Todos os adeptos reconhecem a posição de Guarda-Redes como a mais ingrata do desporto. Encontram-se familiarizados com a lenga-lenga do costume: se um avançado falhar vários golos cantados, mas marcar um, mesmo que não seja o golo da vitória, a bola no fundo das redes é rapidamente elogiada ao passo que os falhanços caem no esquecimento; se um guardião passar os noventa minutos da partida a defender “tudo e mais alguma coisa”, mas sofrer um único golo onde falha de alguma maneira, mesmo que com culpas partilhadas, leva com críticas avassaladoras em cima e o resto da equipa é ignorado.
Quando os guarda-redes dão pontos…
Esteja a equipa a ganhar ou empatada, quando o guardião defende uma ou mais bolas de golo nos descontos finais de uma partida, qualquer adepto, mesmo que não aprecie o guarda-redes ou tenha passado o jogo todo a chamar-lhe nomes, muda radicalmente de opinião e postura durante uns bons minutos, senão mesmo totalmente. Nesta jornada, foram Trubin (Benfica), Ricardo Velho (Farense) e Buntic (Vizela) que contribuíram significativamente para os resultados das suas equipas. De forma geral, nenhum teve trabalho de bradar aos céus – os últimos dois tiveram claramente menos ações que o primeiro – mas quando foram chamados a intervir, mantiveram a baliza inviolável com defesas impressionantes de deixar qualquer adversário a ferver de frustração.
Começando por Buntic: evita golo decisivo aos 89’, num remate à entrada da área que, devido a bater num defesa, ganhou altura e caiu a pique encostada à trave. Parece um lance fácil, mas é uma das defesas mais complicadas que um guardião se pode ver obrigado a fazer, visto ter de demonstrar noção de espaço, equilíbrio, ajuste de posição e, claro, controlo da trajetória da bola. Poucos minutos depois, aos 91’, executa uma defesa clássica “a la Schmeichel” numa intervenção a um cabeceamento de cima para baixo com selo de golo. Um ponto valioso para uma equipa com dificuldades em sair da zona de despromoção.
Velho já é “mobília da casa” nestes artigos. Neste momento, se fosse para galardoar algum guardião com o prémio de Melhor Guarda-Redes da Liga Betclic 23/24, seria difícil não oferecer a um homem que, sozinho, já deu pontos atrás de pontos à sua equipa. Contra o E. Amadora, tal como Buntic, praticamente não teve impacto durante o encontro… até realizar uma das melhores defesas do campeonato com (mais) uma mancha à queima-roupa, desta vez mesmo em cima da linha de golo aos 81’. Mais um ponto oferecido a um Farense que bem pode agradecer ao seu guardião por uma época surpreendente até à data.
Mudando para a “zona de título”, o Benfica visitou a casa do Braga e deve, em muito, a uma exibição segura de Trubin os três pontos conquistados. Não foi uma prestação recheada de dezenas de defesas inacreditáveis, mas sempre que foi chamado à ação – a jogar com os pés, sair a cruzamentos e, claro, defender remates adversários – fê-lo com uma segurança e, acima de tudo, confiança de “guarda-redes de equipa grande”, o que é, pessoalmente, o atributo que mais me surpreende no guardião de apenas 22 anos. Os dois destaques são óbvios para todos: a estirada a remate forte e com visibilidade parcial aos 13’ e o pézinho aos 92’ que tantas mãos levou à cabeça. A primeira é muitíssimo superior à segunda em termos de dificuldade e técnica, mas obviamente, qualquer parada minimamente decente nos descontos de um encontro renhido e importante como este iria sempre sobressair mais.
Pessoalmente, acho mais fascinante o quanto detalhes de centímetros e centésimas de segundo podem mudar completamente a perceção do adepto comum da exibição de um guardião: tivesse Trubin falhado o desvio com pé e a bola entrado no meio da baliza lentamente, mesmo depois da excelente performance, era provável estar a levar com comentários de “frango!” de adeptos frustrados. Ou até no lance aos 77’ quando a bola lhe escapa e quase origina um golo atabalhoado caricato. “Teve foi sorte”, disseram-me uns. “A bola não entrou, pois não?”, respondi de volta. Então, qual é o problema? É o mesmo de sempre: as análises insanamente rigorosas com a posição mais ingrata do desporto que, nem quando é essencial para o sucesso clubístico, se safa de avaliações hipócritas de adeptos que nem sabem o tamanho da baliza – ou sabem mas apenas quando é para defender que um falhanço de baliza aberta do jogador de campo vale menos que um “podia fazer melhor” de um guarda-redes.
Defesas Neuer da Jornada:
– Trubin (Benfica): a defesa com o pé nos descontos sobressai por ser nos descontos, mas a estirada a uma mão aos 13’ é infinitamente superior, principalmente tendo em conta a falta de visibilidade e potência de remate.
– Ricardo Velho (Farense): mais uma mancha soberba à queima-roupa e em cima da linha de golo aos 81’ de fazer qualquer jogador e adepto adversários explodir de frustração.
– Buntic (Vizela): merece menção às duas grandes defesas ao cair do pano. Primeiro, uma bola a cair a pique encostada à trave depois de ressaltar num defesa aos 89’ e, a seguir, uma intervenção à Schmeichel num cabeceamento aos 91’.
Falhas Kralj da Jornada:
– Jhonatan (Rio Ave): é um remate acrobático bonito aos 55’, mas nota-se que o guardião falha o desvio da bola claramente ao alcance do mesmo.
– Ricardo Batista (Casa Pia): mais uma saída totalmente em falso do guardião português, desta vez aos 44’.
– Rodrigo Moura (Chaves): muito lento a reagir ao remate dos 22’, mesmo assumindo visibilidade parcial.
Visão do Leitor: AdeptoImparcial


8 Comentários
Velho do Restelo
No golo do Gyokeres o Diogo não ficou bem, concordas? Como avalias esse lance?
Queria realçar a bela defesa com o pé esquedo do Adan ao cabeceamento do Galeno, foi bom ver o espanhol “em forma”, espero que recupere.
AdeptoImparcial
Velho do Restelo,
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Já não me recordo se abordei esta questão de golos ao primeiro poste num destes artigos ou não – se ainda não o tiver feito, farei brevemente – mas basicamente, não concordo com a teoria de que qualquer golo que entre pelo poste protegido pelo guarda-redes automaticamente envolve culpas do mesmo, tal como bujardas à queima-roupa que passem entre as pernas, por exemplo. Obviamente, o facto da bola passar por uma zona dentro do alcance do guardião leva logo as pessoas a pensar que é defensável – e, na teoria, acaba por ser, pois é possível de imaginar um guarda-redes a meter a mão, perna, corpo ou o que chega para impedir o golo – mas é uma conclusão rigorosa que ignora demasiado detalhes da jogada.
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Dito isto, tendo em conta a rapidez de execução do sueco mais a força e, acima de tudo, colocação do remate – vai mesmo rasteirinha encostada ao poste – não atribuo culpas ao Diogo Costa. Podia fazer melhor, tal como o Trubin no golo que também sofre do Gyo há umas semanas atrás. Ambos os golos entram pelo lado deles, mas são remates algo até inesperados em termos de timing e são muito potentes. Não se pode ignorar estes fatores e fingir que é tudo igual. De outra forma, por exemplo, considero que o Adán tem bem mais culpas no 3-2 do Vitória, pois já é uma situação de posicionamento, o remate não foi tão forte e colocado, além do guarda-redes ter tido tempo de ler, preparar-se e defender.
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Três lances de golo pelo poste protegido pelo guardião e três análises diferentes. Não usaria o termo “culpa” para os golos sofridos por Diogo Costa e Trubin – penso até que o do Costa é o menos defensável, sinceramente – mas já uso para o Adán. Só demonstra as particularidades que envolvem este tipo de golos. Parece que é um lance fácil de se analisar, mas tem tantas camadas como todos os outros. Mais uma situação para alongar num artigo futuro :)
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E sim, Adán esteve muito bem ontem, foi a primeira vez esta época que se viu o Adán das duas primeiras épocas: segurissimo com os pés, confiança assertiva em todas as intervenções e uma defesa importante a cair o intervalo. Pouca ação, mas quando foi necessário, esteve lá e é isso que se pede a um guarda-redes de candidato ao título. Que consiga dar a volta à imagem divisiva e entre agora num bom caminho.
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SL
Velho do Restelo
Obrigado pela resposta!
ACT7
A do Trubin ao min 13 não é muito diferente de uma do Diogo Costa ontem .
AdeptoImparcial
ACT7,
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São semelhantes, mas mantenho a preferência pela do Trubin pela falta de visibilidade e potência de remate. Mas ambas são excecionais!
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SL
Borsalino
Agora talvez já se tenha noção que as inúmeras “bolas indefensáveis” que entravam quando o Odysseas era nosso GR, afinal, com outro GR, talvez não sejam tão “indefensáveis”. Já dizia Alex Ferguson que um grande GR valia cerca de 15 pontos durante uma época.
lipe
A defesa do Trubin ao remate do Djaló, de onde a vi no estádio (bancada Nascente), foi soberba. Das melhores que já vi ao vivo.
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Caso te interesse, AdeptoImparcial, que me lembre agora de cabeça (e em tempos recentes), a última defesa do Matheus neste jogo é das coisas mais incríveis que já vi ao vivo (é relevante o facto de ter estado na bancada praticamente em linha com o remate):
https://zerozero.vsports.pt/vod/79605/m/11962/zero/58b723d46bf47479ffe0fc1a8d2ced82?jwsource=cl
AdeptoImparcial
lipe,
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São duas excelentes defesas, sem dúvida! Mas já vi muitas melhores ao vivo, felizmente hehe.
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SL