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O verdadeiro benfiquista

Há um debate em crescendo que mede a força do benfiquismo pela bitola da verdade, uma dimensão metafísica onde não entra qualquer um sem antes ultrapassar os limites da insanidade nos testes à paixão.

“Verdadeiro Benfiquista” é já uma categoria patenteada quer nas redes sociais, onde se medem tamanhos, quer em canecas, t-shirts, flyers, bonés e cachecóis, que distinguem a classe dos legitimados da dos meros aspirantes, outrora “simpatizantes”.

Hoje, Rui Costa, o jogador-presidente, é o comandante desse estado maior em que se acotovelam os pretendentes ao reconhecimento. Começou como apanha-bolas como aqueles serventes de pedreiro que chegam a construtores de arranha-céus e senta-se agora no trono dos deuses encarnados, tentando viver como dirigente o que perdeu como jogador.

À beira de conquistar o seu primeiro titulo ao fim de quase quatro anos de fastio, Rui Costa tem-se destacado pela recuperação de figuras desportivas do clube, talvez o maior rasgo da sua gestão ultraconservadora, a par da escolha cirúrgica do treinador Roger Schmidt. Ele desenvolveu, com sabedoria empírica, o padrão métrico que diferencia os “verdadeiros” dos outros, com o mesmo rigor taxativo com que me disse uma vez “você não é do Benfica!”

Na tribuna da Luz, por onde há pouco tempo circulavam ministros, juizes, amanuenses e outras figurinhas e figurões, vemos hoje os cabelos brancos e o sereno orgulho dos ídolos de outras décadas, segundo o princípio da gratidão pelo que fizeram pelo clube e não do interesse pelo que o clube pode fazer por eles. A demanda pelo “verdadeiro benfiquismo”, visceral e acrítico, está latente na entrevista a A Bola de ontem de António Pacheco, um dos “traidores” do verão quente de 1993 que marcou a derrocada de quarenta anos de hegemonia, na qual se queixa amargurado pelo anátema de ter saído do clube, sentindo injustiça na comparação com tantos outros que foram e voltaram, depois dele, como o próprio Rui Costa.

“Não há um dia que não me apareça alguém a lembrar a minha decisão de trocar o Benfica pelo Sporting”, diz Pacheco, para quem essa teria sido uma mera decisão profissional tão legítima como a de quem trocou o histórico clube mundial pela modesta Fiorentina. Apesar da indulgência do atual presidente e antigo colega de balneário, o algarvio que se consola com os esporádicos convites para a Luz nunca será um “verdadeiro benfiquista” aos olhos dos que, neste louco ensaio sobre a cegueira vermelha, vêem Rui Costa como o paradigma dos seis milhões. Pacheco não mereceu o regresso a tempo de uma reforma dourada que transformou o príncipe de Luís Filipe Vieira, esse falso benfiquista, num herdeiro predestinado da arte mágica de tocar virtualmente com o seu mítico bordão no ombro dos que merecem passar de adeptos anónimos a insignes cavaleiros da ordem SLB.

Uma enorme diferença, uma soberba transformação, uma fantástica ilusão!

Mas o que distinguiu o verdadeiro benfiquismo deste insano revivalismo existencial dos nossos dias foram os anos em que o desvario dos dirigentes e o acórdão Bosman ditaram a incapacidade de o Benfica continuar a reter os melhores jogadores nos seus melhores anos, o real segredo da mística de “verdade”, dos Eusébios e Simões, dos Tonis e Nenés – porque não há Terceiro Anel em Florença, nem em Milão, nem em Barcelona, nem em Manchester.

É este o “verdadeiro” desafio que se coloca ao líder benfiquista, o de transformar uma conjuntura favorável numa estrutura estável: manter no plantel os jogadores que fazem a diferença, desportiva e emocional, com a mesma convicção e espírito identitário com que vai preenchendo, magnânimo até para os Pachecos arrependidos, as poltronas da sua corte.

João Querido Manha

VM-Desporto
Author: VM-Desporto

7 Comentários

  • Antonio Clismo
    Posted Maio 15, 2023 at 12:25 pm

    Não há dúvidas de que o Rui Costa é um verdadeiro benfiquista.

    Mas também não há dúvidas de que é apenas um fantoche de quem o colocou lá para esta direção de continuidade após os crimes qe foram cometidos nas últimas décadas à frente do clube.

    O escrutínio no futebol é quase nulo… e quando há vitórias, então aí é que o escrutínio passa a ser ZERO.

  • Big Lebowski
    Posted Maio 13, 2023 at 10:20 pm

    Ele pode ser um verdadeiro benfiquista, mas também é verdadeiro dizer-se que foi o braço direito do Vieira durante anos… E às vezes o braço armado nos túneis e afins.

  • Elvaspatrimoniomundial
    Posted Maio 13, 2023 at 4:36 pm

    Para quem se lembra do verão quente de 1993, e eu lembro me bem tinha 16 anos na altura, a diferença entre o Rui Costa e o Pacheco foi que o Pacheco decidiu rescindir com o SLB , supostamente com justa causa por salários em atraso e ir para o Sporting, anos depois o Santana Lopes foi obrigado em tribunal a pagar por ele e pelo P. Sousa ao SLB, porque não havia justa causa. Por sua vez o Rui Costa no ano seguinte teve uma proposta do Barcelona mas preferiu ir para a Fiorentina para o SLB receber mais dinheiro.
    Por mim o Pacheco e P. Sousa nunca seriam convidados para coisa nenhuma no Benfica!

    • Redcap
      Posted Maio 14, 2023 at 7:14 pm

      Não querendo defender o Pacheco, a situação dele também não é igual à do Paulo Sousa e também me parece que podia ser perdoado, afinal também defendeu e bem a nossa camisola.
      Quanto ao presidente, é óbvio que este passado recente e sombrio nas costas do megalómano não é favorável mas é muito bom ver o devido reconhecimento às nossas glórias, enche-me o coração vê-los nas bancadas junto de nós adeptos, o Benfica é isto, devia ter sido e devia ser sempre isto.

    • Cossery
      Posted Maio 13, 2023 at 9:49 pm

      Exactamente, pôr as duas situações no mesmo plano é absurdo. O Pacheco, ao contrário do JVP, não foi escorraçado do Benfica, forçou ilegalmente a saída para ir jogar no maior rival, fico muito contente em saber que todos os dias o lembram disso. Sim, o Rui Costa saiu para um clube menor, mas fê-lo para ajudar o clube e se calhar perdeu a oportunidade de um dia ganhar uma bola de ouro por causa disso. Além disso, nunca jogou num rival. Não confundam as coisas, podemos nao gostar do Rui Costa por muitas razões, pessoais ou outras quais, agora compará-lo ao nível de benfiquismo com o Pacheco?!? Por amor da santa…

  • Knox_oTal
    Posted Maio 13, 2023 at 1:05 pm

    Tendo a concordar com a reflexão! Aliás outro título adaptado seria o Reino Benfiquista do Falso Profeta!

    Rui Costa: grande jogador, uma lenda, um ídolo; um dirigente sem coragem e oportunista; uma pessoa, pelo menos a pública, hipócrita (como tantos no futebol português) e de caráter duvidoso! Enfim, é o que há e o que os benfiquistas quiseram!

    O que vale é que uma ida ao Marquês vale, de longe aparentemente, a falta de dignidade, ética e transparência! O grande mantra do futebol português: valem todos os meios e a qualquer custo para atingir os fins… desde que se possa usar o argumento “o teu ainda é pior que o meu” ou “os outros também fazem” obviamente! E os valores… que valores?!? O dos relatórios de contas embelezados?!? Ou daqueles momentos abstratos e dramaticamente vazios em que se bate com a mão no peito e se invoca a Mística?!?

    Enfim… na Luz trocaram um “ditador megalomaníaco” por um “falso profeta”! É tentar ver o copo meio cheio… E muita gente consegue, bem hajam!!!

    Saudações desportivas

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