Todos os adeptos reconhecem a posição de Guarda-Redes como a mais ingrata do desporto. Encontram-se familiarizados com a lenga-lenga do costume: se um avançado falhar vários golos cantados, mas marcar um, mesmo que não seja o golo da vitória, a bola no fundo das redes é rapidamente elogiada ao passo que os falhanços caem no esquecimento; se um guardião passar os noventa minutos da partida a defender “tudo e mais alguma coisa”, mas sofrer um único golo onde falha de alguma maneira, mesmo que com culpas partilhadas, leva com críticas avassaladoras em cima e o resto da equipa é ignorado.
Quando um guarda-redes garante três pontos…
A qualidade e potencial de Diogo Costa (Porto) é tanta que a única dúvida séria é em que posição o próprio se encontra a nível mundial, visto que é claramente o melhor guardião português e, neste momento, o melhor do nosso campeonato. Numa das visitas mais complicadas da época, o guarda-redes portista calou eventuais críticos com uma das prestações mais completas do ano e, talvez mesmo, a que obrigou a mais defesas durante os noventa minutos. Defende um penalty aos 16’ e quase consegue impedir a recarga; um lance de 1×1 aos 17’ tecnicamente perfeito; excelente cobertura do primeiro poste e respetivo posicionamento aos 33’, 37’ e 62’; e uma estirada bem mais complicada do que parece – bola bate à frente do guardião – aos 77’ para colocar a cereja no topo de um bolo recheado de defesas dignas de “guarda-redes de equipa grande”. Para além de todas estas paradas, demonstrou uma segurança soberba durante todo o encontro. Um exemplo evidente de como a posição mais ingrata do futebol pode garantir a conquista de três pontos sempre importantes.
Um derby para dispersar dúvidas?
Tanto Trubin (Benfica) como Adán (Sporting) iniciaram as suas épocas com uma nuvem de incerteza por cima dos mesmos em relação ao seu nível real. O primeiro por ser uma nova contratação e um jovem inexperiente, ao passo que o espanhol tem a bagagem da temporada anterior negativa. Um jogo isolado não serve para mudar tudo, mas ambos os guardiões têm vindo a entregar exibições seguras nas últimas jornadas, confirmando estas sequências positivas no derby da jornada. Ambos ofereceram prestações muito sólidas, com jogo de pés impecável e saídas confiantes durante todo o encontro, para além de várias defesas de louvar. O guardião caseiro começou com uma defesa complicada a cabeceamento de Diomande aos 29, impede um Pote isolado aos 32’ e ainda interceta uma assistência clara de golo aos 64’. O golo leonino entra pelo seu lado, mas o remate de Gyökeres é fortíssimo e veloz, pelo que não atribuo quaisquer culpas a Trubin. Já Adán podia ter sido um dos destaques da eventual vitória dos leões, mas os dois golos sofridos nos descontos – onde nada podia fazer – são uma conclusão frustrante para aquela que estava a ser uma das melhores exibições da sua época. Para além do tal jogo de pés irrepreensível, mostrou-se rápido nas saídas – coloca-se em cima de João Mário aos 23’, forçando-o a um chapéu ao lado – tem uma estirada bonita ao remate forte e de trajetória complicada de Di María aos 76’, mas estranhamente, a defesa com a ponta dos dedos aos 61’, num remate colocado e de visibilidade reduzida, passou despercebida a todos, incluindo ao árbitro que marcou pontapé de baliza. Demonstrou concentração e agilidade totais.
Mudanças de momentum? Um pequeno sumário do primeiro terço da época.
Muitos guardiões aparentam mostrar vontade em mudar totalmente o momentum negativo que viviam, ao passo que outros começam a evidenciar dificuldades em manter a onda positiva inicial. Matheus (Braga) tem tido uma daquelas épocas inconsistentes onde mostra o seu melhor numa competição e o seu pior na outra, sendo o início de campeonato menos bom do clube parcialmente devido às exibições com várias falhas do guarda-redes. No entanto, tem vindo a melhorar e foi crucial na vitória por 0-1 no terreno difícil do Arouca, com várias defesas de bom nível e a segurança que o levou a ser considerado época atrás de época um dos melhores guardiões do campeonato. Vinicius Costa (Portimonense) iniciou o ano com goleadas sofridas e uma dúvida geral sobre a sua capacidade de ajudar o clube algarvio a conquistar a manutenção, mas o seu impacto nos resultados positivos do campeonato tem sido cada vez mais evidente, confirmando que é o guarda-redes necessário para esta missão. Marcelo Carné (Estoril) iniciou a temporada no banco, mas Dani Figueira deixou a desejar e o brasileiro aproveitou a oportunidade concedida. Não começou bem, mas as vitórias recentes da equipa em muito se devem às performances sólidas do guardião que causou surpresa no Dragão ainda recentemente. Muitos olhavam de lado para Kewin Silva (Moreirense), mas já vai em seis jornadas seguidas onde concede apenas um golo ou nenhum, sendo um dos pilares defensivos de uma equipa que já vai em 5° lugar e que promete roubar pontos aos candidatos ao título. Do outro lado da moeda, encontram-se Ricardo Batista (Casa Pia) e João Gonçalves (Boavista). O primeiro sempre deu a sensação de estar a ser protegido pela organização defensiva impressionante do seu treinador e os últimos encontros fazem os seus defeitos sobressair de forma gritante. A idade avançada leva a uma lentidão geral de processos inadmissível para uma equipa que, se tivesse um guardião mais capaz, seria uma dor de cabeça constante para qualquer clube. Já o guarda-redes dos axadrezados, que tinha vindo a ser um dos destaques iniciais da época e levando inclusive a um artigo desta rubrica sobre a sua confirmação de estatuto, desceu de nível e contribuiu negativamente para as recentes derrotas do seu clube que teima em voltar aos bons resultados. Arruabarrena (Arouca) também não se encontra livre de culpas da pior classificação possível de uma das melhores equipas da época passada. É, sem dúvidas, um dos melhores guarda-redes do campeonato na sua melhor forma, mas não tem conseguido ajudar a evitar os péssimos resultados deste primeiro terço da época. Nota final para as inúmeras exibições fantásticas de Ricardo Velho (Farense) e Luiz Júnior (Famalicão) que se encontram, neste momento, na luta pelo pódio de melhor guarda-redes em 2023-24.
Defesas Neuer da Jornada:
– Jhonatan (Rio Ave): uma das defesas da época aos 84’, demonstrando reflexos felinos em cima da linha de golo e garantindo o empate vital para a sua equipa.
– Diogo Costa (Porto): mais exibição completa do que defesas isoladas impressionantes, mas sobressai o 1×1 aos 17’ e a defesa a um remate de longa distância aos 77’.
Adán (Sporting): passou despercebida a quase todos, mas a defesa aos 61’ ao remate de pouca visibilidade e colocado de João Mário é tão ou mais difícil que a estirada aos 76’.
Falhas Kralj da Jornada:
– Ricardo Batista (Casa Pia): a sua lentidão não é novidade, mas para além de reações extremamente tardias, cobre mal o ângulo aos 23’ e atira-se sem qualquer necessidade – e até de maneira caricatural – aos 90+4’, permitindo uma recarga fácil.
– João Gonçalves (Boavista): falha de comunicação e hesitação fatais aos 28’.
– Hugo Souza (Chaves): demora a reagir à sua queda aos 37’, apesar de se observar uma escorregadela infeliz.
Visão do Leitor: AdeptoImparcial


13 Comentários
Bjorn
Sou fã incondicional do Diogo. Com esta idade demonstrar esta frieza. Já nem falo na qualidade. Mas a maneira como mantém a calma em qualquer situação é de alguém muito mais maduro que a sua idade. Espero que ninguém seja competente o suficiente para o vir buscar e que fique por muitos anos
AdeptoImparcial
Bjorn,
Diria que não aguenta mais uma época no Porto. Se mantiver o nível, dificilmente não irá para um tubarão europeu. Veremos.
SL
Aboubakar93
Não acredito que passe desta época e acho que só não foi embora porque a maior parte dos grandes clubes até estavam bem servidos no verão (o United optou pelo Onana). Acho que de facto já está num patamar onde o podemos considerar num top dos melhores mas gostava de o ver num contexto mais exigente como uma Premier League. Como portista obviamente que espero que fique o mais tempo possível no Porto mas também convém olhar para o contexto português e julgo que já merece o salto, também para o bem da sua evolução.
Mantorras
O remate do Gyo e surpreendente e muito forte e colocado, mas tinha defesa.
No geral, apesar do miudo mostrar alguns momentos de inseguranca, tem compensado e feito defesas importantes, alem de que nao se deixou afectar muito pelos assobios nem pelos momentos menos positivos.
AdeptoImparcial
Mantorras,
Sim, não é indefensável, mas longe de ter “culpas” no lance. Simplesmente, não conseguiu impedir este remate, impediu outros.
SL
Mantorras
Concordo totalmente e aproveito para fazer aqui um pedido.
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Gostava de ver analises individuais aos GRs da liga, tipo um a cada duas semanas, destacando o que tem de melhor e pior, o que devem/podem melhorar, onde poderao chegar, etc. Saber como se enquadram, ou nao, nas equipas onde estao e na sua forma de jogar.
Acho que seria interessante ir mais a fundo do ponto de vista “teorico”, ja que esta rubrica analisa momentos “praticos de jogo”.
AdeptoImparcial
Mantorras,
Obrigado pela sugestão de ideia! Talvez faça no futuro, mas de momento, não tenho tempo para mais do que uma análise semanal voluntária. Logo se vê para a próxima época :)
SL
Borsalino
O remato do Gyokeres é espontâneo e muito forte, foi surpreendido pela ação do Sueco. Acredito que poderia fazer mais, sendo um “GR de equipa grande”, mas há que dar o mérito ao Gyokeres. Acabou por ter boas defesas e duas saídas bem conseguidas. Que continue a evoluir.
Borsalino
*remate
AdeptoImparcial
Borsalino,
Exato. Tem muito caminho por percorrer, é muito jovem. Veremos o quanto evolui, o seu potencial é uma incógnita ainda. Que continue a ter espaço no Benfica.
SL
Anacleto
A exibição de ontem ser considerada uma das melhores da época de Adán diz muito daquilo que tem sido a época.
AdeptoImparcial
Anacleto,
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A época do Adán ou do clube? A época do GR tem sido bastante “uneventful”, perdoa-me o inglês, mas foi a melhor palavra que arranjei. Nem prejudicou a equipa ao custar pontos, nem contribuiu o suficiente individualmente para oferecer sozinho três pontos. Tirando o primeiro golo do Vizela na primeira jornada, não considero que tenha quaisquer *culpas* em nenhum outro golo do campeonato e tem vindo a melhorar de jogo para jogo…
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SL
Anacleto
O que eu digo é que não faz a diferença. O Sporting praticamente não concede oportunidades claras aos adversários (exceção a uma do Estrela isolado) e somos a 5ª melhor defesa da liga, apenas. É “uneventful” porque não é decisivo como outrora foi. Sei que é quase injusto pedir tal coisa, mas eu quero que se destaque, quero que tire bolas de golo, quero que o meu guarda-redes me dê pontos e não se limite ao básico em que uma “das melhores exibições da época” dele seja simplesmente não fazer porcaria.
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Neste momento sei que qualquer bola que for para entrar na baliza simplesmente vai entrar, porque não vai salvar. E não é o remate do Di María ou do João Mário que são bolas de golo…
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Mas enfim, isto é só um desabafo, ontem esteve bem. Por mim se estiver sempre assim até ao final da época já me dou por satisfeito porque ando mal habituado. Continuação de bom trabalho!