Esta época tem sido especialmente recorrente ouvir Rúben Amorim falar sobre “o projeto”, sobretudo nas fases que antecedem ou procedem mercados de transferências e na iminência ou sequência de vendas relevantes como as de M. Nunes, Nuno Mendes ou Porro, ou entradas de jovens com pouca notoriedade como Tanlongo, Sotiris, Diomandé ou Arthur. Estas referências ao “projeto” têm sido acompanhadas nos últimos tempos pela “esperança” de que num curto espaço de tempo o Sporting não necessite de vender, sendo que esta perspetiva agrada aos adeptos, que parecem ter dificuldade em compreender a linha orientadora do clube.
Neste contexto, pode ser relevante entender o que é, afinal, o “projeto”, qual a sua relevância para a componente desportiva de um clube, sobretudo em Portugal, e se, de facto, é possível para o Sporting alterar a linha atual – deixando de vender e/ ou mudando a estratégia de compras; para isto gostava de olhar para dados de transferências dos últimos 20 anos e explorar que mensagens nos trazem.
A Liga Portuguesa – uma liga vendedora:
Ao contrário das principais ligas europeias, a liga portuguesa é claramente uma liga vendedora, especialmente pela dimensão do país que limita a capacidade de gerar receitas alternativas que não a venda de ativos – tradicionalmente direitos de transmissão, merch internacional, etc – disponíveis para ligas com mais projeção. Na verdade, nos últimos 20 anos a Liga Portuguesa é que melhor saldo (Receitas menos Despesas de vendas de jogadores) positivo tem nas várias ligas a nível mundial, sendo comparável a ligas como a brasileira ou argentina, como podemos ver no gráfico abaixo:
Saldo transferências 02/03-22/23:

Este facto implica que clubes Portugueses – especialmente os 3 grandes – precisem de ter uma estratégia – ou “projeto” – que lhes permita liderar esta forma de gerar receitas para sustentar a componente desportiva, especialmente dada a necessidade de competir a nível europeu – as ligas “compradoras” conseguem gerar receitas extra vendas de jogadores que lhes permitem investir na componente desportiva, evitando a necessidade de formar para vender.
A estratégia que temos visto nos últimos anos passa por 2 eixos críticos: a) formar e vender, b) comprar barato e potenciar. Quanto melhor sucedidos forem os clubes a utilizar estes vetores de geração de capital, mais capazes são de acumular capital que lhes permite investir no plantel a médio prazo, com jogadores que acrescentam ao plantel sem necessidade de serem potenciados; é aqui que começam algumas das frustrações de muitos adeptos e maior dificuldade em compreender.
O caso do Sporting – que necessidades, implicações e como chegar ao objetivo:
Ao contrário da crença comum de “3 grandes”, um olhar sobre o saldo acumulado dos últimos 20 anos de receitas menos gastos de vendas mostra que existem 2 realidades em Portugal neste âmbito, assim como, existem realidades distintas ao nível da performance desportiva – podendo importar de que forma o primeiro influencia o segundo.

Observando o gráfico acima podemos notar alguns detalhes interessantes: 1) Porto e Benfica têm em acumulado de saldo dos últimos 20 anos o dobro do que Sporting e Braga, colocando estes 2 grupos de equipas em patamares financeiros diferentes – curiosamente, esta realidade acompanha no mesmo período realidades distintas ao nível desportivo, Porto e Benfica ficam em média no 1º e 2º lugar, enquanto Sporting fica em média no 2º e 3º lugar, sendo que Braga fica um pouco pior na classificação; 2) existe um período de claro domínio Portista, seguido de aceleração exponencial do Benfica e, só mais tarde, a aparente capacidade do Sporting de seguir a tendência – o tão falado projeto.
Mas será suficiente? Apesar da aparente recuperação, se considerarmos os ritmos de crescimento desde 2012/2013 até hoje, o Sporting não conseguiria acompanhar os adversários, sendo que, em 10 anos – assumindo a mesma trajetória – já teria ultrapassado o dobro do saldo do Sporting, ao passo que o Porto teria um valor 1,5 vezes superior. Estes dados são ainda mais relevantes quando observamos a tendência de crescimento da época de Frederico Varandas, que teve um salto inicial relevante que tem mantido constante, mas sem crescimento significativo sobretudo após Rúben Amorim – o Sporting estaria ligeiramente mais próximo do adversário, dada a redução de crescimento dos mesmos, mas poderia ser ultrapassado pelo Braga em 20 anos.
Desta feita, parece possível dizer que para o “projeto” não é exequível parar de vender no curto prazo, pelo contrário é preciso acelerar, de forma sustentada os rendimentos de venda de ativos, encontrando um balanço com a vertente desportiva.
Finanças vs. Desporto – afinal importa?
Com todos os elementos acima, parece ficar claro que caso o futebol fosse uma competição financeira, faltaria ainda um longo caminho ao clube de Alvalade até conseguir nivelar com os rivais. Mas quais são as consequências a nível desportivo? Haverá ou não uma ligação? A resposta óbvia é sim, sendo a mesma corroborada pelos dados:
Para ilustrar esta relação ordenamos a equipa por despesas com reforços – que é por sua vez financiada por receitas de vendas de jogadores – e olhámos para a classificação no final da época:


Podemos observar nestes gráficos que a equipa que mais gasta numa época é a que mais probabilidade tem de ficar em 1º ou 2º lugar, com larga vantagem, mas também que parece haver uma correlação forte entra a “posição relativa” em termos de gastos e a classificação final da época dado que a 3ª equipa com mais gastos é também aquela que maior probabilidade tem de ficar em 3º lugar no final da época, sendo este feito verificado para todos os lugares da classificação, com exceção do 1º em épocas em que os gastos com plantel foram muito semelhantes.
Esta capacidade de gerar despesa no plantel, no caso de uma liga vendedora, só pode ser sustentada com saldos positivos de vendas constantes, gerando assim um saldo estrutural positivo que permite às equipas nacionais serem competitivas.
Assim sendo, e em jeito de conclusão, sim parece muito relevante para os adeptos que este “projeto” do Sporting siga a linha orientadora atual, até que porventura acelera, de forma a que, no médio prazo, consigam aumentar a probabilidade de vencer o campeonatos; e não, não é provável que no curto prazo o Sporting possa parar de vender o começar a comprar sem ter em vista o potencial de gerar receita, como podem fazer, hoje em dia, Benfica e FC. Porto, após alguns anos de “projeto” semelhante, sendo que, inclusive para o Porto, o abrandamento do ritmo de vendas e a desaceleração parecem ter levado a dificuldades imediatas no investimento no plantel.
Visão do Leitor: Henrique Guerreiro


4 Comentários
Mantorras
Parabens pelo artigo. Gostei bastante.
A conclusao, in short, e que a venda de jogadores, sejam formados ou potenciados/valorizados, nao chegara sem vitorias.
Elas trazem notoriedade, visibilidade, que atrai jogadores/empresarios e valorizacao de activos, que implica vender melhor tornando-se logo um clube mais apetecivel. Pescadinha de rabo na boca.
Alem das generosas receitas da champions. O projecto do Sporting so tem resultados se, aliado a uma gestao muito boa e acerto grande nas contratacoes, existir sucesso desportivo suficiente para se tornar num clube que valoriza muito e rapido os seus activos, porque vence e esta nos palcos certos, e que consegue regularmente boas prestacoes europeias que ajudem a sustentar o clube financeiramente.
Antonio Clismo
A situação do clube não é famosa, mas penso que o ponto de inflexão já foi dado e esta direção é a responsável pelo rumo que o clube tomou para se salvar do seu próprio desaparecimento depois dos acontecimentos de 2018.
Mas ainda há muito a fazer, muitas gorduras a cortar e é preciso trazer eficiência a muitos setores. Há ainda os contratos ruinosos do Ilori, Camacho, Doumbia, Vinagre ou Eduardo Henrique… pelo menos já se conseguiram livrar do Renan Ribeiro que era outro dos que se tinha encostado ao clube. Há muita gente ainda encostada ao clube, muitos deles dirigentes e funcionários. Pouco ou nada acrescentam ao clube.
A direção definiu o projeto com a sua Visão Estratégica 2020-2022 e conseguiu cumprir tudo. https://pt.scribd.com/document/482145254/scp-visao-estrategica-2020-2022#
Gostava que a tual direção tivesse a ousadia de criar uma nova Visão Estratégica até 2025, pelo menos.
No dia em que deixar de planear o futuro e executar esse plano com sustentabilidade, é o claro sinal que a direção se aburguesou e já não está a servir o clube.
Nota: Sou totalmente a favor da limpeza que a direção está a fazer nas suas claques, que mais não são antros criminosos que usam o clube e o futebol para disseminar os seus ideais (muito ligados à extrema-direita neandertal) já para não falar das quadrilhas de crime organizado, alguns deles até já foram condenados e miraculosamente, podemos encontrá-los com megafone na mão nos dias de jogos a causar entropia no clube…
É uma guerra dura e desgastante (basta uma maré de azar desportivo para a contestação aumentar e a direção perde a guerra) mas gostava que todos os clubes tivessem a coragem do Varandas para limparem e se demarcarem das suas claques…
RuiCosta10
Não percebo a contestação dos sportinguistas à equipa.
Em 3 temporadas preparadas pela atual direção, em duas fizeram 85 pontos e apenas nesta está a correr mal.
O Sporting precisa de passar vários anos a ir à champions regularmente para se conseguir equiparar a Porto e Benfica.
Na minha opinião é preciso um lateral esquerdo para ser titular, forte ofensivamente e especialmente com espaço. No meio campo claramente é preciso mais um jogador. Acredito que alguém que fosse forte a nivel posicional, inteligente e com capacidade de passe longo seria capaz de trazer algo que não existe atualmente nos médios que têm jogado a titular. Não acho que o Bragança vá dar jogador.
Penso que o ideal para o Sporting seria focar-se na liga europa e começar a preparar a proxima temporada….seja em termos de reforços, como em termos de processos táticos. Jogadores como o Chermiti e o Tanlongo podem crescer bastante se tiverem minutos, e a equipa bem precisa.
Acho que os Sportinguistas precisam de acreditar no projecto. Mudar de direção nesta fase ia ser um tiro no pé completo. Depois de tantos anos à deriva o clube tem direção e para mim é surreal tantos adeptos quererem a saida do Varandas. Para mal ou bem, o clube parece ter um excelente projecto desportivo, só falta é dinheiro para o concretizar, mas Roma também não se construiu num dia.
Miguel Cardoso
Bom texto.
Parece que alguns adeptos do Sporting não entendem (e até dos rivais)… O sporting para a médio/longo prazo estar na luta tem de manter este “projeto”.
Sim vão existir tiros no pé como Trincões ou Vinagres da vida. Em contrapartida saem os Matheus e os Nuno Mendes da vida por valores anormais para a realidade do Sporting. Tivesse o Sporting outro projeto muito provavelmente o Matheus Nunes nem tinha passado pela equipa A. Foi uma aposta da direção que escolheu o treinador para potenciar estes jogadores. Voltar a apostar na formação como outrora fez o Sporting, numa altura em que vender promessas (infelizmente) não rendia tanto como hoje.
Outra vertente importante é a salarial. Fala se do custo de Diamondé mas em termos de salário este deve ganhar uma ninharia comparado com os centrais reservas dos nossos vizinhos da 2ª circular. Estas continhas também interessam e é nisso que a direcção também se está a focar e bem.
Acho que Varandas está a fazer um bom trabalho e ver que o Amorim quer ficar melhor ainda… Aquele titulo há 2 anos deu a ideia errada a alguns adeptos que o clube estava preparado para continuar a lutar pelo titulo. Mas mesmo assim o clube no geral não tem estado nada mal tendo em conta a situação em que o bruninho nos deixou. Ganhou taças da liga, liga, oitavos da Champions (este ano o terceiro lugar que poderia ter sido outra passagem não fosse as paragens cerebrais contra o Marselha e num grupo que eramos em teoria os underdogs). Isto há uns anos era anormal para o Sporting no espaço de 3 anos ter atingido o que atingiu e portanto continuar a exigir o mesmo com a situação financeira em que o clube se encontra (e vs os nossos rivais) é de um iluminação pura
Outra diferença que se nota é o espirito na equipa. Os jogadores atualmente gostam de estar no clube, em comparação com há uns anos atrás. Não se viu jogadores como o Matheus, Porro ou Palhinha vir a publico dizer que queriam sair, como em tempos se viram outros que claramente estavam saturados do ambiente no clube