Espanha, anos 90. Uma criança que bem recentemente tinha largado a paixão por ser guarda-redes devido a um remate que lhe acertou em cheio na boca e “roubou-lhe” dois dentes, jogava futebol com os amigos sonhando ser uma mistura de Oliver Tsubasa (personagem estrela da série Japonesa da qual ele era acérrimo fã) e Kiko Narvaez (ídolo maior do seu clube, o Atlético de Madrid).A criança foi crescendo, sem nunca deixar de ser niño, e aos 17 anos teve a oportunidade de passar a jogar no meio dos homens. No clube dos seus sonhos. O sonho era um bocadinho mais real.
Mas já não estávamos na infância, logo os sonhos já não eram inocentes e perfeitos, estavam já tingidos de realidade, coloridos com cinzentos que enchem de dúvidas aqueles que acabam de sair da fase do preto e branco, do bom contra o mau. E o sonho do niño tinha muita tormenta. Fernando Torres estreou-se pelo seu clube de sempre, o Atlético de Madrid, numa das piores fases da história dos colchoneros. Perdido na II liga do futebol espanhol, na sua temporada de estreia os rojiblancos não conseguiram voltar à elite do país, feito apenas obtido na época seguinte, já com o mítico sábio Luis Aragones, referência futebolística e emocional do clube, como treinador. Mas o regresso ao convívio com os melhores apenas aligeirou um cenário de constante tumulto no emblema do Manzanares: sucediam-se treinadores, projectos e fracassos, com classificações bem longe do topo da tabela. No meio de tudo isto, o niño era, época após época, o melhor no meio dos adultos, o que mais golos marcava e o que melhor jogava, mas isso, só por si, não era suficiente para recuperar a grandeza. Então, Torres teve de abandonar o sonho (que já tinha provado não ser um mar de rosas), porque o Atlético precisava do dinheiro da sua venda e ele precisava de competir ao mais alto nível e de títulos para se tornar homem.
Até que, sete anos e meio depois, já como homem, o niño (porque, para a família, somos sempre “meninos) voltou a casa. E a realidade era bem diferente. Longe iam os tempos dos lugares a meio da tabela, dos “pupas” e dos projectos passageiros. A ideia central do clube agora era clara: o cholismo tinha vindo para ficar, e com ele chegaram conquistas várias, como uma Liga, uma Taça do Rei, uma Supertaça de Espanha, uma Liga Europa ou uma Supertaça Europeia. Mas, quase como que dando razão a quem defende que a vida é uma sucessão de vitórias e derrotas intercaladas, de subidas e descidas, o melhor momento da história recente do Atlético coincidia com o pior de Torres. Uma queda abrupta de forma na passagem do Liverpool para o Chelsea havia transformado-o em chacota mundial, o que, associado a uma infeliz experiência no Milan, dava corpo às dúvidas de quem achava que o pesadelo do niño não cabia no sonho do clube. E, apesar de laivos de sucesso, nomeadamente um bis no Bernabéu, o primeiro ano da segunda etapa de Torres em Madrid foi muito a continuidade da falta de inspiração e do divórcio com o golo: nos primeiros 50 jogos disputados, somente 8 tentos apontados.
Mas algo mudou. No dia 6 de Fevereiro, contra o Eibar, chega o golo 100 ao serviço do Atlético, após uma longa seca de quase 5 meses sem marcar. E, quase do nada, uma espécie de alinhamento perfeito dos planetas juntou a necessidade da equipa (privada de um ponta-de-lança, pela aposta fracassada em Jackson e pelo fraco rendimento de Vietto), que se preparava para enfrentar a face decisiva da época, ao reaparecer do número 9 letal, velocíssimo, fino tecnicamente e inteligente que parecia ter-se perdido algures entre Anfield Road e Stamford Bridge, e o resultado foi explosivo: 8 golos em 17 jogos (vários deles muito importantes, como em Camp Nou para a Liga dos Campeões ou em San Mamés para a liga), uma conexão letal com Koke (o seu assistente predilecto) e Griezmann (o seu parceiro de ataque, a quem deu a assistência para um golo em Munique que é já história viva do Atlético) e um contributo fundamental para que os homens de Simeone estejam com legítimas ambições de vitória na Liga e na Champions.
Depois de uma vida inteira juntos, finalmente as vidas do Atlético de Madrid e de Fernando Torres andam de mãos dadas numa maré de sucessos e triunfos. O niño, que várias vezes viu o seu sonho ter pouca cor, aprendeu que, citando Pessoa, “para passar o Bojador é preciso passar além da dor”, e que mesmo quando sopram ventos de glória podem haver pequenos percalços que parecem deitar tudo a perder (uma expulsão frente ao Barça que poderia ter acabado com as esperanças na eliminatória ou um penalty falhado em Munique que, caso tivesse havido outro desfecho, teria sido para sempre lamentado), mas que, no final, só dão mais prazer, satisfação e heroísmo ao que foi alcançado. O niño já não sonha uma vida, agora ele vive o seu sonho.
Pedro Barata



0 Comentários
Rodrigo Ferreira
Texto muito bom, tão bomo como ver Torres voltar aos bons momentos.
Anónimo
Excelente texto!
Fico contente por ver El Nino (um dos meus jogadores preferidos quando era mais novo) a reviver quase uma segunda vida, por vezes um pouco de paciência e confiança é a receita ideal para superar estas "crises existenciais" dos 9. Mas hoje em dia o mais procurado é o resultado imediato, rendimento instantâneo, porque há muito dinheiro e pressão há mistura.
E quando tudo parecia ser um quase doloroso arrastar até um inglório fim de carreira, eis que esta ligação pura e quase romântica com o clube do coração curou-o da "maldição dos 9"! O El Nino está de volta, é a "fúria rojiblanca" personificada, e mesmo que seja o canto do cisne pelo menos que saia com estrondo e de preferência com a Taça das orelhas nas mãos!
Knox_oTal
Anónimo
Curioso também verificar que Stamford Bridge arrisca-se a ficar como campo maldito para 9 consagrados. Desde o seu agigantamento made in Russia no início dos anos 2000, já foram alguns os jogadores com estatuto que (mais uns que outros) desiludiram no ataque dos Blues: Hernan Crespo, Sheva, Claudio Pizarro, Fernando Torres Diogo Costa (para mim está a ficar aquém do esperado), Falcão (bem este já vinha de um ano péssimo em Old Trafford). Qual será o próximo a arriscar a "maldição"?
Knox_oTal
Luis bcn
Kezman
Anónimo
É verdade, o sérvio sofreu e muito com a "maldição", nunca recuperando no resto da sua carreira!
Knox_oTal
Anónimo
Desde quando é que o Sheva foi uma desilusão no Chelsea?
E já agora, o Shevchenko sempre foi número 7.
Shevchenko
Anónimo
O 9 era mera alusão à posição em campo! E acho que sim, esteve aquém no Chelsea! Até porque vinha de épocas muito proliferas no Milan e nos blues em 77 jogos marcou apenas 22 golos! Pouco acho eu para alguém do seu gabarito… o que não belisca o que foi como jogador… fantástico! Hall of famer sem dúvida, mas nos blues a vida não lhe correu como se esperava!
Knox_oTal
David Almeida
Excelente texto, tinha saudades do verdadeiro el Niño!
Se com o Torrres resultou…
…Quem sabe se não voltaremos a ver Falcão no Atleti ou talvez no FC Porto!
Anónimo
O que adorei ler este texto ,o meu jogador preferido , um jogador com garra e paixão , e que quando está com confiança é muito perigoso , só tenho pena que o Torres do Liverpool nunca mais tenha voltado
El nino
Bernardo
É possível ver o Torres em Portugal na próxima época? No Sporting, Benfica ou Porto?
Está em final de contrato
Rodrigo Ferreira
Preferia o Griezmann
Anónimo
O Godin também não era mau :P
GM
Anónimo
Fazia uma das melhores duplas com Slimani! Mais João Mário e Bryan Ruiz nas pontas com o Sir William e Adrien no meio éramos os mais favoritos ao título nacional! Depois com Coates e Paulo Oliveira, João Pereira e Jorge (Flamengo) que grande equipa!
SL, Miguel Silva
Daniel Salgueiro
Fantástico artigo! Um dos meus jogadores favoritos. Este Torres, o verdadeiro Torres, já fazia falta ao futebol. Está, claramente, a voltar à sua melhor forma.
Espero que, para terminar esta época com a cereja no topo do bolo, consiga conquistar a Champions.
Daniel Salgueiro
César Torres
É realmente fabulosa a forma como o Simeone tem motivado os seus jogadores desde que entrou para o Atlético. Era de se esperar que o ponto mais alto e final do conto de fadas seria a derrota na final da liga dos campeões, mas não, perdeu jogadores e mesmo assim tem dado muita luta aos restantes gigantes.
Torres não voltou a ser o grande artilheiro da primeira passagem pelo Atlético e pelo Liverpool mas voltou a ser jogador, voltou a estar motivado e a trabalhar. Deixou de ser preguiçoso. Eu gostaria de saber se alguém aqui sabe como é que são os treinos do Atlético?
PS: Pelo que sei, o Jackson é que forçou a saída porque não estava a conseguir se adaptar. Só mostrou que pensa pouco e que não aguenta a pressão dos grandes desafios.
Telmo
Pelo que se leu e viu nas fotos estavam todos contentes menos o Jackson, mas quem sabe a verdade é ele e os que se envolveram no negocio.
Gongas
se fores ao youtube existem videos dos treinos deles, sao treinos durissimos, muitas vezes ao meio-dia sobre o calor bravo
I.C.E.
Não é por agora estar na "ribalta" mas sempre apreciei os movimentos, a velocidade de execução e a inteligência associada ao marcar golos de Fernando Torres. O homem tem o currículo internacional de fazer inveja e agora, luta para alcançar o grande feito da sua vida, o mais impensável, talvez, a Champions League pelo Atlético.
Pela maneira como o cholismo e a entrega "louca" pela camisola penso que é muito bom ver equipas tão contrastantes em campo com filosofias opostas como o Bayern, o Barça ou o Real Madrid terem receio de jogar com os Colchoneros
RG
Foi reconhecido em tempos como o melhor 9 do mundo, depois vieram as lesões e a falhada transferência para o Chelsea, nunca percebi muito bem o que aconteceu com este jogador, aconteceu-lhe alguma coisa do ponto de vista mental para ter tido uma quebra tão acentuada de rendimento, isto que se vê hoje nada tem a ver com o jogador que era antes, porque o Torres não só marcava golos como era um prodígio técnico, era mais agressivo a jogar e não desaparecia tanto dos jogos…
Sinceramente não consigo encontrar paralelo, eclipsou-se quase por completo desde que saiu do Liverpool.
#Quem o achar bom jogador actualmente é porque não o viu o que ele era antes…
Jorge
Ele atualmente é bom jogador, o pessoal esquece-se é que nos tempos áureos chegou a disputar a bola de ouro com Ronaldo e Messi. Enfim, que saudades de ver esse Torres (aquele golo no giuseppe meazza então..)
A Técnica continua lá e a cabeça para lá caminha novamente, o físico é que já não é o mesmo.
lagarto01
No liverpool era top 3 mundial, um pesadelo p'ra todas as defesas. Tivesse Simeone com ele desde Liverpool e teria sido um caso muito mais sério, dos jogadores que mais gostei e gosto, El Ñino!
bpstp
Excelente artigo. Fez-me recordar do Torres quando tinha 20 anos.
Não sendo o meu jogador predilecto, sempre gostei do Torres. Para além de vê-lo no Atlético quando era "niño" em que a equipa era Torres + 10, recordo de jogar FM 2005/2006 e comprar sempre Torres para fazer dupla com Adriano (o tal que passou ao lado de uma grande carreira).
MLourenço Alveiazere
Caríssimos,
Fico com lágrimas nos olhos sempre que leio os 2 primeiros parágrafos destas crónicas.
São sempre dignos do melhor que a língua de Camões tem para oferecer!