
O feito da Zâmbia na CAN 2012 é indissociável da figura do seu treinador (um modelo a seguir). Um país com muito menos recursos (conjunto maioritariamente composto por jogadores a actuar em África) que, por exemplo, Gana e Costa do Marfim (duas nações que ultrapassou), conseguiu vencer a mais importante prova de selecções do continente africano (com justiça, diga-se), com uma equipa moldada à imagem de Hervé Renard, que é nesta altura o herói nacional.
O “Feiticeiro Loiro”, como é apelidado, fez um trabalho absolutamente fantástico, a todos os níveis. Um disciplinador nato, conseguiu incutir essa mentalidade nos zambianos que parecem respeitar imenso o seu treinador (um jogador foi expulso por ter chegado tarde dos festejos depois do apuramento para os quartos de final). Em termos tácticos, trabalhou bastante bem a equipa: muito rigor defensivo (bloco compacto e agressividade na recuperação), a organização ofensiva (grande variabilidade de soluções, atacando principalmente pelos laterais, obrigando a movimentos interiores dos extremos, à procura de combinar com Mayuka e criar desequilíbrios), as transições (muita rapidez na saída para o contra ataque, arma pela qual raramente se deixaram bater), as bolas paradas (cantos curtos para baralhar as marcações, ao primeiro poste, bola atrasada para o remate de elementos vindos de trás…), tudo pareceu planeado ao pormenor por Hervé Renard, adepto de futebol atractivo (tendo sempre em conta o que mais interessa à equipa). Ele que é um perfeccionista, mantinha-se muito activo no banco de suplentes, “berrando” com os seus jogadores, corrigindo posicionamentos e dando-lhes motivação, revelando igualmente uma óptima leitura de jogo.
Ao nível do discurso, é também exímio, adoptando os “mind-games” que caracterizam os técnicos modernos. Assume uma postura humilde, demonstrando ao mesmo tempo grande confiança nos seus comandados. Proferiu frases como “É o jogo mais importante das nossas vidas” ou “Vamos lavar os nossos equipamentos com o suor”, exigindo o máximo dos seus jogadores e fortalecendo o espírito de grupo. Para a final, de modo a retirar pressão dos zambianos, afirmou que “é um jogo normal, mas queremos ganhar”.
Um técnico que acredita que o sucesso está na mente, e que apenas com ambição e determinação se pode alcançar os objectivos. Podemos salientar Chris Katongo. Um jogador que, aos 29 anos, joga na China e teve uma carreira discreta, foi um dos destaques da prova. Como se explica? Provavelmente, o facto de ser capitão deu-lhe uma responsabilidade acrescida, uma influência sobre a restante equipa, que o terá motivado e potenciado as suas qualidades.
Como curiosidade, acrescentar que o francês assiste a todos os jogos com a mesma camisa – num país com tantas crenças religiosas (na final, durante os penaltis, os jogadores estavam de joelhos a cantar), nada melhor que algumas superstições, para entrar no espírito…
Hervé Renard tem as características essenciais que um treinador deve ter. Poderá este brilharete com a Zâmbia levá-lo para outro patamar, nomeadamente ao serviço de um clube? Ou continuará ao serviço do país africano (de destacar a gratidão que demonstrou para com o presidente da federação, que apostou nele)? Esta é a prova de que com trabalho (de forma competente, nomeadamente da parte do treinador) e crença as equipas podem conseguir objectivos que à partida parecem inacessíveis e bater o pé aos mais fortes?