Durante os últimos tempos de Ruben Amorim à frente do Manchester United, uma das principais críticas ao seu trabalho incidiu na forma como pareceu desvalorizar a formação do clube, mesmo perante uma longa lista de indisponíveis na equipa principal. Numa dessas ocasiões, o treinador português foi mais longe nas explicações, deixando recados públicos aos jovens da academia, questionando a sua dedicação e até um certo sentimento de privilégio de quem cresce num dos maiores emblemas do futebol mundial.
Foi neste cenário que começaram a ganhar espaço dois nomes: Jack e Tyler Fletcher. Filhos do antigo internacional escocês Darren Fletcher e de Hayley Grice, natural de Greater Manchester, os dois gémeos nasceram em Manchester e cresceram com a possibilidade de representar tanto a Inglaterra como a Escócia.
A ligação ao Manchester United, porém, não foi imediata. Ambos começaram a formação no Manchester City e só em 2023 regressaram ao clube onde o seu pai se notabilizou, por um valor de 1,25 milhões de libras. Tinham então 16 anos e já neles era reconhecido um interessante potencial.
Apesar de gémeos, desde cedo as diferenças se tornaram evidentes. Jack, canhoto e mais ofensivo, destacou-se pela criatividade, visão de jogo e qualidade no último terço. Tyler, destro e mais posicional, afirmou-se como um médio de equilíbrio, com boa leitura de jogo e ocupação dos espaços à frente da linha defensiva.
Foi também Jack quem começou por ganhar mais atenção. Presença habitual nas seleções jovens inglesas, integrou a equipa que disputou o Europeu de Sub-17 em 2024, no qual surgiu com a emblemática camisola 7 dos Três Leões. Nessa geração, partilhou balneário com Chris Rigg, Shumaira Mheuka, Ethan Nwaneri ou Mikey Moore, protagonistas de uma seleção que recentemente goleou Portugal por 6-0 em Braga.
Do outro lado, Tyler construiu o seu percurso de forma mais discreta, mas consistente. Optou pela Escócia e foi subindo nas seleções jovens, chegando a capitão dos sub-19. Em março deste ano, estreou-se pelos sub-21, curiosamente frente a Portugal, ainda em idade júnior, sinal claro da confiança da federação escocesa.
Ao longo do caminho, os dois não só partilharam balneário como também se encontraram em campo como adversários. A primeira vez aconteceu num Inglaterra-Escócia de sub-16, em que ambos foram titulares. Mais recentemente, em novembro, na qualificação para o Europeu de Sub-19, a Inglaterra venceu por 4-0, com Jack a marcar e Tyler a capitão da Escócia.
Curiosamente, ambos acabaram por chegar à equipa principal do Manchester United num curto espaço de tempo. Jack estreou-se em dezembro, lançado por Ruben Amorim, confirmando o estatuto de maior talento da dupla. Tyler seguiu o mesmo caminho mais tarde, já sob o comando de Michael Carrick.
A partir daí, o percurso internacional acabou por inverter expectativas. Uma lesão de última hora de Billy Gilmour abriu espaço na convocatória da Escócia para o Mundial e Steve Clarke não hesitou em chamar Tyler, que se estreou no último sábado frente a Curaçao, tornando-se internacional A, a escassos dias da fase final da competição.
Jack, por sua vez, continua a enfrentar um caminho mais exigente nas seleções inglesas. Internacional sub-19, tem enfrentado concorrência feroz e chegou mesmo a ser utilizado como lateral esquerdo para tentar encontrar espaço numa das gerações mais talentosas que Inglaterra produziu nos últimos anos.
No futebol, nem sempre os percursos são lineares. E os gémeos Fletcher são mais um desses exemplos: enquanto Jack continua a lutar por espaço num contexto de enorme concorrência, Tyler, com um percurso mais discreto, acabou por chegar primeiro ao maior palco do futebol mundial.
João Lains


5 Comentários
ManuelFAlbuquerque_
Hey falo por mim, nunca critiquei Amorim por não usar os jovens, até porque não seriam eles a salvar os 3 centrais do treinador.
O problema de Amorim foi aquilo que eu tinha certeza quase absoluta que iria acontecer, obviamente o facto de só usar os 3 centrais.
O que fiz notar foi a ausência dessa narrativa da aposta nos jovens porque é uma conversa repetida vezes e vezes em muitos clubes especialmente quando os treinadores não são do agrado das pessoas. Quando o treinador é um Amorim da vida, aí já são necessários uns 758 milhões só na janela de inverno.
No United não vejo a aposta na juventude como algo importante neste momento, neste momento quero que a equipa tenha um modelo sólido, com jogadores já com anos de casa e pouco a pouco os mais jovens vão ganhando minutos.
Obviamente não acho Mainoo o jogador ideal para o 11 mas foi importante para libertar Bruno Fernandes. O que se viu foi muito óbvio para toda a gente.
Quero em primeiro lugar um 11 bastante sólido porque Champions + competições internas dão uma época infernal e claramente a exigência vai subir imenso até porque se levarmos tareias os jogadores podem sofrer animicamente.
Kacal
Que posições reforçavas este Verão? E que perfis para elas? Mainoo mantém-se como aposta a titular a #8? Arranjar um PL de topo ou apostar mais em Sesko? Manter o Bruno na posição e função que tem feito é o caminho a seguir natural, mas e o resto? Tenho a minha opinião mas como ambos simpatizantes do Man Utd (não sei se és adepto, mas eu pelo menos sou simpatizante), gostaria de saber a tua opinião!
FrunoBernandes
Que bom voltar a ler um texto do João! Bem vindo de volta e não te ausentes por tanto tempo!
Kacal
Juro que entendo a tua não preferência digamos assim pelo Amorim, assim como muitas das críticas que lhe fizeste. Ele falhou em ter apenas um plano B e também na maneira como geriu Mainoo. Concordo contigo nisso Manuel!
Agora nem tudo foi mau e eu gostava de saber qual foi a diferença abismal em termos de resultados que houve do Man Utd de Amorim para o de Carrick. Quando vemos a fundo a realidade reparamos que quando Amorim foi despedido estava em 6º lugar mas empatado com o 5º e a 3 pontos do 3º lugar! Teve 3 jogos sem o Bruno Fernandes antes de ser despedido em que quem sabe podia ter vencido Wolves e Leeds onde empatou e estaria em 3º. Quem sabe.
E o Bruno Fernandes com Carrick fez 17 jogos na Premier e somou 12 assistências e 4 golos. Com Amorim fez 16 jogos na Premier e somou 7 assistências e 5 golos. Mas mesmo com Fletcher em 2 jogos somou 2 assistências. Isto para dizer que a diferença não é abismal, melhorou um pouco mas nada nos garante que ele com Amorim não somaria muitas assistências até ao fim da época. Só podemos supor. Mas isto demonstra que é a qualidade dele que faz diferença também porque somou assistências com os 3 treinadores. E não esquecer que Amorim teve 3 jogos sem o Bruno antes de sair por lesão, quem sabe com ele até estaria dentro do top4 antes de ser despedido. Aliás, se ele não tem sido tão casmurro com Mainoo e tivesse apostado mais nele e metido o Bruno Fernandes exclusivamente no duo atrás do avançado no seu sistema, se calhar até teria um caminho semelhante a Carrick. E nada nos garante que Carrick começando a época de inicio faria o que fez. É tanta suposição que não vale a pena ir por aí. Mas facto é que o United acabou em 3º lugar e o Bruno Fernandes com 21 assistências e 9 golos na Premier e com Mainoo a ter alguma afirmação. Com Amorim estavam a 3 pontos do 3º lugar e Bruno Fernandes tinha 7 assistências e 5 golos mas ele teve lesionado os três jogos que antecederam o despedimento do Amorim e o Mainoo não foi aposta e devia ter sido. Os factos são estes. Isto para dizer que embora concorde com os pontos que disse da tua opinião e dou-te essa razão! A diferença em resultado prático não foi tão abismal como tentam fazer crer. O trabalho de Amorim exclusivamente na Premier esta época não estava a ser mau e podia ter corrido bem, quem sabe. E Carrick teve mérito e mereceu a oportunidade que terá na nova época de continuar, mas teremos que aguardar e ver se fazendo um mercado e começando de inicio por si apenas se a coisa se mantém bem ou não e se mostra realmente à altura do cargo, além de haver Champions que dará outro desgaste e peso. Mas torço que corra bem, não lhe desejo mal e sou simpatizante do United, quero o sucesso! Amorim pecou alguns pontos e acabou por não se mostrar totalmente à altura e preparado, mas também não façamos do seu trabalho uma desgraça e do Carrick um milagre!
Kacal
Este comentário é em resposta ao ManuelFAlburquerque_!