Todos os adeptos reconhecem a posição de Guarda-Redes como a mais ingrata do desporto. Encontram-se familiarizados com a lenga-lenga do costume: se um avançado falhar vários golos cantados, mas marcar um, mesmo que não seja o golo da vitória, a bola no fundo das redes é rapidamente elogiada ao passo que os falhanços caem no esquecimento; se um guardião passar os noventa minutos da partida a defender “tudo e mais alguma coisa”, mas sofrer um único golo onde falha de alguma maneira, mesmo que com culpas partilhadas, leva com críticas avassaladoras em cima e o resto da equipa é ignorado.
Depois de Arruabarrena e João Gonçalves…
Foi a vez de Luiz Júnior ser crucial para a vitória curta do Famalicão sobre o Arouca. Num dos comentários relativos a uma das análises passadas, surgiu a questão sobre se o guardião brasileiro possuía qualidade e/ou potencial suficientes para subir mais um patamar na sua carreira. A dúvida mantém-se, mas o facto de ter apenas 22 anos aponta para uma evolução que se prevê positiva, logo é uma questão de esperar para ver o que o futuro lhe reserva. Em relação ao jogo em si, o guarda-redes entregou uma exibição completíssima: duas defesas a remates isolados à queima-roupa (18’, 28’), demonstrando excelentes reflexos; um penalty defendido (58’), apesar de ter sido repetido por intervenção ilegal de um colega de equipa; e mais uma defesa importante aos 79’ numa mancha eficiente. Se continuar assim, entrará no leque de candidatos para aproveitar a necessidade dos quatro clubes do topo em substituir as suas balizas no fim da época.
Como se define “um bom jogo de pés”?
Aproveitando o facto de não terem existido grandes destaques esta jornada, deixo este debate para a comunidade. Reparo frequentemente em críticas – e, sem querer soar presunçoso, de forma algo injusta e enganadora – ao jogo de pés do elemento teoricamente menos tecnicista do onze. A evolução desta componente técnica ao longo dos últimos anos é notável e a nossa liga possui várias equipas a colocarem um peso significativo da sua construção defensiva no seu guardião. No entanto, continuo a testemunhar leituras… estranhas de certos lances. No passado, um GR ser fortemente pressionado para o seu pior pé e, para não correr riscos, aliviar a bola para fora das quatro linhas era visto como uma decisão racional e mais do que aceitável. Hoje em dia, recebe apupos de vários adeptos, como se fosse proibído falhar um único passe, mesmo que seja em circunstâncias complicadas que até jogadores de campo teriam dificuldades em lidar. Guarda-redes que são obrigados a jogar mais com os pés também estão mais desprotegidos e abertos a erros que, naturalmente, acontecem aqui e ali – Neuer, Ederson ou Allison não passam uma época sem sofrerem um par de golos devido a erros individuais ao sair a jogar. E eis que surge o comentário “este GR tem um jogo de pés terrível” quando, na verdade, é capaz de ser dos melhores do campeonato respetivo ou até do mundo, mas porque faz dezenas de mais passes durante os noventa minutos que outros, os mal sucedidos destacam-se, tal como qualquer outro erro – mesmo que menor e sem consequências – da posição mais ingrata do futebol.
Defesas Neuer da Jornada:
– Luiz Júnior (Famalicão): as duas defesas à queima-roupa com o avançado isolado demonstram capacidades de reação soberbas (18’, 28’).
– Bruno Brígido (E. Amadora): numa jornada recheada de manchas, a sua fantástica aos 36’ quando o estádio inteiro já cantava golo merece este destaque.
– Vinicius Silvestre (Portimonense): tal como Brígido, as manchas aos 8’ e 36’ são de louvar, apesar de não ter impossibilitado a derrota da sua equipa.
Falhas Kralj da Jornada:
– Bruno Brígido (E. Amadora): consegue a proeza de estar nas duas secções ao ter uma abordagem bastante displicente e estranhamente mal preparada no golo adversário aos 85’. Podia ter ditado um resultado totalmente diferente.
– Marcelo Carné (Estoril): posicionamento terrível no primeiro golo (61’).
– João Gonçalves (Boavista): podia e devia ter feito melhor aos 57’: ou agarrava ou desviava para o lado, mas acabou por deixar a bola fácil para golo do adversário.
– Matheus (Braga): não prejudicou a equipa, mas o único golo do Boavista (26’) surge de mais um remate perfeitamente defensável que passa por debaixo do corpo do guardião numa abordagem novamente lenta e tecnicamente deficiente. Tem sido uma constante nesta secção.
Visão do Leitor: AdeptoImparcial


4 Comentários
Petrol
Faltou referência a Trubin na defesa do penalty. Por outro lado, apesar de ser um golaço de Edwards, Magrão tem quota de responsabilidade porque a bola entrou no poste que ele está a cobrir
AdeptoImparcial
Petrol,
As menções finais são destaques mais técnicos, isto é, defesas que realmente merecem elogios pelo grau de dificuldade. Trubin defendeu um penalty importante em termos de resultado, mas… é um penalty e raramente estes ganharão uma menção nesta secção final a não ser que sejam defesas realmente impressionantes.
Em relação ao Magrão, tem a sua quota de responsabilidade, mas num futuro breve irei abordar o tal tópico de “se a bola entra pelo poste do GR, automaticamente este tem culpas”. Não considero que seja sempre assim, muito pelo contrário – não querendo insinuar que este é um desses exemplos, Magrão podia, de facto, ter feito melhor, mas não costumo fazer mais do que 3/4 menções.
SL
Johny
O que têm achado do João Gonçalves? Irá ser capaz de dar o salto?
AdeptoImparcial
Johny,
Recomendo ler o artigo anterior desta série relativo à 5a jornada :)
SL