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Os direitos dos tiranos

Diz-me o que invejas, dir-te-ei que espécie de Putin és.

Vivemos na era em que o exercício do poder – seja pela invasão de propriedade seja pela imposição da vontade de quem manda, devidamente legitimado por eleições e éticas republicanas – deriva invariavelmente para o totalitarismo.

Esta semana ouvi o diretor executivo da Liga Portugal declarar que a centralização dos direitos de televisão é um caso encerrado, cabendo à sua organização e à Federação tomarem conta da propriedade “devoluta” dos gigantes e distribui-la em tranches democráticas pelos pigmeus a fim de poderem todos viver felizes e competitivos.

A fórmula de distribuição milagrosa para cumprir o princípio de que ninguém ficará a perder é um mistério guardado nos gabinetes destes génios das quadraturas circulares que nasceram com o desígnio divino de por e dispor da vida dos outros. Intitulam-se democratas, porque terão ganho uma eleição em algum ponto dos seus percursos de tiranetes.

Tiago Madureira diz que a centralização não será feita à Robin dos Bosques, tirando aos ricos para dar aos pobres, uma vez que prevê um aumento de receitas globais, completamente irrealista, e que todos ficarão a ganhar. Este pensamento é extraordinário: numa actividade em que 15 por cento dos clubes detém 95 do mercado, que espécie de distribuição poderá ser feita sem que os grandes abdiquem de parte significativa das suas parcelas para salvar os pequenos? Só por solidariedade benemérita, uma espécie de “fair play” à força, completamente oposta aos princípios da competitividade desportiva e impaginável com a ética do desporto profissional, se pode conceber uma solução para este capricho de dirigentes cavalgando o poder das bases, como aprendizes de Infantinos. Não tarda estarão a decretar a proibição de ganhar por mais de dois golos de diferença ou a castigar com substituição forçada à Guardiola qualquer jogador que se arme em Erling Haaland a humilhar os mais desfavorecidos do talento.

Na perspectiva destes dirigentes há uma audiência excessiva de determinados clubes que devia ser encaminhada para os que a têm defeituosa – transferir as enchentes de entusiasmo da Luz para os velórios semanais das bancadas vazias do resto do país, cortar a largura de banda dos jogos do Benfica e colá-la ao “streaming” capilar do Portimonense.

Em nome da felicidade geral, um mirífico bem maior, nada como usurpar para resolver. Falta-nos o mar do sul, invade-se a Crimeia. Os impostos não cobrem uma velhice à francesa, sobe-se a idade das reformas. Não temos assoalhadas que cheguem, ocupa-se as do vizinho. O navio mete água, afoga-se a guarnição. Faltam-nos brioches, comemo-vos os papo-secos.

Seja qual for a fórmula de repartição de direitos televisivos em Portugal, o Benfica ficará sempre a perder e parece-me uma estratégia completamente errada tentar iludir e rodear esta condicionante, ao mesmo tempo que se protege e incentiva a “guerra dos cachecóis” que consiste em tentar esconder nas bancadas tingidas de vermelho a esmagadora popularidade do clube que nasceu pequeno, como qualquer outro, numa farmácia de Belém.

Enquanto não mexe uma palha pela melhoria do jogo, dos espectáculos, da verdade desportiva e com o país a descer no ranking europeu, preso pelos arames das conquistas pontuais dos mesmos de sempre, a Liga diz que serão os clubes a decidir a fórmula de distribuição, que será a maioria dos pequenos a decretar o tamanho das fatias dos grandes. Uma espécie de reforma agrária dos relvados, uns “direitos” assentes no ódio pelo sucesso alheio e na vertigem do enriquecimento súbito, que, como a História nos ensina, não deixará de descambar, por fim, em pobreza maior.

João Querido Manha

4 Comentários

  • offtopicguy93
    Posted Março 18, 2023 at 1:10 pm

    Há muito a dizer sobre este assunto, poderia vir aqui falar mal dos pequenos que querem ganhar mais ou dos grandes que recebem muito mas que semana sim semana não têm 15/20 mil pessoas no estádio (com sorte).
    Vou então fazer apenas um reparo e dar a minha opinião quanto à situação: referindo me aos pequenos, é totalmente legítimo que queiram receber um bocadinho mais, 4 ou 5 migalhas a mais por ano já davam um jeito enorme, contudo também não vejo dinamismo dos mesmos para tentarem mudar o futebol português, quer seja dentro do campo ou fora dele. Dentro do campo é sempre a mesma história, montar autocarros e jogar para o empate em 75% dos jogos… fora dele também não vejo uma melhoria nem estratégias para tentar, pelo menos, ter metade dos estádios cheios (1/3 que seja vá). Mais de metade dos estádios em Portugal têm capacidade para mais de 10 mil pessoas, e as médias de assistência de 80% dos clubes são de mil pessoas… não há muito mais a dizer! Metam os bilhetes a 2 euros, mais vale vender 10 mil a 2 euros do que 500 a 30 euros, tenho dito! Não há muitos anos éramos a sétimo maior mercado televisivo da Europa mas apenas o décimo em assistências, o que por si só já valorizava a liga de alguma forma, atualmente não sei os números ao certo em comparação com outras ligas mas diria que houve uma clara desvalorização da liga no que toca a estas comparações dos direitos vs assistências! Para se ter uma noção, Portugal nesse estudo que vi sobre o assunto, tinha uma média de 11 mil adeptos, enquanto que por exemplo a Escócia tinha 17 mil, Holanda 19 mil, Rússia 15 mil, e todas elas recebiam menos dinheiro de direitos televisivos que nós, ou seja, chegamos à conclusão que a nossa liga tinha um potencial enorme, que até havia mercado e possivelmente telespectadores para ela! Mas as coisas foram todas mal feitas, em todos os aspectos!

    Quero mesmo ver o que vai sair daqui, deste bicho papão de 7 cabeças que se chama “distribuição de dinheiro”, pois lá está, todos querem uma migalha a mais, e há outros que não deixam cair nem sequer 1 migalha para o chão!

    • Manel Ferreira
      Posted Março 18, 2023 at 3:33 pm

      Também não percebo porque é que estas discussões têm de descambar sempre no exagero.

      80% dos clubes têm média de 1000 pessoas? Onde, na Primeira Liga ou no futebol português no total? Na Primeira Liga, pelo menos 7 dos clubes têm média superior a 6 mil, só aqui estão uns 40% do campeonato. Depois mais 5 clubes andam entre a 3 mil e as 4 mil.

      As assistências baixaram em relação a 18/19 e 19/20, sim, mas a razão para isso é terem regressado clubes como Arouca ou Estoril e ter subido o Casa Pia, que têm bons projetos e todo o mérito, mas são clubes que não têm capacidade para meter muita gente. E não é por venderem a 30 euros (que não vendem, pelo menos nos jogos pequenos), é porque simplesmente ou não têm adeptos ou não têm sítio onde os ir buscar (Arouca é uma vila, basicamente). Temos poucas cidades grandes representadas na Primeira Liga, quando comparado com outros países, esse é um dos grandes problemas. Para as assistências subirem precisamos de representantes de Aveiro, Coimbra, Setúbal, etc…(Viseu e Faro pode ser que voltem já este ano).

      Há muitos clubes que simplesmente não têm capacidade para ter essas 10 mil pessoas por jogo que pedes, por muitas iniciativas que tenham. E os que têm essa capacidade estão quase todos nas divisões secundárias, por culpa própria, claro, mas estão lá. Ou seja, o problema aqui é QUAIS são os clubes que estão na Primeira Liga. Esta questão das assistências é bem mais complexa do que “estes clubes são uns burros que não sabem fazer coisas óbvias que até um Zé na Internet sabe”.

      • offtopicguy93
        Posted Março 18, 2023 at 4:56 pm

        “Arouca é uma vila” sim é mas tem 22 mil habitantes e fica situada perto do Porto, portanto essa desculpa de ser uma “vila” caimões terra quando tens cidade do interior com menos habitantes a meterem mais pessoas no estádio que eles… e a jogar em divisões mais baixas!
        Esse discurso que apresentas é o mais fácil de fazer, o de arranjar desculpas para as coisas continuarem medíocres como estão… mas não admira, o estado do país é mesmo esse! Vamos continuar a nivelar as nossas expectativas e objetivos por baixo, não há a mínima intenção de pensar alto, de alcançar mais e melhor! É assim no futebol, na política e basicamente em tudo neste país… diria que é cultural já!
        Quando me referi aos 30 euros foi uma forma de dizer que os preços dos bilhetes estão caros, eu sei que jogos entre pequenos o valor dos bilhetes varia entre os 15 e 20 euros e para sócios 10, eu ia várias vezes aos Restelo ver o Belém e pagava 10 euros por bilhete, e nem do Belenenses sou… apenas gosto de ir à bola! Mas se me pedissem mais não ia, e se me pedissem menos talvez levasse comigo mais 4/5 amigos… a mentalidade tem de passar por aqui, atrair adeptos de futebol, atrair pessoas para ver um espetáculo e aqui entra o outro problema que referi, dentro das 4 linhas! O futebol pequeno e medíocre que se pratica em Portugal, jogar para o pontinho, jogos sem história nem muitos golos!
        Como disse no meu comentário acima, podia dizer inúmeras coisas negativas sobre os clubes (grandes incluídos), mas prefiro falar de uma forma geral e meter o dedo na ferida que dói mais, a falta de ação das pessoas que estão envolvidas no futebol português! Assim está bom, dá para ir vivendo e só de vez em quando é que as coisas correm mal e há clubes que entram em falência… nos últimos anos tiveste uns quantos de primeira divisão, mas como são uma minoria a malta não liga… prefere continuar a viver no limbo do que com mais capacidades!

        Não sei se me faço entender, mas tentei ser explícito! Para uma mudança no futebol português, há certas mentalidades que precisam de saltar fora, e o comodismo é uma delas! Abraço e obrigado pela tua análise, não concordando sou perspicaz para a aceitar! Abraço

  • Antonio Clismo
    Posted Março 19, 2023 at 8:42 pm

    Os clubes em Portugal por norma gerem pessimamente os seus recursos. Dar-lhes mais dinheiro é a mesma coisa do que dizer que iria misteriosamente ser convertido em ativos para as famílias que gerem os clubes como se fosse a sua junta de freguesia.

    Agora, dar-lhes mais dinheiro mas obrigá-los a investir mais nas suas instalações, desenvolvimento e aposta de jogadores próprios, integração com a comunidade, etc isso seria muito bem pensado. O número de jogadores formados o país deveria subir de apenas 8 para pelo menos 12 por plantel. Isso seria o mínimo dos mínimos. Pela sustentabilidade do futebol português, grandes incluídos.

    Um pouco como a UE faz a Portugal com os fundos do PRR.. manda para cá uns milhares de milhões mas diz onde se pode gastar e onde não se pode gastar. Se não houvesse esse controlo o dinheiro iria desaparecer para as contas offshore dos mesmos do costume, os pseudo-gestores do bigodinho..

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