As generalizações são sempre perigosas, bem como os rótulos. No futebol a procura incessante pelo novo Ronaldo ou pelo novo Messi parece não ter fim.Em tempos, também Freddy Adu tinha sido considerado o novo Pelé, e todos sabemos o que acabou por acontecer.
Outro universo onde abundam os estereótipos, os rótulos e as generalizações, é na música. Como soa a tua banda? – É um misto de Led Zeppelin com Metallica, juntamente com uma boa dose de pretensiosismo e outra de aldrabice…
Da mesma forma, no fervilhante universo musical britânico também os Coldplay quando o single “Yellow” atingiu as playlists foram rapidamente rotulados como os novos Radiohead (nesta altura é melhor terminar com as comparações, não vá o leitor sentir-se tentado a ver o novo home vídeo do Valbuena com banda sonora da Ana Malhoa…)
De volta ao futebol, se há país onde a própria cultura não é afecta a generalizações é a Alemanha. A meritocracia é um conceito fundamentado em terras teutónicas, mas nem por isso deixou de ser na Alemanha que uma das comparações mais difíceis para um profissional de futebol, tomaram forma. O episódio contudo, é uma das histórias mais apaixonantes da época 2015/2016.
Em Hoffenheim, mora uma daquelas equipas que desde que chegou à Bundesliga, toda a gente admira. Pequeno clube de uma pequena vila alemã, o Hoffenheim teve uma ascensão sustentada, um projecto desportivo muito bem delineado, e foi sempre capaz de formar equipas com jogadores de qualidade superior e de praticar futebol muito acima da média. Esta época, as ambições do Hoffenheim passavam novamente por disputar um lugar na primeira metade da tabela, e nomes como o prolífico avançado Kevin Volland e o cobiçado central Fabian Schar deixavam antever isso mesmo. Mas não foi isso que aconteceu, e o Hoffenheim na viragem da segunda volta definhava no último lugar da tabela, e já Markus Gisdol havia dado o lugar a Huub Stevens.
Entre o reinado dos dois técnicos, o Hoffenheim tinha somado apenas 2 vitórias, e 13 pontos…
Em Fevereiro, Huub Stevens alegou problemas cardíacos, e o Hoffenheim resolveu surpreender e entregou a equipa ao jovem Julian Nageslmann, de apenas 28 anos, que antes mesmo de assumir a equipa para o seu primeiro jogo, já havia batido um recorde. O mais novo técnico da Bundesliga de sempre. Até os calculistas e frios alemães olharam para isto com entusiasmo e rotularam o novo técnico de “Baby Mourinho”.
Nagelsmann, viu uma lesão no joelho terminar-lhe a carreira ainda em idade de júnior, jogava ele no Augsburg. Ainda não refeito da desilusão, o jovem decidiu abandonar o futebol e tirar o curso de Ciências do Desporto, mas pouco depois o bichinho falou mais alto e Nagelsmann regressaria a Augsburg para a sua primeira experiência numa equipa técnica de futebol. Trabalhou ao lado do seu grande mentor, Thomas Tuchel actual treinador do Dortmund, saindo pouco mais tarde para os escalões de formação do Hoffenheim, onde orientou os S16 e os S19.
Tendo Tuchel, Guardiola e Wenger como referências, cedo se percebeu em Hoffenheim que o jovem Nageslmann não estava ali para passar o tempo, e nos seus dois primeiros anos como técnico dos juniores levou o Hoffenheim a duas decisões do título, ganhando em 2014.
Os directores do clube souberam que tinham nos seus quadros alguém especial, e antes mesmo de Hubb Stevens abandonar o comando técnico, já Nagelsmann sabia que iria orientar a equipa principal em 2016/2017, muito provavelmente na 2. Bundesliga…
Agora que faltam apenas 2 jornadas para o fim da Bundesliga, o Hoffenheim está praticamente a salvo. Com Nagelsmann ao comando, os azuis conseguiram 7 vitórias, e em 36 pontos possíveis desde que assumiu a equipa, Nageslmann conseguiu 23.
O segredo? O discurso.
Nagelsmann inflamou de tal forma o cabisbaixo balneário do Hoffenheim, que aquele grupo de talentosos jogadores do início da época, voltou a acreditar nas suas potencialidades e partiu em busca do milagre.
Jogando futebol em todo o campo, assente numa incrível pressão alta ainda no meio campo adversário, Nageslmann lançou para a equipa dois jovens que ele conhecia bem, com efeitos devastadores. O criativo Nadiem Amiri e o extremo Phillip Ochs explodiram durante o reinado de Nagelsmann, mas os pesos pesados do plantel reapareceram novamente. Volland marcou 8 golos em 8 jogos, Sule e Schar formaram um dupla de centrais fortíssima, com Jeremy Toljan em grande destaque na esquerda, e Sebastian Rudy é peça fundamental nos equilíbrios defensivos sendo a âncora que permite à equipa jogar sempre num ritmo elevado e em pressão constantes. Também os avançados Mark Uth e Andrej Kramaric reencontraram o sorriso e começaram a contribuir no plano ofensivo.
Com a manutenção praticamente assegurada, a história de Nagelsmann e do Hoffenheim será das mais interessantes de seguir em 2016/2017.
O futuro parece promissor, mas ainda é cedo para perceber se Nagelsmann fará jus ao epíteto de “Baby Mourinho”. Contudo, para já, em Hoffenheim toda a gente acredita que Julian é pelo menos um Thom Yorke nos Coldplay.
Visão do Leitor (perceba melhor como pode colaborar com o VM aqui!): Flávio Trindade



0 Comentários
Anónimo
Excelente texto, deu gosto ler! Parabéns!
TC
Diogo Palma
Para mim um treinador (e respectiva equipa técnica) mais do trabalhar as tácticas, dinâmicas de jogo, preparação física, etc tem de começar por dar uma injecção de motivação aos seus jogadores.
"Mente sana, corpo sano".
João Magalhães
A fazer lembrar as declarações do professor Rui Vitória no início da época.
João
Por falar em treinadores alemães, vi que o Everton pretende o Low… o que a concretizar-se vai fazer da próxima Premier League a cena mais espectacular de sempre.
cards
Parabéns pelo texto
Rui Miguel Ribeiro
Belo texto e história muito interessante. Parabéns!
Enak
Uma das minhas equipas favoritas na Alemanha, tenho-os admirado muito ao longo dos últimos anos e fico satisfeito que se safam de voltar à 2Bundesliga.
Mesmo desde os tempos com Markus Gisdol no comando, sempre admirei a equipa, apesar de, nessa altura, jogar um futebol de tudo ou nada (tanto a nível de golos marcados como sofridos foi uma média superior a 2 golos marcados/sofridos por jogo). E, tal como Nagelsmann, Gisdol fez uma recuperação notável do Hoffenheim, ainda que Gisdol, na minha opinião tenha tido uma trabalho muito mais meritório e explico porquê: Gisdol entra na equipa em inícios de Abril (Até à jornada 27, ocupava o penúltimo lugar a já 9 pontos da salvação, sendo um dos piores ataques [23 golos] e uma das equipas que menos vencia [5 jogos apenas]). Ora, em 7 jornadas, a equipa conseguiu amealhar cerca de metade do total de pontos que havia feito até à 27ª jornada. A equipa acabou por se "safar" no play-off frente ao Kaiserslautern. No ano seguinte a equipa praticou um futebol de excelência e terminou na 8ª posição, a 2ª melhor na história do clube na Bundesliga.
Tudo isto dito apenas para realçar a fantástica história recente da equipa, que ajudou a lançar treinadores jovens rumo ao sucesso, o que sucede mais uma vez com Nangelsmann, tal como sucedeu com Gisdol (que apesar do insucesso na temporada actual na equipa, provou ser um treinador com mentalidade e capacidade futebolística).
Para terminar apenas dizer que adorava ver o Hoffenheim a conseguir alcançar a qualificação europeia proximamente, quem sabe já na próxima época.
Anónimo
bom texto, boas comparações!
kane
Kacal I
Excelente texto, Flávio Trindade!
Quanto ao Hoffenheim, basta olhar para os nomes falados para ver que talento e potencial não falta no plantel mas o treinador é parte fundamental de uma equipa e é preciso, além da capacidade, ser um motivador e às vezes ter um pouco de génio, aí entra o Nagelsmann e fez realmente um excelente trabalho assumindo a equipa num mau momento e levando a uma recuperação fantástica, tem tudo para ser um grande treinador e já é muito bom, acredito que na próxima época poderão fazer uma época tranquila.
Rodolfo Trindade
Excelente texto Flávio, já aguardava um texto sobre esta "história" a algum tempo.
À semelhança do Leicester mas obviamente com um impacto diferente é para mim uma das histórias do ano.
Este ano a manutenção já não deve fugir, o interessante agora será perceber como é que será o trabalho de Nageslmann pegando na equipa de "raiz".
Estou curioso para ver como será a sua abordagem ao mercado.
Kafka I
Grande Post Flávio
André Dias
Que qualidade de texto. Parabéns, Flávio.
Zé
Pequeno clube de uma pequena vila alemã mas que é propriedade de um multi-bilionário (com B – um B muuuuuito grande – tipo 7 Biliões grande) que pegou no clube na 4 divisão, jogou FM da vida real, pagou toda a infraestrutura, campos de treino, academia e tudo o resto e levou o clube à 1 liga e contruiu um estádio maior que o Wolfsburgo e Leverkusen, por exemplo.
De valor é o Ingolstad, com estádio para 10 ou 15 mil pessoas, com 1/5 do orçamento do Hoffenheim e já está garantido para 2017!
Schmeichel
Ver um home vídeo do Valbuena com banda sonora da Ana Malhoa, ou ver um home vídeo da Ana Malhoa com banda sonora do Valbuena, não sei qual será pior!
Mas o Thom Yorke era gajo para por os Coldplay a debitar música decente, como o Nagelsmann fez com o Hoffenheim.
José S.
Não tendo qualquer empatia pelo clube (assim como quase nenhuma por qualquer clube alemão, excepção talvez ao Dortmund), será deveras interessante seguir o Hoffenheim na próxima época.
Histórias (reais) de esforço e dedicação são sempre bem vindas e devemos todos aprender com elas. O leicester que o diga.
Cumps
Scheiß
Bom texto Flávio, parabéns, oxalá existisse, também, essa meritocracia em Portugal.