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O regresso do Cruzeiro: um plano de tranquilidade e continuidade

O ano de 2019 fica marcado pela descida do Cruzeiro Esporte Clube à Série B do futebol brasileiro. Era uma das equipas que nunca tinha sido despromovida do escalão máximo, tendo sido campeão poucas épocas antes, em 2013 e 2014. Com uma série de anos a somar más gestões, mesmo na elite do desporto no Brasil, os especialistas dividam-se em dois grupos: o que defendia que a promoção seria no imediato e o que suportava a tese de que era necessária uma reconstrução para tornar o Cruzeiro uma equipa “saudável” de novo. Na verdade, assistimos a este mesmo debate em 2020, na descida do Botafogo de Futebol e Regatas. O clube do Rio de Janeiro conseguiu a promoção com relativa facilidade, porém a “Raposa” padeceu de bons resultados e tranquilidade, ficando até 2022 num dos campeonatos mais desafiantes do Mundo.

A esperança só chegou com a criação de uma SAF, modelo já aqui explicado no Visão de Mercado. Ronaldo Nazário, formado na equipa de Belo Horizonte (embora adepto confesso do Flamengo), investiu na equipa que o lançou para a ribalta, juntado o Cruzeiro ao Real Valladolid com equipas em sua posse. R9 rapidamente identificou o que faltava: organização. Duas épocas na Série B destroem financeiramente um clube, que não obtém valores de receitas sequer parecidos aos praticados na Série A. O novo dono do clube sabia que teria de realizar uma quantidade dantesca de alterações, que garantisse uma instituição saudável e na luta pelos objetivos.

A época de 2022

Chegamos a Outubro de 2022 com a consciência de que a época foi (quase) perfeita, resultado da existência de um plano realista e bem orquestrado. O Fenómeno contratou Paolo Pezzolano, uruguaio do Pachuca, que mostrava ser um técnico com potencial. Apesar de estar longe dos holofotes, o histórico do Cruzeiro atraiu o técnico a assinar pela equipa do Mineirão. Resultados? 1º lugar da Série B, oitavos de final da Taça do Brasil e finalista vencido do Campeonato Mineiro. Era difícil pensar no inicio da temporada, que a “Raposa” teria um “passeio” no campeonato, já que havia adversária de traquejo.

Pezzolano não iniciou a sua jornada com a tática com que a acabou, no entanto o 3-4-3 utilizado é a sua imagem de marca. Quais as suas nuances? A linha defensiva tem de ter capacidade de construção e visão de jogo, assim como os médios (sendo um o especialista nesta matéria). Os alas têm que envolver-se no ataque, obrigando-os a ter grande resistência. Em relação ao trio ofensivo, existe um 9 que tem de saber jogar de costas para a baliza, estilo pivot acompanhado de dois avançados interiores, que joguem na entrelinha e que tenham capacidade de receber a bola do 9 e finalizar.

O treinador teve de encontrar os jogadores certos para encaixar nesta tática. Zé Ivaldo e Oliveira são centrais que sabem ter a bola no pé, Neto Moura foi o cérebro da equipa, acompanhado de Willian Oliveira, um 6 puro. Bidu foi o melhor ala esquerdo da liga, encaixando perfeitamente na ideia do técnico (bom nome para o campeonato português, por exemplo). Edu e Bruno Rodrigues destacaram-se no ataque (os golos foram muito dispersos, embora Edu possua uma clara vantagem em relação aos demais), porém os que melhor se encaixaram no estilo, o primeiro como 9, o segundo como avançado interior.

Isto permitiu a que uma série de ideias fossem postas em prática. A aposta em passes longos eram uma constante, muitas vezes em diagonal, com Zé Ivaldo a lançar Bidu, que tinha mais espaço que certos elementos, já que o jogo estava constantemente concentrado na “faixa do meio”, havendo espaço pelas bandas. Pezzolano sempre apostou num jogo rápido, pouco mastigado. Sem bola, a pressão era imediata, mesmo que fosse realizada na área contrária. Esta pressão era geralmente individualizada, deixando pouco espaço para movimentos sem acompanhamento. A linha defensiva estava constantemente alta, para “apertar” ainda mais o adversário.

Foi com este estilo de jogo (explicado de uma maneira breve) que os resultados apareceram e permitiram a vitória com folga. Porém, há que ter a consciência que na Série A os adversários são muito mais fortes. A linha defensiva terá muito menos espaço para produzir jogo e os rivais serão mais criativos e com um futebol menos físico.

O futuro

O que esperar deste final de 2022 e começo de 2023? Há uma ideia de continuidade e tranquilidade que dá uma vantagem ao Cruzeiro. Em relação ao treinador, a manutenção de Pezzolano é algo garantido. Na Série A, um terramoto irá certamente acontecer: Ceni e Cuca estão na corda bamba. Vitor Pereira e Dorival têm o futuro indefinido, especialmente o segundo com a questão da Seleção. Barroca e Jorginho podem não se manter se os seus clubes subirem. Scolari vai-se retirar e Vojvoda poderá ir em busca de algo melhor. Barbieri terá chegado ao sim fim no RB Bragantino. Começar a época com o treinador do ano passado é de facto uma vantagem, não é necessária uma adaptação. A metodologia continuará por lá. Já se olharmos aos jogadores, vemos a mesma linha de manutenção. Os reforços vão ter de aparecer, no entanto não serão em grande número, como aconteceu no Botafogo. Neste caso, o capital é pouco e há elementos com qualidade para se manter por Belo Horizonte. A maior questão é conseguir contratar em definitivo certos emprestados, como Zé Ivaldo, Willian Oliveira e Bidu. A isto, somar elementos que sejam de qualidade e não para encher os quadros. Wesley, atleta do Palmeiras, tem sido apontado e é um bom exemplo do que se pode fazer. O resto, virá da Toca da Raposa, com elementos como Daniel Jr. e Stênio a quererem lutar por uma vaga no XI inicial. A manutenção de Vítor Roque teria sido fundamental, seria o avançado titularíssimo e a estrela da companhia.

Mesmo com a chegada do patrocínio da Cimed (faltando ainda a patrocinador Máster, lugar que tem sido apontado à Heineken, com pouca probabilidade), tem prevalecido o realismo. Não se pode apontar a grandes voos já em 2023. Ronaldo tem uma ideia de vários anos, estamos só no início de uma longa caminhada. Um apuramento para a Sulamericana é algo realista e aceitável. Pensar num top 5 só faz sentido em 2025 e se acontecer antes, é sinal que o trabalho realizado tem sido grandioso.

Se existe projeto a ser copiado, é este. É notável a consciência que existe de que “Roma não se fez em um dia”, desde o adepto mais fanático até ao dono da SAF. Ronaldo não é um John Textor, capaz de introduzir milhões e milhões de reais num só dia no clube. A maioria das SAF estarão mais próxima da gestão de Ronaldo, do que da de Textor. Haverá mais capital, mas uma administração cuidada do mesmo, pois não existe um poço sem fundo.

Visão do Leitor: Ricardo Lopes

VM-Desporto
Author: VM-Desporto

19 Comentários

  • Alexandre
    Posted Outubro 19, 2022 at 2:19 pm

    Obrigado pelo excelente texto, Ricardo. As suas partilhas dos ótimos projetos desportivos que existem pelo mundo fora são muito agradáveis. Num desporto que exige o resultado imediato a qualquer custo, é reconfortante assistir ao desenvolvimento (lento, mas sustentado) de clubes como Cruzeiro ou Osasuna. A estes acrescentaria Friburgo, Eibar, Real Sociedad, Villarreal, Sassuolo e, por exemplo, Estoril. Todos em realidades diferentes, com uma gestão de longo prazo e adaptada ao contexto envolvente.
    Este ano vemos também o Lorient (clube que faz com regularidade boas vendas e aposta de forma assertiva no mercado africano e formação) a colher os frutos da aposta sustentável em jovens jogadores e no treinador que liderava a segunda equipa há 7 épocas.
    Uma vez mais, obrigado pelos textos. Fico a aguardar pelos próximos!

    • Ricardo Lopes
      Posted Outubro 19, 2022 at 5:03 pm

      Muito obrigado pelo comentário! É bastante agradável produzir estes textos, pois abordo temas um pouco distintos dos mais falados. Na televisão são só dois ou três programas que abordam tópicos fora dos 3 Grandes, Cristiano Ronaldo, Seleção Nacional. Os jornais desportivos parecem estar numa crise, infelizmente. Sobra-nos a net, onde o VM é muito forte na produção de conteúdos.
      Em relação aos clubes que falas, são de facto projetos em crescimento e que em alguns casos já estão a colher os seus frutos. Há muitos mais espalhados por aí, em divisões inferiores, até mesmo em Portugal!
      O Lorient é o maior exemplo de continuidade. Poucos são os clubes que mantêm o treinador durante tantas épocas (lembro-me internamente no José Vala). Atacam o mercado com as suas possibilidades e com ideias definidas. A probabilidade de o jogador virar flop reduz bastante. Seguramente que o Lorient vai ganhar muitos seguidores ao longo da época!

      • Alexandre
        Posted Outubro 19, 2022 at 6:23 pm

        Concordo com tudo o que referiste. Já agora, em relação aos outros projetos que referes que existem além dos que mencionei, podes referir alguns para manter debaixo de olho?
        Obrigado!

        • Ricardo Lopes
          Posted Outubro 19, 2022 at 6:46 pm

          A nível nacional parece-me interessante o do Varzim, a escalada do Belenenses, a tentativa de regresso do Pevidém à Liga 3 (a sua ascensão foi meteórica) e as campanhas do Farense e do Académico de Viseu.
          Já fora de portas podes acompanhar o Almería, o Albacete de Albés , o Unionistas de Salamanca (mais por ser um clube popular, onde todos os adeptos são “donos”), a temporada da Udinese, além de todos os que disseste, que são bastante agradáveis de ver. Algo será interessante de acompanhar a partir destas jornadas é a recuperação do Levante, depois da saída do Nafti.
          Claro que há muitos mais, mas infelizmente não há tempo para tudo! E obviamente é uma questão de gosto!

          • Ricardo Lopes
            Posted Outubro 19, 2022 at 7:17 pm

            Claro que em certos casos, como no Unionistas, só se pode acompanhar por sites estrangeiros, sendo que nem sempre transmitem o jogo… O que há para ver é mais as notícias locais. O mesmo se aplica com o caso do Pevidém, já que não existe a transmissão da maioria das partidas.

          • João Ribeiro
            Posted Outubro 19, 2022 at 11:16 pm

            Já que falas no Pevidém, a Série A do Campeonato de Portugal perspetiva-se que seja extremamente competitiva e entusiasmante. Está recheada desses tais projetos de médio-longo prazo, sendo que começa a surgir uma intensa rivalidade entre dois desses projetos que vem já desde a distrital, que é entre o Dumiense (adversário do Famalicão na próxima eliminatória e que terá o projeto mais entusiasmante e, talvez, ambicioso) e o Brito.

            Nesta Série há ainda clubes históricos e/ou com boa massa adepta como o Tirsense, Merelinense, Amarante ou o São Martinho. Estão aqui 7 clubes que têm pretensões de subida (talvez o Brito e o Dumiense não tão declaradamente no imediato mas com projetos de futuro).

            Naturalmente, nem todos terão sucesso, mas esta Série é a prova de que a tão defendida medida de redução do número de clubes nas principais divisões portuguesas seria a condenação do nosso futebol. Se não houver espaço para estes projetos poderem aspirar aos mais altos patamares, eles simplesmente não existirão.

            • Ricardo Lopes
              Posted Outubro 19, 2022 at 11:39 pm

              Estou de acordo. Se a Primeira Liga e a Segunda passassem a ter as 12/14 equipas que muitos defendem, o que aconteceria às do Campeonato de Portugal? Mesmo com projetos sustentáveis iam demorar muito tempo a escalar até ao topo, isto se algum dia acontecesse, além de que possivelmente haveria mais uma divisão, com a existência de tantas equipas.

              • João Ribeiro
                Posted Outubro 20, 2022 at 10:10 am

                Já agora, parabéns pelos teus textos. São sempre muito interessantes de ler. Pessoalmente, são os que mais me tem cativado nos últimos tempos cá no blog.

                • Ricardo Lopes
                  Posted Outubro 20, 2022 at 11:33 am

                  Muito obrigado! Agradecer também os teus comentários sobre o VSC, que mostram à malta que não é de perto como vai o clube.

      • Tiago Silva
        Posted Outubro 19, 2022 at 6:36 pm

        Principalmente o Friburgo e o Lorient são os projetos mais entusiasmantes que acompanhei esta época. Também não nos podemos esquecer do Brighton ou do Union Berlim ou do Bodo.

    • LANDERS
      Posted Outubro 19, 2022 at 5:05 pm

      Nao te esqueças do Union Berlin. Eles têm um crescimento bastante sustentável, por exemplo. E,também, o Union Saint Gilloise.

      • Alexandre
        Posted Outubro 19, 2022 at 6:25 pm

        O União de Berlim é de facto uma excelente referência e não os ter mencionado foi lastimável. Juntam ao projeto desportivo uma comunhão e sinergia com os adeptos que quase tornam o Union uma religião.

      • Tiago Abreu
        Posted Outubro 19, 2022 at 10:09 pm

        O Union Berlim tem é apresentado resultados e tendo uma legião de adeptos fortíssima…
        Acho bem mais projeto sustentável o do Leverkusen ou Frankfurt por exemplo, mas o Union Berlim é uma equipa muito coesa sem grandes nomes e este ano pode até fazer um feito à Leicester…
        Como foi mencionado o St-Gilloise… O st gilloise veio da segunda diretamente para o topo do título… Mais uma equipa onde rapidamente apresentou resultados…

        O segredo muitas das vezes passa por isto mesmo, criar uma equipa coesa que se destaque numa vertente (normalmente a física). Assim é mais fácil ter resultados a curto prazo ao longo de uma época.

        • LANDERS
          Posted Outubro 19, 2022 at 11:08 pm

          Exato e o St Gilloise quando subiu manteve quase a mesma base
          Não houve compras exageradas como o Nottingham fez

          • Tiago Abreu
            Posted Outubro 20, 2022 at 2:05 pm

            O Nottingham é um tremendo mau exemplo…
            Equipas como Wolves, Leeds, Brighton e Brentford que se estabilizaram na Premier foi devido a manterem a mesma base pós subirem (noutras épocas Aston Villa, Leicester e Bournemouth).. o Nottingham arrisca-se a ser o flop da época pelo que investiu e não tem…

  • LANDERS
    Posted Outubro 19, 2022 at 11:11 pm

    Grande texto! O VM devia criar um separador só para o pessoal ler os teus textos ?
    Só uma questão. Em Portugal tem algum clube que esteja a ter um crescimento sustentável?

    • Ricardo Lopes
      Posted Outubro 19, 2022 at 11:28 pm

      Obrigado! Felizmente o VM criou a rubrica Visão do Leitor para que toda a gente possa escrever textos de opinião ou simplesmente exibir um projeto que exista (desde que tenham qualidade, claro está). Também se aprende muito com os comentários em certas notícias.
      Em relação à tua pergunta, na minha opinião o Estoril Praia é um clube que está a ter um crescimento bastante sustentável. Contrata bem, tem um treinador de qualidade, aposta em jovens, tem uma equipa sub-23 com qualidade. Há uma linha que está a ser seguida. Há uns meses o Pedro Alves deu uma entrevista ao VM onde se nota que o objetivo é crescer, mas sem dar dois passos de cada vez.
      Há equipas que querem fazer o mesmo. Vejo que o VSC quer ter sustentabilidade no seu crescimento, mas com a crise financeira não o consegue concretizar. Porém a pouco e pouco irá entrar no caminho da sustentabilidade.

  • Natan Fox
    Posted Outubro 19, 2022 at 11:34 pm

    A única diferença sobre os clubes que os colegas trazem e o Cruzeiro, é que o time mineiro é um gigante brasileiro e sul-americano, logo a exigência por resultados será maior a curto prazo. Vamos ver até quando a torcida terá paciência..

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