Um bom filme precisa de um herói, mas muitas vezes o que fica para a posteridade é o vilão. Teoricamente, o mau da fita é aquele que devemos desprezar e odiar, mas acabamos por ficar presos a um personagem que acaba por ser mais complexo que o próprio antagonista. A NBA, como verdadeiro espectáculo que é, possui uma vasta galeria de vilões, que os adeptos recordam com tanto carinho quanto repugnância. Hoje em dia o jogo mudou, e este basquetebol tornou-se território inóspito para os mestres dos truques sujos, jogo violento, e agressões verbais. No passado, o rótulo de “jogador sujo” ou “bad boy” era usado por muitos quase que como uma medalha de honra, e em alguns casos era certamente destaque nos seus currículos. Sem fazer a apologia dos golpes baixos, apresentamos um conjunto de jogadores que marcaram a NBA à sua maneira. E pelo caminho, deixaram marcas também nos adversários.
John Stockton e Karl Malone
A dupla que fez carreira em Utah merece uma nomeação conjunta. O base, com os seus calções justinhos e cara de professor de jardim-escola, era conhecido pelo seu jogo físico (muito contacto, parte dele algo ilegal, tal como arranhar) e pelos seus bloqueios, nos quais os adversários teimavam em tropeçar nas suas pernas. Quanto ao carteiro, os seus cotovelos deviam estar registados como armas de destruição massiva, tantas as vítimas ao longo dos anos. Quando aqueles bracinhos encontravam, acidentalmente ou não, alguém pelo caminho, o resultado era uma ida à enfermaria. E sim, Malone não tinha problemas em usar o físico para intimidar adversários, fosse no ataque, fosse na defesa.
Xavier McDaniel
Provavelmente o menos conhecido desta lista, “X-Man” era duro como poucos e não tinha medo de ninguém. Era um mestre do “trash-talk”, e não tinha problemas em provocar jogadores como Michael Jordan. E este não era o caso de alguém cujos actos ficassem além das palavras, pois McDaniel não tinha qualquer receio em partir para o confronto físico, enfrentando jogadores como Dennis Rodman e Charles Barkley.
Charles Oakley
Os comentadores da RTP apelidavam-no de “brigada dos cotovelos”. Os anos 90 viram uma forte rivalidade entre Knicks e Heat, em que o jogo físico imperava, e que muitas vezes eram sinfonias de lances livres, tantas faltas eram cometidas. E algumas dela não eram nada meigas. Um dos expoentes máximos era Oakley, jogador duro como aço e que literalmente inspirava medo nos adversários. Ele não se limitava a fazer faltas, fazia-as com a dureza necessária para enviar uma mensagem aos seus inimigos. E como qualquer tipo duro que se preze, ele não vacilava quando era hora de usar os punhos, qualquer que fosse o opositor. Sir Charles que o diga.
Dennis Rodman
O “Worm” é aquele jogador que todos adoram odiar. Para lá do visual excêntrico, dos vestidos de noiva e do comportamento em geral, o que fica para a História é um tremendo ressaltador (embora não muito grande, o seu posicionamento fazia a diferença) e um dos ícones do jogo sujo. Cotoveladas e agarrões eram recorrentes na luta sob o cesto, e quando não bastava, uns movimentos de luta-livre com arremesso de adversários ao chão faziam a diferença. Como um bom “bad boy made in Pistons”, não fugia a um confronto, quer estivesse o jogo a decorrer (as batalhas pelo ganho de posição eram bem durinhas noutros tempos) ou interrompido. Juntava ao ramalhete uma postura verbalmente ofensiva, e uma pitada de teatro em quantidade suficiente para irritar qualquer adepto… da equipa adversária.
Ron Artest
Paz no Mundo não era com ele. O agora Metta World Peace era um defensor feroz, e usava todo e qualquer método para parar os opositores. Constantemente suspenso pelas suas proezas (Artest apanhou uma fase em que este estilo já não era tolerado), arrumou James Harden com uma forte cotovelada. Mas a façanha pela qual é imortalizado é o célebre jogo em Detroit, em que saltou para as bancadas a fim de ajustar umas contas com uns espectadores menos correctos.
Kevin Garnett
Garnett está aqui um pouco deslocado, pois nem é amigo de confrontos físicos, em especial se o opositor for do mesmo tamanho. Mas quanto a confrontos verbais, estará no topo da cadeia alimentar. O seu almanaque de insultos é vasto, e tanto vale para adversários como para colegas. Conhecem aquelas pessoas tão más que fazem os bebés chorar por diversão? Bem, Garnett fez chorar um Big Baby…
Bill Laimbeer
O homem dos Pistons era o protótipo do poste lançador, e também do jogador sujo e mau. Numa época em que a zona pintada era zona de guerra, Laimbeer ia à luta, e não fazia prisioneiros. Empurrar, agarrar, dar cotoveladas ou arremessar para o chão eram actividades tão naturais como lançar ou passar para Laimbeer, que ainda por cima tinha o condão de, não só se atirar para o chão de quando em vez, como ainda de se queixar aos árbitros da excessiva dureza dos adversários. Laimbeer era um jogador odiado por todos que não vivessem em Detroit, mas ele não só não se importava com tal facto, como ainda se orgulhava disso.
Bruce Bowen
Um homem não ganha a alcunha de Bruce “Lee” Bowen sem razão. Bowen, excelente defensor, era conhecido por lançar melhor triplos do que lances livres, mas apesar das suas lacunas ofensivas, a sua defesa era muito requisitada e foi determinante no título conquistado em San Antonio. O seu repertório defensivo incluía os tradicionais agarrões, empurrões e palmadas, ao qual ele adicionava a ocasional joelhada nas virilhas. Mas a sua assinatura era a colocação dos seus pés sob o lançador, de modo a que este aterrasse sobre aqueles e torcesse o tornozelo. Bowen era definitivamente mais que um tipo duro, era mesmo mau!
Visão do Leitor (perceba melhor como pode colaborar com o VM aqui!): Nuno Ranito
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Anónimo
Um excelente artigo, parabéns!
Fico bastante satisfeito por ver as mudanças que aconteceram na NBA e ver que o foco principal tende cada vez mais a ficar no jogo, no talento individual e colectivo. O confronto físico e verbal não contribuem em nada para um bom espectáculo, apenas o banalizam e descaracterizam.
João
VCG
NINGUEM se lembra de Charles Barkley…???
Luís Borges
Excelente artigo! Por acaso estive há bem pouco tempo as ver uns vídeos e uns documentários sobre este tipo de jogadores que marcaram a NBA. "Gostei" especialmente dos Bad Boys de Detroit. O Bill Lambier é um aparte aqui nesta discussão, ultrapassava todos os limites e de facto o Bird tem toda a razão nas suas declarações. Ainda assim, era uma altura que devia dar um especial gozo aos espetadores que puderam presenciar tal época. Do Dennis Rodman já conheço um pouco desde há algum tempo. Nunca vi o Bowen a jogar e nem tinha a ideia de que era um tipo deste género no que toca à "dirtyness", mas sei que é consensual que se tratou de um dos melhores defesas da história da liga. Quanto ao Garnett… Epá, juro que gostava de ter gostado um bocadinho dele porque de facto tem números que o colocam indiscutivelmente no top dos melhores power forwards da liga, mas nunca o apreciei especialmente, talvez por não ter acompanhado os seus anos de ouro nos Timberwolves antes de ingressar nos Boston onde se tornou campeão.
pedro
Para quem não se lembra desses tempos, uns vídeos seriam ginja!
Nuno Rodrigues
Pedro está tudo no youtube.
Há um documento com os links aqui:
https://docs.google.com/document/d/1Lpv_8ulAzb_4s6dgjPppJlatMnV8wY0BOYWM7jpvbB0/edit
Pedro
Não creio que KG se acanhe quando em confronto com jogadores do seu tamanho, mas sim Trash Talk é com ele e que o diga Carmelo.
Destacava também Larry Bird, não pela agressividade ou algo parecido mas sim pelo Trash Talk, esse sim era o rei do Trash Talk. Destacava também Charles Barkley, este também quando o picavam ninguém o segurava.
Grande artigo que me fez recuar aos tempos da RTP2
Abraço
Nuno Rodrigues
KG is the man!
É para mim tudo aquilo que o um jogador deve ser em termos de carácter e entrega.
De referir apenas um dos grandes Trash Talkers que é muitas vezes esquecido, mas que não o merece, uma vez que foi dos melhores de sempre:
Reggie Miller!
Kafka I
Por falar em jogos na RTP1, soube à pouco tempo que o Carlos Barroca foi contratado pela NBA, para ir desenvolver a NBA na India, ficando o principal responsável da NBA nesse País…não deixa de ser uma nota de destaque, um Português ter este protagonismo dentro da NBA
Nuno R
RTP1, sexta feira
Bem vindos ao jogo NBA da semana
(porra, ainda cheguei a ver as finais, resumidas, Pistons-Lakers a preto e branco. É só criançada por aqui…)
Anónimo
Os tempos mudaram mesmo!!
Hoje na Nba um jogador é considerado bad boy porque anda por aí a despertar atacadores… (sim jr smith, estou a falar para ti )
Slim Shady
Kafka I
Excelente artigo que me fez regressar ao passado, nunca vou esquecer o que o "meu" Jordan sofria nas mãos de Detroit…hoje em dia o jogador que mais me irrita é o Wade
Karabatic13
Só mesmo o mestre Zen de Chicago para domesticar, em certa parte, o Rodman eheh.
Karabatic13
Os confrontos dos bad boys de Detroit contra Jordan foram épicos. Nunca odiei tanto uma equipa como esses Pistons :) Chapeau ao artigo. Chapeau.
Nuno R
Os jogos entre Knicks e Heat eram verdadeiras provações.
As televisões certamente nãao achariam piada, pois aquilo prolongava-se por tempos intermináveis, devido à quantidade de paragens e lances livres. As porradas ainda eram o menos, o problema era mesmo o tempo de jogo corrido, que era muito pouco.
Algumas faltas não eram "apenas" faltas para parar um ataque ao cesto, eram mensagens de intimidação bem claras. Ora, enquanto uns se acobardavam e passavam a fugir do cesto, outros voltavam a atirar-se lá para dentro, mesmo sabendo que iam apanhar outra vez. E isto separava os grandes jogadores… dos outros.
Essas séries, juntamente com o malice in the palace, terão sido a pedra de tooque para a mudança de filosofia na NBA. O jogo hoje é mais rápido, os bases têm mais margem de manobra (um desgraçado tipo Paul que se atirasse para o meio do garrafão dos Bad Boys seria atropelado), mais espectáculo. Mas fica a faltar aquele gostinho… nem os gestos, como fazia o Mutombo, são agora permitidos.
Os Spurs que liquidaram os Suns eram peritos na provocação. Aquela cena com o Nash (uma falta estúpida com um jogo decidido) é paradigmática: eles criavam as situações, e sabiam controlar os ânimos. Adaptaram-se aos novos tempos.
Anónimo
Em termos de trash talk, Reggie Miller está sem duvida no top 3 de sempre.
Ass: João Ribeiro
Anónimo
A tua primeira frase resume também a minha situação. Todas as histórias que o meu pai me conta da sua equipa favorita (Detroit), fizeram-me sentir esse tal carinho, mas apesar disso, acabei por ficar fã dos Miami Heat.
De qualquer das formas, vim comentar só mesmo para subscrever o teu 2º parágrafo. Não cheguei a assistir ao Basket assim, mas por todas as histórias que oiço, vídeos que vejo e jogadores (alguns verdadeiras personagens) que conheço, acabo por ficar curioso e pensar exatamente o mesmo. Certamente tempos diferentes.
SlyRP
Guilherme Silva
Grandes Bad Boys, ainda hoje sinto um carinho por Detroit por causa dessas histórias que o meu pai me contava, são a equipa preferida dele. Só tenha pena que o talento basquetebolístico do Isiah tenha sido inversamente proporcional ao seu talento como GM.
Parece muito mal dizer que gostava muito mais do basket assim? Agora não se pode dizer ou fazer nada que dá logo suspensão, à mínima falta dura és expulso e levas dois jogos, e qualquer coisinha da direito a técnica. Basta ver que agora vivemos numa era do flops (os americanos associam-no à ascensão do jogador europeu.. Divac e basta), em vez da habitual tradição do trash talk no basket. O rei disso mesmo é o Garnett (jogador que abomino, pois ele falar fala muito, mas depois foge sempre), foi longe demais num despique com o Villanueva a referir-se insultuosamente a ele como "canceroso", devido à doença de pele de que ele sofre. Ultrapassou o limite.
Falar do Rodman e de Artest é falar de dois doidos varridos, mas dois jogadores excepcionais naquilo que faziam, e especialmente na defesa. Foi engraçado numa série Lakers x Rockets ver o Artest e o Kobe picados ao máximo, e no ano a seguir o novo Metta ser trocado pelo Ariza para os mesmos Lakers, onde deu tudo por Kobe. O seu episódio no Palace é épico, e não lembra a ninguém, tal como aquela equipa de Indiana (Jermaine O'Neal e Stephen Jackson também não eram propriamente bons rapazes).
Do Bowen, nem vale a pena falar. Coitado do Steve Nash.
Em relação a hoje em dia, acrescento o Matt Barnes e o Perkins. Este último (tal como o Tony Allen, mas este duma forma mais limpa) encarna o espírito dos Celtics campeões, que é muito culpa do KG, e o Matt Barnes é simplesmente irritante. Apesar disto, o jogador que mais me enerva actualmente é o Rondo.
ruanito
Mega artigo , sinto me nostálgico…
João Lains
Bem! Eu vi o Double Team – com o Van Damme e o Mickey Rourke, imensas vezes mas estava longe de imaginar, que um "tal" de Dennis Rodman, tinha sido jogador da NBA. Mas olhando para o seu aspecto depreende-se logo que tipo de jogador era.
Anónimo
O mais impressionante nele é o facto de só ter 2.01 m, menos 5 centímetros que o "base" Magic Johnson (talvez o jogador mais especial da história pois apesar de no papel ser base podia jogar nas posições de 1 a 5).
Slim Shady
João Lains
Eu sei que este tipo de situações são recorrentes, mas neste caso em particular fiquei muito surpreendido, porque em criança era fã de filmes de acção (todos éramos) e o Double Team era um dos meus filmes preferidos.
Guilherme Silva
E que jogador ele foi, falando apenas de basket jogado e não de todas as polémicas em que este envolvido. O melhor ressaltador de sempre.
Nuno R
O Shaq também foi actor. E o Kareem (oveur?), bem como o wilt Chamberlain.
Mas o Rodman, para lá de ser um Verme, era bom… E ganhou títulos.
Fábio Teixeira
O Rasheed Wallace também, o próprio Kobe idem. O Garnett é trash talk puro e duro.
Guilherme Silva
Adorava o Rasheed. Ball don't lie!
Nuno R
O Wade é dos mais porcos da actulidade. Não só dá porrada, como ainda se queixa (quase que chorou quando sofreu uma falta dura do Rondo, dizendo que aquilo era desporto e ninguem se devia magoar e tal… ). Mas não sobreviveria 10 minutos contra os Pistons dos 80' ou os Heat dos 90'
Pedro Silva
Boa lista,
Acho que o Lambier e o Bowen estão um nível acima dos outros.
O Lambier encorporava o espírito da equipa dos Bad Boys e teve atitudes absolutamente degradantes, não é por acaso que o Bird ainda hoje diz que é o único adversário que nunca respeitou porque era um tipo absolutamente vergonhoso. Essa equipa era qualquer coisa de terrível, só tendo comparação com os Knicks do Pat Riley… Foi muito por causa dessas duas equipas que a NBA mudou as regras para permitir menos contacto, o Jordan quando atacava o cesto contra essas equipas levava 3 muros de cada vez porque só uma falta contava… Ainda bem que mudaram, a NBA é o espetáculo que é hoje graças a isso, com essas regras nos playoffs os jogos iam ser de 81-80.
Nos Bad Boys, o Isiah com a sua cara de santinho era o líder do gangue mandando os outros maiores que ele dar a porrada que ele não queria dar. Há uma série contra os Celtic's em que o Kevin Mchale tinha o pé partido e em que os jogadores de Detroit passaram os jogos todos a calcá-lo propositadamente, por isso é que ele ainda hoje manca.
O Bowen inventou a técnica de dobrar tornozelos, colocando o pé de baixo do jogador que ia lançar. Na primeira metade dos anos 2000 os Spurs eram uma equipa conhecida pelo seu jogo sujo, um bom exemplo foi a placagem que o Horry fez ao Nash a meio campo o que posteriormente resultou na suspensão de meia equipa dos Sun's, algo que fez os Spur's ganhar a série quando eram pior equipa. Ainda bem que mudaram o estilo, são uma equipa muito mais agradável de ver jogar hoje em dia. A melhor agressão de sempre é do Bowen, um famoso rotativo á cabeça do adversário.
O Stockton era o mais inteligente desses, normalmente ninguém percebia as coisas que ele fazia porque era discreto e tinha aquela cara de menino bem comportado. Mas apesar disso foi um dos melhores bases de sempre, não fosse o Jordan teria ganho um ou dois anéis.
Acho o Cris Paul é muito semelhante ao Stockton, dois bases fantásticos que jogam nos limites do jogo sujo, até utilizam técnicas parecidas (ainda o ano pasado nos playoffs fartou-se de fazer essas coisas ao Curry sem que os árbitros percebessem), só não gosto da atitude do Paul, é demasiado chorão.
André
Esse playoff em que meia equipa dos Suns ficou de castigo vai-me ficar para sempre entalado…
Anónimo
saudades deste tempo, podemos reparar que nenhum deste jogadores é atual (quanto a kg nem se pode considerar um bad boy visto que foge de contacto físico quando o oponente é da sua altura). Por mim toda a equipa dos Bad Boys Pistons entrava nesse artigo, desde Isaiah e Dumars a Laimbeer e Rodman.Good old times !
Pedro Silva
O Dumars era um santinho… Não tinha nada a ver com os companheiros, era o único gajo dessa equipa que jogava limpo.