Há uma coisa que o ser humano faz melhor do que qualquer outra: guardar ressabiamento. Não de favorecidos, de privilégios, de facilidades. De monumentos. Porque quando um monumento cai, ou começa a rachar, o prazer coletivo é de uma intensidade que nenhuma conquista individual alguma vez conseguiu gerar. É a lei não escrita do entretenimento humano. É mais fácil sentirmo-nos próximos de alguém quando o vemos tropeçar do que quando o vemos voar.
Cristiano tropeçou no dia 17 de junho. Como já tinha tropeçado nos outros 9 jogos em grandes torneios. Publicamente. Em direto. Com 41 anos e o mundo inteiro a ver.
E toda a gente tem muito para manifestar.
O Que Aconteceu
Portugal estreou-se no Mundial 2026 contra a República Democrática do Congo, na teoria um dos adversários mais acessíveis do grupo. O resultado foi um empate. Ronaldo jogou noventa e cinco minutos. Fez 25 toques na bola. Zero golos. Zero assistências. Zero remates enquadrados. Zero cruzamentos. Zero faltas sofridas. Zero contribuições defensivas.
É uma linha estatística que, retirada de contexto, poderia pertencer a um suplente que entrou aos 85 minutos. Aconteceu ao capitão, ao número sete, ao homem que foi apresentado ao mundo como o motivo para Portugal continuar a existir no mapa do futebol mundial.
A imprensa internacional não esperou muito. O The Independent chamou-lhe “uma estátua”. O The Telegraph aproveitou para comparar com Messi, que no dia anterior fez um hat-trick pela Argentina. A Sky Sports foi mais direta ainda: falou no “problema Ronaldo que Portugal se recusa a resolver”. O The Athletic foi o mais certeiro de todos: “não fez nada hoje, o que, apesar de não ser inteiramente culpa dele, não é um bom presságio para o resto do Mundial”. E depois acrescentou, como nota de rodapé, que os jogadores portugueses foram ao meio campo aplaudir os adeptos no final do jogo. Bem, nem todos. Adivinhem quem já tinha ido para o balneário.
É este tipo de detalhe que vive na memória das pessoas muito mais do que qualquer estatística.
Por Que É Normal Que Ele Seja o Culpado
Há uma distinção importante que muita gente faz questão de ignorar porque complica a narrativa simples que querem contar: Ronaldo não é o único problema de Portugal. Bernardo Silva foi péssimo. Bruno Fernandes foi invisível. João Cancelo é uma sombra do que foi. Rafael Leão entrou para salvar o jogo e jogou como alguém que não sabia ao certo em que continente estava. Roberto Martínez manteve Ronaldo em campo noventa minutos enquanto trocava outros jogadores que também não estavam bem, o que levanta questões sérias sobre a coragem do selecionador para tomar decisões técnicas sem considerar hierarquias de balneário.
Mas há uma razão objetiva pela qual Ronaldo é e vai continuar a ser o centro de tudo: porque ele quis ser.
Não é injusto. É a lógica implacável do protagonismo.
Durante vinte anos, Cristiano Ronaldo construiu, com um nível de deliberação que raramente se vê num desportista, a narrativa de que era insubstituível. Não apenas o melhor. O necessário. O motivo. A causa. Não houve vitória portuguesa nas últimas duas décadas que não passasse, de alguma forma, por ele, pelo dedo apontado ao céu dele, pelo peito aberto com o nome dele na camisola. E quando as coisas corriam mal, havia sempre uma explicação externa, um árbitro, um sistema de jogo inadequado, falta de apoio dos colegas, lesões do pior timing possível ou um “Vá perguntar ao Queiroz”.
O Europeu de 2016 foi ganho sem ele em campo na final. Mas foi o europeu dele. Porque ele estava no relvado a gritar junto à linha lateral com a perna em frangalhos e toda a gente concordou que sim, foi ele que ganhou. E foi, de certa forma. A sua energia. A sua presença. O homem criou uma marca tão forte que a sua ausência física continuava a ser uma presença simbólica.
O problema de construir esse tipo de identidade é que funciona nos dois sentidos. Se és o responsável por tudo o que corre bem, és também o responsável por tudo o que corre mal. É um contrato implícito que se assina quando se escolhe esse nível de ego público. Ninguém o forçou.
E agora é tempo de pagar.
O Que Está Para Trás
Para perceber o que se passa neste Mundial, é preciso olhar para os últimos quatro anos com pragmatismo.
O Mundial do Catar, em 2022, foi um momento de viragem psicológica. Portugal entrou com Ronaldo em foco absoluto, saiu da fase de grupos com ele a ser assobiado por adeptos portugueses num jogo que ficaria para a história exatamente porque Ronaldo foi substituído e Portugal ganhou. Marrocos eliminou Portugal nos quartos de final com Ronaldo a chorar em campo e a caminho dos balneários. A imagem foi global. Mas o que ficou foi a dúvida, instigada pelo próprio Fernando Santos, sobre se a equipa jogava melhor sem ele do que com ele.
Depois do Catar, Ronaldo foi para a Arábia Saudita. Não foi uma decisão pacífica. Foi uma retirada dourada para um mercado sem escrutínio real, onde os números continuam a crescer num contexto competitivo que não é equivalente a nenhuma liga europeia de topo. Os 973 golos na carreira são um número real. O contexto em que parte deles foram marcados nos últimos três anos é uma conversa diferente.
Entretanto, Portugal cresceu. João Neves apareceu como o jogador mais completo da geração. Vitinha tornou-se imprescindível. Pedro Neto, Gonçalo Ramos, Francisco Conceição, uma geração inteira de jogadores com qualidade genuína para competir ao mais alto nível. Uma geração que, olhando para o jogo contra o Congo, parecia estar constantemente a jogar em função de alguém que não estava a responder, a tentar servir um homem que não estava nem fisicamente nem tacticamente em condições de fazer o que lhe pediam.
O médio do Congo disse, depois do jogo, com um desassombro que custou mais a ouvir do que qualquer crítica da imprensa ocidental: “Para ser sincero, não preparámos muito um plano específico para marcar o Ronaldo, porque sabemos que já não é o mesmo. Está um pouco mais velho.”
Quando o adversário, ainda por cima da RD do Congo, diz isto numa flash-interview pós-jogo…
O Prazer da Queda
Aqui chegamos à parte que ninguém gosta de admitir, mas todos nós sabemos.
Há uma satisfação coletiva muito particular em ver o Cristiano falhar. Não em toda a gente, claro que não. Mas numa fatia suficientemente grande de pessoas para que esse sentimento seja um fenómeno sociológico que merece ser analisado em vez de ignorado.
E essa satisfação não nasce do ódio, nasce da distância.
Ronaldo passou vinte anos a construir uma imagem de si mesmo que era, por vontade do próprio, inalcançável. Perfeição física. Disciplina absoluta. Superioridade sobre os mortais. Era uma narrativa consciente. E foi enormemente eficaz durante muito tempo. Mas o efeito secundário dessa narrativa é que cria ressentimento passivo em quem a absorve. As pessoas não conseguem identificar-se com a perfeição. Conseguem validá-la e, às vezes admirá-la, mas não conseguem aproximar-se dela emocionalmente.
Messi, que construiu a narrativa oposta, de fragilidade humana que supera as expectativas, tem uma relação com os adeptos radicalmente diferente. Não é que Messi seja mais simpático ou mais acessível como pessoa. É que a narrativa que construiu diz “sou como vocês”, “brinco com o meu cão e jogo à bola na sala com os meus filhos enquanto protejo a televisão que tanto me custou a pagar” e não “sou melhor do que vocês”.
Quando o Cristiano falha, as pessoas que nunca conseguiram identificar-se com ele sentem, pela primeira vez, que o percebem. Que ele é humano. Que afinal também envelhece, também erra, também tem noites, semanas, meses e anos mus. E essa humanidade súbita cria uma proximidade que vinte anos de perfeição nunca criaram.
É trágico, se se pensar bem. O homem passou décadas a tentar provar que era diferente de todos os outros e conseguiu. E agora, no momento em que começa a ser igual a todos os outros, as pessoas sentem-se finalmente próximas dele.
E aproveitam o momento com uma energia que jamais usaram para celebrar os momentos em que ele era realmente extraordinário.
Quantas pessoas que hoje partilham os zeros estatísticos de Ronaldo alguma vez partilharam, com a mesma energia, o hat-trick contra a Espanha em 2018? Ou os seus números na Liga dos Campeões? Ou o facto de ter chegado a um sexto Mundial com 41 anos, coisa que nenhum europeu fez antes?
A resposta é conhecida.
O Que É Justo Dizer
O Cristiano é uma parte legítima do problema de Portugal neste Mundial. Não o único problema, mas um problema real.
É justo dizer que 41 anos numa posição de avançado centro, numa competição com esta intensidade, é uma desvantagem física que não se resolve com mentalidade nem com horas de ginásio. O corpo tem limites que o carácter não esconde.
É justo dizer que uma equipa que constrói o seu sistema ofensivo em torno de um jogador que fez 25 toques na bola em noventa e cinco minutos está a desperdiçar recursos.
É justo dizer que o selecionador que não tem coragem de fazer substituições por razões “estatutárias” está a colocar a hierarquia do balneário acima do resultado do jogo.
É justo dizer que o Cristiano, ao aceitar e incentivar esta dependência da equipa relativamente a si, está a ser egoísta de uma forma que prejudica colegas que merecem mais.
Mas é igualmente justo dizer que o homem marcou oito golos em Mundiais. Que ganhou um Europeu e duas Ligas das Nações. Foi ainda Vice-Campeão Europeu e fez 4º lugar num Mundial. Que carregou Portugal nos ombros durante uma geração inteira quando a alternativa era o quê, exatamente? Foi, durante pelo menos uma década, um dos dois melhores jogadores do mundo sem margem para discussão séria.
E que a forma como o país, e o mundo, está a devorar este momento diz muito mais sobre a psicologia coletiva do que sobre o futebol.
O Desfecho
Este pode ser o último Mundial de Ronaldo. Provavelmente é.
E há uma crueldade particular na ideia de que a última imagem que ficará pode ser esta: um homem de 41 anos a jogar noventa e cinco minutos contra o Congo, a fazer zero de tudo, a ir para o balneário enquanto os colegas ainda estavam no relvado.
Portugal tem jogadores para chegar longe neste torneio. A geração que apareceu nos últimos anos tem qualidade real e joga quase toda nos maiores palcos do mundo. Mas para isso acontecer, alguém tem de ter a coragem de fazer uma escolha que ninguém quer fazer.
O problema não é só o Cristiano. O problema é que ninguém, nem o selecionador, nem a federação, nem os colegas, quer ser o homem que diz ao maior português de sempre que o seu tempo acabou.
E enquanto essa conversa não acontece, Portugal vai continuar a entrar em campo com um sistema desenhado para um avançado que já não existe e sair com resultados que não refletem a qualidade real do plantel.
A conta vai chegando. Com juros.
A questão é se alguém tem coragem de a pagar antes de ser tarde demais.
Porque quem pagou a conta durante duas décadas ficou sem saldo e continua a viver à grande e à Portuguesa.
GioBonnie


5 Comentários
beterrabapragmatica
Tanta coisa para no fim vir também com a falácia do “carregou anos a seleção às costas”…
Francisco Goncalves
https://m.youtube.com/watch?v=48JPs63uAkg&pp=ygUIZXVzw6liaW8%3D Melhor jogador português de sempre?
Francisco Goncalves
Nem os 973 golos são um número real pois ele marcou 6 golos na Champions árabe que não é uma competição ofocial da AFC ou da FIFA.
Luso
Clap clap clap clap
ACT
O grande problema deste alarido todo, é que as pessoas que continuam a idolatrar o Ronaldo não vêm os jogos. É pessoal que acompanha a seleção de 2 em 2 anos e ainda vê o Ronaldo como a estrela, tiram umas fotos nas fanzones e metem uns stories do homem a chorar após mais uma eliminação. Este é o tipo de adepto que defende o Ronaldo, já não vou mais longe como um user comentou ontem e com toda a razão.