Ora um pensamento lógico e bem estruturado requer que se analisem sucessivas premissas, desconstruindo um problema complexo em pequenas partes mais fáceis de analisar. Caso contrário corre-se o risco de tirar conclusões precipitadas, descabidas ou simplesmente incorretas. No caso da maioria dos analistas da nossa seleção, sejam eles formais, informais ou parentes do capitão, não se trata de um risco, mas sim do objetivo. Desinformar, encontrar bodes expiatórios, teorias da conspiração, e a certeza daquilo que está mal e do que sempre esteve bem. E chegam a estas conclusões ainda o jogo não terminou. Mas nós, desprovidos desta célere capacidade de análise, vamos por partes.
O selecionador está condicionado nas suas escolhas? O último que teve coragem de sentar o capitão foi corrido num ápice. As justificações para a sua titularidade, e para o facto de raramente ser substituído, são absurdas: se estivermos a perder não sai porque precisamos de golos, e se estivermos a ganhar não sai também. O facto do seu substituto, no pleno das suas capacidades e acabado de protagonizar a maior transferência da história de um colosso italiano, com a melhor média de minutos por golo na história da seleção em mundiais, e após uma entrada de grande nível contra a Croácia com um golo importantíssimo, fazer zero minutos no jogo decisivo e o equivalente a meia parte no total da competição, também não ajuda.
O meio-campo não serve o nosso atacante? Discute-se muito a prestação dos médios como se jogassem num ecossistema separado ao da restante equipa, como se fossem alheios às ações dos seus colegas. Quem de facto observa os jogos com cuidado nota que a defesa adversária se encontra perfeitamente confortável durante o jogo, porque a nossa referência ofensiva está constantemente em fora-de-jogo ou fintando o ar e a fazer passes infrutíferos na retaguarda. São estas mesmas ações sem nexo que levam os médios, que deveriam estar a construir jogo, a ter que muitas vezes fazer o papel de ponta-de-lança. Obviamente, o avançado é preponderante na construção ofensiva, e não se trata apenas de um jogador que está plantado na área à espera que chegue algo. Tornamo-nos previsíveis, apáticos e enfadonhos. Uma equipa funciona como um todo, e é tão forte como a sua parte mais fraca. Mais absurdo se torna quando pedem que se passe a bola ao jogador que agora é de topo a “arrastar defesas”. O lógico seria servir os colegas, que estarão obviamente livres pelo efeito deste potente íman.
Somos uma equipa com rumo e liderança? Para os mais desatentos, durante toda a competição, fomos uma equipa que só contou com declarações do capitão nos jogos em que marcou golo. Capitão esse que parecia mais importado em confrontar jornalistas do que com as suas prestações, chegando ao ridículo de afirmar que o mais difícil da prova era “falar com eles”. Que, após perder, menospreza a prova. Que fala como se as recentes conquistas nacionais tivessem sido fruto unicamente do seu trabalho. E acima de tudo, que não parece importado em defender os seus colegas de ataques vindos do seu núcleo pessoal e familiar.
Chegamos, finalmente, à questão final. Será o nosso capitão o problema? Para mim, parece-me por demais evidente que sim. E não é difícil entender que os argumentos contrários a esta tese são frouxos, porque a sua defesa não tenta invalidar as premissas que foram estabelecidas acima. Pelo contrário, tenta-se atacar quem as fez: “Mas quem és tu?”, “Tens é inveja!”, “Queres é aparecer!”. A estratégia parece passar também por cortar as pernas à mudança, pois é impossível provar que as prestações serão melhores sem ele se isso nunca acontecer. E cria-se ainda a ideia que criticar ou questionar esta entidade é estar contra o país. Como é óbvio, jamais se deve dar o caso de existir algo ou alguém que, faça o que fizer, estará sempre isento de qualquer análise ou escrutínio.
A verdade é que o futebol é de facto a mais importante das coisas menos importantes da vida. Mas desengane-se quem acha que estes problemas estão encapsulados no âmbito do desporto-rei. Cristiano, sendo a pessoa mais seguida do mundo, faz uso das mesmas táticas que partidos, empresas e organizações têm utilizado para dominar o espaço e opinião pública nos últimos anos. A total deturpação da realidade. Fazer com que um coletivo ande à busca de culpados em todo o sítio menos onde devia, numa cegueira que o impede de enxergar o problema à frente dos seus olhos. E se não aprendermos a lutar contra isto, tempos ainda mais negros se avizinham. No futebol, no entanto, o tempo é de mudança. Mas ao que tudo indica muda o maestro, mas a música será a mesma. Talvez entrem uns violinistas novos, mas o pianista, na frente, continua a tocar o seu Steinway de olhos vendados e com severas artroses.
Visão do Leitor: Pedro Gonçalves

