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Os dias da calma (?)

Deixei passar, propositadamente, algum tempo após o anúncio da saída de Zidane do comando do Real Madrid. A análise das reações era o que me interessava. Esperava que não houvesse qualquer tipo de alvoroço em relação a este tema, e a verdade é que tal se confirmou, pelo menos numa fase inicial.

Zidane saiu da mesma forma como entrou: calmamente. Esta tem sido a forma de estar do clube nos últimos anos. Para encontrar um Real Madrid gerido sobre ferro e fogo é necessário recuar ao tempo em que José Mourinho frequentou a capital espanhola. O português, à sua costumada maneira, provocou divisões insustentáveis no balneário. O choque de egos era inevitável, já que o clube provavelmente nunca tinha contratado um treinador tão mediático e conflituoso. Mas estas feridas foram saradas com Ancelotti. Conhecido como um grande gestor de egos, o italiano aproveitou a estabilidade que o antecessor conseguiu criar nas campanhas da Liga dos Campeões para dar a tão aguardada “decima” aos adeptos. Depois da saída do italiano e da breve passagem falhada de Rafa Benítez, surge Zidane.

Considero o francês um treinador muito parecido com Ancelotti, embora sem a sua experiência. Ele, um resistente dos loucos anos dos galácticos, soube gerir os egos de um balneário com um discurso extremamente sereno, sem nunca entrar em polémicas. A experiência dos anos dos “Zidanes e Pavones” fê-lo perceber que o caminho da harmonia era o correto para que os resultados aparecessem, já que a qualidade futebolística do elenco era mais que suficiente para alcançar vitórias. E elas aconteceram: três Ligas dos Campeões consecutivas e um Campeonato (entre outros troféus) em dois anos e meio. E desengane-se quem disser que estas foram conquistadas ao acaso. Zidane foi um elemento fulcral neste desempenho.

Muitas das críticas dirigidas ao francês têm a ver com a suposta falta de qualidade na definição de um modelo de jogo. Nem todos podem ser revolucionários, como foram Cruyff, Sacchi ou Guardiola, só para citar alguns nomes. À luz desta premissa, é fácil notar que Zidane não reinventou o futebol, mas não se pode cair no extremo oposto da falta de qualidade no aspeto tático. O técnico teve muito mérito no papel que atribuiu a Casemiro e na forma de atacar dos laterais, por exemplo. Soube arranjar soluções para a falta de Bale, colocando Ronaldo e Benzema como pontas de lança apoiados por Isco. Quando este esquema falhou colocou em jogo Asensio e Lucas Vázquez para que a equipa explorasse o jogo exterior e os laterais não ficassem tão desprotegidos. Esta pode não ser a vertente mais recordada do seu consulado, mas é uma completa mentira que Zidane seja fraco tacticamente.

Falando agora da sua vertente mais forte, a gestão, é necessário olhar para o paradigmático exemplo do campeonato vencido em 2016/2017. O plantel era excepcional em termos de qualidade futebolística. Ter no banco Isco, James, Pepe ou Morata é um luxo a que poucos clubes se podem dar. Só que, mesmo passando muito tempo no banco, conseguiram somar imensos minutos. A política de rotatividade que Zidane impôs fez com que se disfarçassem os problemas de motivação que a equipa sentia ao jogar no campeonato doméstico e com que os jogadores chegassem fisicamente mais frescos aos momentos decisivos da época. O Real Madrid ofereceu-lhe ferramentas, mas Zidane usou-as como poucos. E isso tornou-o um vencedor. Merci, Zizou, por nos mostrares que o discurso e a postura da tranquilidade, aliados ao conhecimento, conseguem traduzir-se em troféus.

Venha agora Lopetegui. É uma escolha surpreendente, principalmente do ponto de vista do adepto português, que o recorda pela sua estadia no F. C. Porto, mas a verdade é que é um técnico bastante apreciado no país vizinho, em boa parte devido ao bom trabalho realizado nas seleções jovens. Contudo, chega já envolto em polémica: o anúncio do Real Madrid foi feito dois dias antes de o Mundial começar e, consequentemente, foi destituído do cargo de selecionador, sendo substituído por Fernando Hierro. Tentando não alimentar a controvérsia, a verdade é que se o Mundial não corre de feição à Espanha, o basco vai já entrar muito pressionado no Real Madrid. E este não é um clube fácil. Muitos bons treinadores falharam naquele banco e não foi por falta de qualidade. Há sempre uma vontade imensa de ganhar a mais prestigiada competição de clubes, já para não falar do quão difícil é manter o balneário motivado e feliz.

Futebolisticamente falando, é uma opção estranha, na medida em que Lopetegui propõe um estilo de posse, contrário ao do clube dos últimos anos, baseado na verticalidade e na colocação rápida da bola na frente. Não é um treinador de ideias fixas, como Guardiola, e o plantel que tem à disposição conseguirá satisfazê-lo, já que é, na sua maioria, bastante versátil e capaz de se adaptar a modelos do género. Não deverá ser por aqui que vai falhar. Por outro lado, há também imensa juventude que poderá potenciar, em consonância com o trabalho que fez nas seleções e no F. C. Porto.

O período de calma que Zidane instalou no clube poderá estar próximo do fim. Lopetegui veio trazer o ruído que o clube tem vindo a conhecer apenas com as vitórias. Caso falhe, não tem o suporte de uma grande carreira como jogador ou como treinador para se reerguer. E o Real Madrid não quererá saber – é maior do que tudo isso.

Visão do Leitor (perceba melhor como pode colaborar no VM aqui!): Rui Teixeira

VM
Author: VM

7 Comentários

  • SenyorPuyol
    Posted Junho 13, 2018 at 11:48 pm

    Bom texto e boa análise. Vai ser, de facto, interessante ver o que acontecerá por Madrid este verão e na próxima época, ver como Lopetegui herdará o legado de Zidane.

    Apenas um reparo, Zidane fraco tecnicamente não é uma “completa mentira”, aceito que se discorde com quem diga isso (como eu), mas se não for inegável então a “mentira” não é completa.
    A forma como atacam os laterais não é nada de especial, os laterais que o fazem é que são especiais, principalmente o esquerdo, que é único na sua posição.
    Saber usar Asensio e Lucas é qualidade técnica e isso Zidane tem de sobra, o melhor exemplo é a gestão de cansaço e de momentos de forma.
    Agora, resumir a sua capacidade táctica ao papel de Casemiro e a colocar Isco na sua posição é escasso, na minha opinião claro.

    Ainda assim, parabéns pelo texto, pela opinião bem sustentada e por ajudar a alimentar este espaço com bom material de debate e análise.

    • Pedro Almeida
      Posted Junho 14, 2018 at 1:20 am

      É difícil dizer que estilo de jogo o Real porque eles adaptam-se a cada jogo que passa pela qualidade e versatilidade dos jogadores mas fazer isso também é difícil, é quase como dar as rédeas da partida por completo aos jogadores( o Mourinho também parece que quer fazer isso mas não está a conseguir, também é preciso os melhores para o executar).
      Acho que o Zidane pecou principalmente na forma como não incutiu mais disciplina táctica a defender, tudo bem que um ou outro jogador pode não defender tanto mas quando tens um meio campo que é uma passadeira vermelha para os adversários a coisa é preocupante.
      O que tem valido mesmo defensivamente é os centrais que o Real tem tido( um bom exemplo é a primeira parte do jogo contra Juve na primeira mão, o Dybala já se estava a passar com aquilo xD ) e aí valorizo bastante o trabalho do Ramos que apesar de ser um porco de primeira, se não fosse ele muitas das vezes o Real não se safava e falei dele primeiro porque é o melhor do Mundo, mas o Varane e antes Pepe também fizeram esse trabalho muito bem e o Navas em forma é uma besta na baliza.

      • SenyorPuyol
        Posted Junho 14, 2018 at 10:34 am

        Concordo com quase tudo, a única coisa que aponto no comentário é quando diz “quase como dar as rédeas da partida por completo aos jogadores”, no caso de Zidane não é “quase”, é mesmo isso que ele fazia ;)
        Zidane apenas aproveitou aquilo que a equipa já tinha automatizado, veja-se que o Real Madrid ainda joga com 7 titulares da final de 2014 com Ancelotti (Carvajal, Ramos, Varane, Modric, Bale, Benzema, Ronaldo), sendo que também Marcelo e Isco participaram em metade dessa final (entraram aos 60), as mudanças desde esse ano são Navas por Casillas, Casemiro por Khedira e Kroos por Di Maria (que na reta final dessa época desempenhava exactamente a função que agora é do alemão).
        Zidane não trouxe nada de novo, não trouxe sequer ideias, “apenas” a sua capacidade de harmonizar, motivar e gerir o balneário.
        Mesmo tacticamente, o único que introduziu foi o papel de Casemiro e poucos sabem explicar realmente o que é esse papel porque 70% do tempo, Casemiro era um terceiro médio, uma segunda linha ou um tampão, ou seja, um Makélélé, um jogador que se põe em campo a resguardar as estrelas e ele equilibra pela sua presença, o papel com dedo de Zidane apenas se via nos restantes 30% do tempo.

  • Slayer666
    Posted Junho 14, 2018 at 1:54 am

    Tudo o que não seja o seu despedimento antes do termino da época, neste momento, considerei como uma surpresa.

  • Alwaysright
    Posted Junho 14, 2018 at 8:53 am

    O texto está bem desenvolvido, mas eu e muitos outros sabemos bem o que uma equipa como o Real vale, e aquilo que mostrou.
    O Real sentia dificuldades a dominar as equipas mais fracas da Liga Espanhola, e contra as melhores equipas da Liga dos Campeões foi quase sempre dominado e ganhando essas eliminatórias da forma que se sabe, mas vai ser interessante comprovar quem é que tem razão quando o mesmo assumir outro projecto que tudo o que não seja um completo fracasso vai ser uma surpresa para mim.

  • DR
    Posted Junho 14, 2018 at 10:31 am

    Nestes dois anos e meio Zidane teve deméritos, teve condições que mais ninguém teve e teve sorte. Teve uma equipa com referências mundiais em todas a posições, juntamente com suplentes que seriam titulares em praticamente todas as equipas que defrontou, mesmo em fases adiantadas da Champions. Teve também a sorte de ver tantas e tantas vezes de ver o Real ser inferior aos seus adversários e mesmo assim, conseguir levá-los de vencida, devido a erros de arbitragem, a momentos de génio dos seus incríveis jogadores ou a pormenores que, invariavelmente, caíram sempre para o lado do Real.
    Não obstante a qualidade individual, as lacunas tácticas do Real foram demasiado evidentes, o jogo foi sempre previsível e a falta de uma ideia e de um modelo foi notória.
    Não obstante os troféus conquistados, este Real é incomparável ao Barcelona de Cruyff ou de Guardiola ou ao Milan de Sachi em termos de impacto histórico, e em termos qualitativos nem se fala. Zidane nem sequer foi melhor treinador que Sachi, Guardiola ou Allegri nestes últimos dois anos.
    Mas… E então?
    Li uma frase que descreve bem a passagem de Zidane pelo Real: foi o homem certo, no momento certo.
    Nunca se esperou que Zidane viesse revolucionar o futebol. Pedir-lhe que chegasse tão próximo da perfeição como treinador, como o fez enquanto jogador, era injusto. O que se lhe pedia que oferecesse era estabilidade, e foi isso mesmo que fez.
    A meu ver, o seu maior mérito, não foi inventar um papel para o Casemiro, nem a forma de atacar dos laterais, nem arranjar uma solução para a ausência de Bale, nem mesmo a gestão do balneário. Foi reconhecer do que esta equipa precisava e dar-lhe um rumo, e isso fez na perfeição.
    A mim não me encantou, mas reconheço que, provavelmente, nenhum outro treinador sairia do Real com três Champions consecutivas no bolso. Zidane foi o homem certo para o momento certo, e isso é o maior elogio que lhe posso dar.

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