um trabalho durante o qual o atleta começa a ver resultados. E os jogadores que têm mais resultados são os que compreendem o processo, interagem com o sistema e vão entendendo como o sistema, ao longo dos anos, lhes dá mais ferramentas para progredir na carreira.

O central Frederico Venâncio (que na última época esteve no Sheffield Wednesday) salientou que o Francisco não diz só para fazer, explica, e o Francisco já escreveu em vários posts nas redes sociais que educar o atleta era fundamental. O primeiro passo é convence-los dos benefícios dos métodos propostos?

Exactamente. Saber educar o atleta, para mim, é fundamental, para que ele entenda o impacto que este tipo de trabalho terá na sua carreira. Muitas vezes não é só educá-lo ao nível do treino, devemos criar uma relação com o atleta para que ele perceba a importância de se cultivar, de se tornar mais inteligente, mais culto – e quando digo mais culto não digo que têm de ficar a estudar bioquímica ou fazer contas de matemática, mas sim compreender o que fazem, o que treinam e porquê, o que comem, a importância do descanso, ler coisas que os levem a pensar -. Hoje em dia os miúdos da formação, mal assinam um contrato profissional, deixam logo de estudar muitíssimo cedo. E isso leva ao quê? A que deixem de ter um processo educativo, a que parem de pensar, de raciocinar. Eu li uma entrevista do Jens Lehmann [antigo guarda-redes internacional alemão que jogou no Borussia Dortmund ou Arsenal] na qual lhe perguntavam como é que os guarda-redes hoje em dia poderiam ganhar mais capacidade de concentração, e ele respondeu dizendo que a concentração se ganha nas escolas, dentro das aulas. O atleta que é mais inteligente é aquele que terá mais resultados no futuro, pois esse irá compreender o que tem de fazer para desenvolver toda a sua carreira, é aquele que vai pensar e criar um plano para ao longo da sua vida perceber o que quer fazer, como quer trabalhar e onde quer chegar. E é fundamental criar uma relação de empatia que leve a que o atleta procure educar-se por ele.

Com Ricardo Pereira

Portanto, aquilo em que ajuda os jogadores não passa só pela mera preparação física mas também por essa ideia mais global de que se o atleta, enquanto todo, for melhorando isso terá impacto em campo?

Sim, tem muito a ver com isso. O trabalho que fazemos aqui não tem nada a ver com o que se faz no clube, é completamente diferente. No clube o treino é, claro, generalizado, em grupo, e aqui o treino é um processo individualizado e isso é muito importante para criar a referida empatia de que falava. E a relevância de criar essa empatia vê-se também nos treinadores, pois os mais bem-sucedidos são aqueles que aliam aos conhecimentos sobre o treino e o jogo à capacidade de perceber como tirar o máximo de cada atleta. Eu vejo o meu trabalho de forma individual e o que faço só faz sentido dessa maneira.

Normalmente, o que leva um atleta a procurá-lo para começar a trabalhar consigo?

Qualquer atleta que procura um trabalho destes é porque quer ter mais rendimento no clube. Mas, fazendo uma análise global da situação do atleta, nós percebemos depois qual vai ser o processo inicial. Há atletas que aparecem aqui pós-lesão e o objectivo é não se voltarem a lesionar; aparecem aqui jogadores que não estão a ter muito tempo de jogo e querem melhorar índices físicos. É fundamental perceber o estado do atleta para entender como iremos trabalhar.

Na pré-época é muito solicitado. O trabalho que aí faz é muito diferente do que se realiza durante a temporada?

É um pouco diferente. Na pré-época não existe um processo competitivo e não estamos tão preocupados, por exemplo, com a carga de esforço, pois se não há jogos não temos de estar tão atentos ao cansaço do jogador e pode-se fazer outro tipo de trabalho. Já quando estamos em competição temos de perceber claramente até que ponto é que podemos estar a criar fadiga, e se um jogador está constantemente a ter jogos à quarta e ao domingo o trabalho é quase só ao nível de recuperação, não faz nada para além de acelerar processos de recuperação que permitam ao atleta não ir para a competição em estados de fadiga tão elevados. Mas cada caso é um caso.

Em termos mais práticos, como é feito o trabalho com os jogadores? Trabalham depois dos treinos, nas folgas, quantas vezes por semana…?

Depende um pouco. Temos atletas que treinam de manhã nos clubes e depois de um pequeno período de descanso fazem aqui o trabalho à tarde, há outros que treinam à tarde e querem treinar de manhã… O mais importante é nunca criar um estado de fadiga no atleta e ter resultados, os quais podem passar por prevenir lesões, por trabalhar força, estabilidade, o que seja. Depende do momento da época, do estado em que o atleta está, depende de muita coisa, daí a importância da avaliação individual.

Trabalhando com William Carvalho

Como é que o Francisco avalia o seu trabalho? Pelo rendimento dos atletas dentro do campo, pela evolução dos seus pârametros físicos, pela prevenção de lesões, pela satisfação pessoal…?

Existem muitas formas para avaliar a qualidade do trabalho, mas sem dúvida que a diferença que os jogadores sintam dentro de campo é algo muito importante. Mas avaliamos o nosso trabalho em cada momento de treino, a todo o instante.

Cristiano Ronaldo, por todo o sucesso que tem tido, marca um antes e depois na preparação física individualizada dos atletas?

Hoje em dia, não só o Cristiano mas cada vez mais jogadores fazem trabalho individualizado e especializado para progredir na carreira e jogar mais anos sem lesões. Se olharmos para Manuel Fernandes, Quaresma e Ronaldo, três jogadores com, respectivamente, 32, 34 e 33 anos, vemos que fizeram épocas muito boas. Há uns anos jogadores nesta faixa etária já estavam postos de parte ou num momento de quebra de rendimento na carreira. Hoje em dia a maneira de pensar e de trabalhar tem mudado e já são visíveis resultados.

Acaba de falar de um caso incontornável, o do Manuel Fernandes. Ele sempre foi super talentoso mas viveu momentos de menor fulgor na carreira, e quando o Francisco começou a trabalhar com ele estava mesmo na equipa B do Lokomotiv. O que tem levado a este rendimento que ele tem tido nos últimos 2 anos e a estar no Mundial?

O Manuel é o exemplo máximo de dedicação e compreensão que o trabalho, aliado à qualidade que ele tem, coloca-lo-ia em níveis muito superiores. Nas duas últimas temporadas, se olharmos ao número de jogos, aos golos e assistências que fez e forma como desequilibrou, constatamos que é um jogador fora do normal. Está muito focado e dedicado e é um exemplo para os mais jovens: há 3 anos estava na equipa B por um problema com o presidente e agora está no Mundial. Mostra que a resiliência nos atletas é importantíssima, e a criação desse tipo de mecanismos de resiliência que os levem a superar dificuldades é um aspecto chave.

Vários atletas que trabalham regularmente consigo – Ricardo Pereira, Rúben Dias, João Mário, William Carvalho, Manuel Fernandes – estarão presentes no Mundial. Nas semanas prévias a uma competição deste género (nas quais há um interregno em termos de jogos oficiais) há algum tipo de trabalho específico que se faça?

Temos de os preparar para uma competição muito exigente a nível de calendário, já que é bastante curta. Muitos deles vieram de épocas desgastantes e temos de nos focar na recuperação ao nível de força, estabilidade e pequenas lesões.

Há um caso que chamou muito a atenção. Gonçalo Paciência trabalhou consigo e melhorou muito no começo da época, via-se que estava, por exemplo, bem mais ágil. Como foi esse trabalho com ele?

Eu lembro-me que o Gonçalo, na primeira ou segunda semana em que veio trabalhar comigo, chegou um pouco desconfiado, o que é normal por não saber bem o que surgiria daqui. Mas ao longo do tempo, quando começa a sentir pequenas diferenças (por exemplo, no começo da época chegava aos 70/75 minutos e já não aguentava, e com o passar do tempo ele vai-me dizendo “Francisco, eu aguentava mais 10 minutos a jogar”) o atleta ganha um compromisso maior com o treino, porque entende que se investir tempo de qualidade irá ter um grande retorno no jogo. E cria-se esta bola de neve. A partir do momento em que o Gonçalo foi entrando numa espiral de bom rendimento ele próprio é que me começa a perguntar “Francisco, quando é que treinamos?”.

Acompanhado de André Almeida e Carrillo

Tem o hábito de ver os jogos dos atletas com os quais vai trabalhando?

Sim, eu acho que isso é importante para compreender a ligação entre as qualidades físicas e de jogo, pois se o atleta estiver bem fisicamente a qualidade técnico-táctica irá vir ao de cima mais facilmente. E muitas vezes a melhor forma de compreender se o jogador está fisicamente bem é ao nível do jogo, olhando para como é que ele se sente, como é que está a ser a sua prestação…Não consigo ver os jogos todos mas tento ver e analisar o máximo que consigo, e creio que, como boa parte da minha formação esteve ligada ao treino desportivo na área do futebol, consigo entender o jogo e ligar de forma natural as diversas vertentes.

Foi também jogador no Belenenses – foi treinado pelo Rui Jorge – Oeiras ou Carregado…

Sim, fui orientado pelo Rui Jorge nos juniores e foi uma grande referência, sobretudo a nível de compromisso que os atletas têm de ter com o treino, com o jogo e também com a ética. Os atletas aqui não se limitam a treinar, nós passamos certos valores também. O Rui Jorge dizia que mais importante do que mais importante do que formar jogadores é formar homens, e para mim essa é a premissa crucial num treinador de formação – transmitir valores.

Sente que essas experiências dentro do campo o ajudam a ter uma maior sensibilidade para o jogo e para o jogador?

Sim, mas acredito que não seja só por aí. Claro que foi importante mas todos os outros estudos – e hoje em dia temos de estar sempre a estudar e investir em nós – foram cruciais para melhorar o trabalho com os atletas. Claro que essa experiência é algo importante mas cabe-me estar em constante aprendizagem.

Da parte dos clubes, já lhe colocaram entraves a esta preparação externa? Como é visto que haja uma pessoa externa ao clube a fazer este trabalho?

Dando um exemplo, com o Vitória de Setúbal, ao longo da última época, houve sempre uma relação de cooperação em que eles sabiam sempre o que é que eu fazia com o Gonçalo Paciência, com o Tomás Podstawski e depois com o André Pereira e eles iam-me passando informações sobre o que é que se ia trabalhar durante os treinos. E esta sintonia com os clubes é muito importante, até para que os clubes entendam que o que nós queremos aqui é que os atletas tenham um maior rendimento dentro de campo. O que não faz sentido é os clubes colocarem pequenos entraves a este trabalho, até porque hoje em dia todos os atletas de topo fazem este tipo de trabalho, seja dentro ou fora do clube, divulgado ou não.

Há até atletas que têm preparadores físicos a viver com eles.

Hoje em dia qualquer detalhe vai fazer a diferença na carreira dos atletas. Eu em Maio estive na Rússia, no final de temporada do Éder e do Manuel Fernandes no Lokomotiv, e conseguiu compreender que já existem muitos atletas hoje em dia que têm um preparador físico ou fisioterapeuta pessoal que já os acompanha há muito tempo, que muitas vezes está dentro do clube e tem um papel fundamental para o jogador. Agora claro que isto não sucede com todos os clubes. Mas é uma área que está a crescer e faz todo o sentido que assim seja, porque nós só queremos que os atletas tenham resultados.

Entrevista realizada por Pedro Barata

4 Comentários

  • Pedro Barata
    Posted Junho 8, 2018 at 11:17 pm

    O mundo do futebol está a mudar, e um mundo de competências interdisciplinares está a juntar-se a ele. Quem se souber rodear dos melhores perfis estará por cima.

  • Oldasity
    Posted Junho 9, 2018 at 12:13 am

    Gostei da entrevista e gostei do facto de ser alguém com um papel diferente no futebol.

    Só uma pergunta: Como é que o Francisco conseguia estar com todos os atletas? Não se trata de um trabalho contínuo? Ou vai, por exemplo, à Russia 1 semana ou 2 trabalhar com alguém e depois vai a outro sítio?

  • Aslio
    Posted Junho 9, 2018 at 12:56 am

    Excelente entrevista.
    Tenho acompanhado o projeto pelas redes sociais e, ao que parece, o Francisco está a ter um grande sucesso.

    Era bom que todos os clubes tivessem pessoas assim, dedicadas e com conhecimento, capazes de levar os jogadores mais além. O seu trabalho fala por si, a evolução de vários jogadores estão à vista de todos.

    Parabéns Francisco e votos de mais e mais sucesso!

  • Mantorras
    Posted Junho 9, 2018 at 3:24 am

    Parabens ao VM e principalmente ao Pedro. Sempre capaz de me surpreender, nao apenas pelos entrevistados, mas tambem pelos temas e teor dos entrevistados.
    Gostei muito de ler, obrigado :)

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